Argentina que fez gesto racista no Rio é indiciada por injúria racial

27/01/26

A Polícia Civil indiciou a advogada argentina Agostina Páez, 29, que fez gestos racistas registrados em um vídeo gravado em um bar no Rio de Janeiro, por injúria racial.

O que aconteceu

Inquérito foi concluído ontem pela 11ª DP (Rocinha). A Polícia Civil entendeu que há indícios suficientes da prática de crime e afirmou que as falas da argentina “extrapolaram qualquer contexto de discussão ou desentendimento, atingindo diretamente a vítima com ofensas de forma pejorativa e discriminatória”.

Uma amiga de Agostina, também argentina, foi indiciada pela polícia por falso testemunho. A corporação não divulgou o nome dela.

Polícia Civil disse ter realizado diversas diligências durante a investigação do caso. “Testemunhas foram ouvidas, imagens analisadas e demais elementos probatórios que corroboraram a versão apresentada pela vítima”, informou a corporação.

O relatório da Polícia Civil foi encaminhado para análise do Ministério Público do Rio de Janeiro. O órgão irá decidir se denuncia Agostina e a amiga à Justiça pelos crimes.

Argentina teve o documento apreendido, não pode deixar o Rio de Janeiro sem autorização e está usando tornozeleira eletrônicaA defesa de Agostina não foi encontrada para pedido de posicionamento. O espaço segue aberto para manifestação.

Argentina fala em ameaças

A argentina procurou a Delegacia Especial de Apoio ao Turista nesta semana e registrou boletim de ocorrência alegando sofrer ameaças. A Polícia Civil informou que a investigação sobre a situação está em andamento.

Agostina relatou aos policiais estar sendo ameaçada pelas redes sociais. “A coitadinha está apavorada. ‘Papai, eles querem me matar aqui’, ela acabou de me dizer”, contou o pai dela ao jornal argentino Clarín.

A mulher também disse à polícia que “pessoas estranhas” estiveram na portaria do prédio onde estava hospedada nesta semana. Ainda à imprensa argentina, ela explicou que o endereço onde ela ficava foi divulgado e três homens teriam estado no local enquanto ela tinha saído para comprar comida. “Disseram que a polícia estava me procurando, mas a polícia não está me procurando porque estou em contato constante com eles.”

Já registrei queixa e agora estou prestes a me mudar para outro lugar. Os brasileiros me odeiam.

Agostina Páez, ao Clarín

Entenda o caso

Agostina foi flagrada praticando ofensas racistas na saída de um bar. O episódio ocorreu na quarta-feira (14), mas ela só prestou depoimento no sábado (17), quando teve o documento apreendido.

Vítima, que não teve a identidade revelada, registrou boletim de ocorrência no dia 14. De acordo com a polícia, o homem, que é funcionário do bar, informou que a argentina teria lhe apontado o dedo e proferido ofensas de cunho racial ao chamá-lo de “negro” de forma pejorativa e discriminatória. Ele foi ouvido novamente pelas autoridades no dia 20.

Confusão foi iniciada após a argentina alegar suposto erro no pagamento de uma conta. Para sanar dúvidas, o gerente pediu à Agostina que aguardasse enquanto ele iria conferir as imagens das câmeras de segurança do estabelecimento para verificar o que ela havia consumido.

Durante o período de espera, Agostina deu início aos xingamentos e ofensas discriminatórias contra um funcionário do bar, segundo a polícia. Parte da confusão foi registrada em vídeo e as imagens mostram a argentina imitando gestos de macaco e reproduzindo sons do animal para a vítima. Ela também proferiu a palavra “mono”, expressão em espanhol para se referir a macaco de forma racista. A turista estava no bar acompanhada por duas amigas.

Em depoimento, a argentina negou que o gesto de imitar um macaco tenha sido com conotação discriminatória. “Ela alegou que os gestos corporais simulando o primata, o macaco, ela estava se portando às suas amigas em um tom de brincadeira, não à vítima [que é um homem negro]”, disse o delegado Diego Salarini.

Agostina afirmou que não sabia que seu comportamento era considerado crime no Brasil. No depoimento, ela também afirmou que foi provocada pelos funcionários do bar, que teriam feito “gestos obscenos” para ela e as amigas.

Racismo x injúria racial

A Lei de Racismo, de 1989, engloba “os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. O crime ocorre quando há uma discriminação generalizada contra um coletivo de pessoas. Exemplo disso seria impedir um grupo de acessar um local em decorrência da sua raça, etnia ou religião.

O autor de crime de racismo pode ter uma punição de 1 a 5 anos de prisão. Trata-se de crime inafiançável e não prescreve. Ou seja: no caso de quem está sendo julgado, não é possível pagar fiança; para a vítima, não há prazo para denunciar.

Já a injúria racial consiste na utilização de elementos referentes a raça, cor, etnia, religião ou origem a fim de atacar a dignidade de alguém de forma individual. Um exemplo de injúria racial é xingar um negro de forma pejorativa utilizando uma palavra relacionada à raça.

Saiba como denunciar

Você pode procurar delegacias especializadas, como, por exemplo, o Decradi em São Paulo e o Geacri em Goiás, ou ainda fazer um boletim de ocorrência em qualquer delegacia física ou online.

Caso seja um flagrante, ligue para o 190. Por telefone você também pode ligar no Disque 100 ou no Disque Denúncia

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