sexta-feira, dezembro 9, 2022
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Artigo: Sueli Carneiro, rompendo invisibilidades

Celebrar em vida nossos heróis e heroínas, honrar nossa ancestralidade, reconhecer e valorizar nossas referências é essencial para o resgate da nossa identidade nacional e a reconexão com as nossas brasilidades. Aparecida Sueli Carneiro, nascida em São Paulo (24/6/1950), é filósofa, escritora e ativista dos direitos humanos com ênfase nas lutas antirracista e no Movimento Social Negro. É co-fundadora do Geledés — Instituto da Mulher Negra, no qual é diretora e uma das principais referências do feminismo negro.

Ao lado da intensa participação em todos os momentos de articulação e mobilização negra no país, forjou-se na Universidade de São Paulo, onde se doutorou com louvável produção intelectual quanto à descolonialidade das mentes, tocando e sensibilizando corações combatentes!

Desenvolveu entre nós o conceito de epistemicídio do português Boaventura de Sousa Santos, que explica o processo de invisibilização e ocultação das contribuições culturais e sociais não assimiladas pelos saberes ocidentais. Esse processo é reflexo de uma estrutura social pautada no colonialismo europeu e no contexto de dominação europeia.

Em entrevista ao Instituto Serrapilheira, Carneiro afirma: “Pelo menos no que diz respeito à diversidade humana, a ciência tem sido perversa em muitos momentos. Nós produzimos uma forma de ciência, uma forma de civilização que não foi capaz de coexistir, digamos, harmonicamente com diferentes outras civilizações produzidas pela humanidade. E, muitas vezes, reduz-se essas pessoas à condição de fonte primária de pesquisa, informantes do conhecimento, mas não reconhece a autoridade da fala dos portadores desses saberes”.

Com sua produção acadêmica, Carneiro rompeu com as barreiras do epistemicídio, contribuindo magistralmente para a desconstrução de olhares estereotipados em relação aos saberes do povo negro. “Então, o epistemicídio são todas essas práticas que nos negam ou que nos negam ou nos expropriam da condição de sujeitos do conhecimento, de produtores de cultura, de conhecimento, de ciência. (…) são saberes sepultados. O que nos coloca um desafio …isso é o que nós temos sido; muito eficientes para discriminar, excluir, causar esse tipo de dano a seres humanos. Se nós somos capazes de fazer isso para obter esse efeito. A gente deve ser capaz também, de ser capaz de consertar esse tipo de coisa”.

Assim, falar de Carneiro e de seu legado como filósofa é historicizar o movimento negro nacional com estreita parceria diaspórica, face à contribuição de sólidas alianças entre mulheres afro-latino-americanas e caribenhas, mais a forte herança na destacada representação brasileira na III Conferência Mundial das Nações Unidas contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e a Intolerância Religiosa, de 2001 em Durban, África do Sul.

Na administração pública, marcou não apenas São Paulo, mas também o âmbito federal, na vanguarda formuladora de políticas públicas de combate ao machismo, ao racismo, operando a interseção raça e gênero como referenciais indissociáveis no desmantelamento das opressões que ultrapassam a hierarquização de classes que é própria do capitalismo.

Lembrando as sagas negras no Brasil, fazemos um paralelo entre a trajetória de Sueli Carneiro e a genial Carolina de Jesus para vir de 1960, ano de publicação do Quarto de Despejo, até o recebimento do título de Doutora Honoris Causa da Universidade de Brasília no último 21 de setembro. São longos 62 anos, em que a invisibilidade da negritude brasileira se pronuncia em todas as engrenagens sociais, especialmente em desfavor das mulheres negras, que somam apenas 2% da representação política no Congresso Nacional, segundo o Congresso em Foco.

Nos ambientes acadêmicos, as cotas raciais mudaram a feição do corpo discente das universidades, mas a composição docente permanece marcadamente branca e assim a outorga da titulação meritória ganha maior importância. Constitui-se em vitória das mulheres negras sim, com quem Carneiro sempre trilhou, como na histórica Marcha das Mulheres Negras, em Brasília, em 2015! Seu inafastável compromisso transformador a situa no epicentro de todas essas ações políticas e se refletem na formulação e execução de políticas públicas capazes de elevar o Brasil ao patamar de país desenvolvido.

Conforme escreveu Conceição Evaristo no prefácio do livro Escritos de uma vida, de Sueli Carneiro: “Precisamos escolher e nomear quem são as nossas Mestras e Mestres, e Sueli Carneiro é uma das grandes mentoras que devemos referenciar agradecendo seus ensinamentos”.

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