As cartas atemporais de Mukanda Tiodora, e o retrabalhar artístico de Marcelo D’Salete sobre o Brasil que um dia ainda será!

Somos um país caracterizado pelo seu não apreço em preservar suas memórias, especialmente quando estas não se coadunam ao ideário hegemônico elitista e conservador, que nos define e rege enquanto nação incompleta em direitos e cidadania. Dando forma a um conjunto discursivo e historiográfico sempre parcial e tendencioso, ao ignorar as trajetórias, perspectivas e saberes de pessoas alienadas, despossuídas de sua própria condição de humanidade. O que nos explica, ou ao menos nos situa compreender, o porquê de hoje sermos uma sociedade que sempre se coloca, se manifesta tolerante e compreensiva com os algozes do que com as vítimas. Ouvimos e reproduzimos discursos e práticas de ódio como formas de liberdade de expressão, ao mesmo tempo que rotulamos e desvalorizamos toda reação em contrário, enquanto “hipocrisia”, “vitimismo” ou “mimimi”! 

Uma postura historicamente alienante, que em geral, se faz acompanhar pela saudade dos “bons tempos” em que você não precisava se preocupar com aquilo que pensava, falava ou fazia em relação com as outras pessoas. Numa perspectiva de que havia uma maior liberdade e pureza no “antigamente”, em detrimento as chatices do mundo atual e sua imposição de pautas de que tudo é racismo, de que tudo é preconceito ou discriminação. Sem se dar conta – ou seria de maneira consciente? – que você sempre se fez enquanto agente reprodutor de um sistema estruturado para se fortalecer e desenvolver literalmente em cima de privilégios de raça, gênero e classe. Um estereótipo do modelo de pessoa de bem, que é incapaz de ter empatia por aqueles a quem sempre considerou enquanto os “outros”, os “diferentes”.  Pessoas bem situadas e conformadas, ou devidamente condicionadas, com os seus respectivos lugares num conjunto social, que quando tensionadas por nossas mazelas históricas fundantes, lança mão da famosa desculpa-justificativa de que “sempre foi assim”…

Um “assim” que mascara as outras experiências (civilizatórias) de vidas políticas, culturais, sociais, religiosas para além das normativas europeias, brancas e cristãs que deram formas, sentidos e potencialidades a esse país. Contra toda sorte de situações, empecilhos e perseguições oriundas de um Sistema edificado em cima dos suores, dores, sangue e mortes dos povos “não brancos” dessa pátria nada gentil. Expressão-sentimento que revela o quanto ainda hoje somos ignorantes em relação a quem somos de fato enquanto povo brasileiro, a nossa verdadeira história de impossibilidades que se realizam e virtudes não contadas, que dão fim as falsas narrativas que legitimam e dão validade moral e social a um Brasil que não conhece a si mesmo e, pior, despreza o seu melhor, o que possuí de mais belo enquanto humanidade.

Para romper essa lógica de exclusão e mentiras, para romper essa falsa narrativa/inverdade histórica, se dá a constituição de uma série de resistências sinalizadoras de (sobre)vivências que mesmo a margem de nossos cânones intelectuais e renegadas por nossas hegemonias sociais, nos revelam o existir de seculares expressões de humanidades insubmissas, rebeldes e insurgentes, que não se deixam apagar em sua chama de vida. Em especial através das obras oriundas de nossa cultura popular, sempre permeadas por ricas camadas e nuances que as vezes não se fazem revelar numa primeira vista. Ou por expressões artísticas que através de elaboradas discursivas imagéticas, sofisticadas e refinadas, tanto na elaboração de seus sentidos e conteúdo, quanto nas maneiras que rompem as barreiras (conceituais, sociais e culturais), para acabar por circular e interagir por caminhos e alcances inimaginados por aqueles que se postulam, enquanto soberanos de todas as razões. Ao mesmo tempo em que se constituem como experiências de organização social orgânicas, que dão voz e visibilidade a sujeitos humanos que de outra maneira ficariam renegados, imperceptíveis em seu próprio país. Lançando novos olhares e compreensões acerca da ocorrência dos batuques, sambas, pinturas, poesias, romances, cantares e falares, que se evidenciam como práxis antirracistas, e de negritudes, das populações afro-brasileiras ao longo dos tempos da nossa História, desde as épocas coloniais, já no processo de desterro e diáspora a partir do continente africano, passando pelo período imperial, até os diferentes períodos de nossa república. 

Obras realizadas por autorias negras, afirmativas e de discurso autônomo não tutelado, na maioria das vezes, em linguagem artística livre ou em negação aos padrões estabelecidos como de “bom gosto” ou de “legitimidade”. Assim rompendo as estruturas do racismo brasileiro e seu definir, sobre o que pode ou não ser discutido e problematizado acerca de nossa pretensa “normalidade social e harmonia racial”. Dessa maneira criando, constituindo e dando sentido as suas próprias narrativas e historicidades. Sendo a produção de HQs, com temáticas biográficas ou ficcionais, um exemplo de uso artístico-político afro-brasileiro que se insere a todo um – já constituído – conjunto de lutas negras no país. Um fenômeno que se faz cada vez mais visível e influente em suas intenções, desde pelo menos final dos anos 1990¹ e começo dos anos 2000, tendo como o seu maior expoente o conjunto artístico de Marcelo D’Salete.

Marcelo D’Salete. (Foto: Malu Mões)

Autor que busca desde seus primeiros trabalhos uma inflexão, um contestar público ao nosso ideário de sociedade não racista. Com narrativas que tenham protagonismo de personagens negros, de historicidades que se dão a partir destes, ou que se desenvolvam em seu entorno, centrados direta ou indiretamente, nos cotidianos existenciais negros. Lançando e desenvolvendo seu olhar crítico-artístico a partir de fatos históricos ou fenômenos sociais ignorados por grande parte de nossa intelectualidade, relegados aos cantos mais distantes de toda luz, por nossa historiografia formal e tradicionalista em seu arcaísmo e conservadorismo.

Uma caminhada caracterizada por obras sempre instigantes, que dialogam e estimulam o seu público leitor não só a emergir em sua narrativa, como a esmiuçar sua discursiva, a buscar os menores detalhes de seus desenhos. O que gera um processo de empatia ante aos personagens por ele elaborado e, principalmente, aos destinos que estes farão por provar. Dando conteúdo a um mosaico que se torna maior, amplo e belo a cada novo trabalho seu. Exercendo uma ponte reflexiva entre o passado, ignorado, que fomos. Com as possibilidades de sermos sociedade outra, para além de reféns dos grilhões de nossa gênese racista e escravocrata, ao mesmo tempo que se faz, desde seu primórdio artístico, contemporaneamente inserido, de maneira orgânica, ao debate antirracista e pró negritude que perpassa as relações políticas no Brasil. Tornando-se cada vez mais uma referência de artista socialmente compromissado a enfrentar as intempéries de seu tempo e espaço. Em especial nos últimos anos de recrudescimento ultraconservador, de viés fascista, que passaram a querer pautar a discussão racial, e do racismo dele decorrente, no país. Sem que isso represente uma não primazia, ou interfira ao seu domínio como verdadeiro mestre da chamada nona arte. Senhor de uma poética, de uma estilística única, personalista em sua composição e arranjo de ângulos, em seu uso de cores, majoritariamente em preto e branco nas suas HQs, sempre nos apresentando uma imagética para além do usual ou esperado. Contador de história, griot moderno, nos saudando com uma narrativa referente a um infinito universo social paulistano, enquanto representação simbólica, um retrato pronto, do Brasil. Que costumeiramente não está habituado, e não gosta de se ver confrontado ante sua verdadeira face de contradições, abusos e violências. E nem tão pouco está acostumado a lançar olhar, ante possibilidades existenciais que revelam outras formas de se viver, de se construir um futuro Brasil sem vergonha de se reconhecer como de fato o é (negro mestiço) e não como nossas elites acham que deveria ser (pretensamente branco europeu).

Mukanda Tiodora em seus cotidianos na cidade de São Paulo.

Com “Mukanda Tiodora” (Editora Veneta, 2022), D’Salete nos situa ante uma história baseada em fatos pessoais e históricos reais, ao acesso das cartas escritas e recebidas por Teodora Dias da Cunha, a Mukanda Tiodora – africana de Angola, escravizada e trazida ao Brasil – na sua busca por reencontrar seu esposo e filho, separados que foram pela lógica perversa de compra e venda do comércio escravagista. Um retrabalhar histórico, que nos situa em meio as vivências e cotidianos da província de São Paulo, em especial das tensões políticas, reações e adequações que se davam socialmente na capital paulista ante e a partir do flagelo da escravidão e da importância que o interior do estado, em especial Campinas e sua região, exerciam na estrutura econômica e política do país, como centro da economia escravagista da incompleta nação. E como Tiodora circulava em meio a todos esses processos, a todas essas interações, como figura que mesma ferida e marcada por tantas negativas e pesares, não abdicou a toda hora e momento de se lembrar – ciosa e orgulhosa – de quem era, dos tempos e referenciais de África, de não se deixar ter negada sua esperança de reencontro com os seus familiares, de para isso subverter as ordens vigentes. De abrir e aproveitar brechas, de se colocar e se afirmar enquanto pessoa humana, de uma mulher negra em tempos de escravidão que não sabia qual era o seu lugar, na sua busca sem trégua em fazer o seu próprio lugar, para viver e estar com sua família! 

Reprodução da HQ, “Mukanda Tiodora”

Um quadrinho que habilmente nos apresenta uma versão lúdica, poética e imagética dos processos de resistências e sobrevivências negras em terras brasileiras que se deram pelas relações de solidariedade e preservação comunitária – tanto em sentido núcleo familiar, quanto de coletividade identitária expandida – preservadas ou construídas pelas mulheres afro-brasileiras, a partir da condição de imigração forçada, imposta aos diferentes e diversos grupos humanos de pertenças africanas que vieram habitar, e retransformar as terras brasileiras. Um fenômeno social e histórico, ainda tão pouco destacado e valorizado, com a atenção que lhe é devida.  Mas que aqui foi inspiração para o desenvolvimento de uma narrativa com poucos, mas precisos, diálogos. Pontuais ao desenvolvimento da(s) trama(s) da obra, ancorado em combinações de preto e branco, de luz e sombras, que saltam aos olhos, a cada página folheada, através de uma personagem que nos verbaliza sua voz existencial com uma violência tão sutil, quanto impactante, nos desnudando seus meandros psicológicos. Os seus sonhos, dores e esperanças de um novo porvir! Nos tornando cumplices, muito mais do que simples leitores, de tão estupenda jornada! 

Uma constituição de obra que em mãos menos talentosas poderia facilmente trilhar caminhos outros, mas que sobre o controle de um artista em seu pleno vigor criativo, dominando todas as extensões e possibilidades de seu oficio, nos apresenta essa obra seminal para se discutir e melhor problematizar as vivências e potências negras em meio as suas relações sociais que se davam e constituíam os alicerces da sociedade brasileira, de sua face mais humana e revolucionária, para além do apagamento institucionalizado que estas características das populações negras sofreram ao longo de nossa história. Mukanda Tiodora, cumpre perfeitamente o preenchimento dessa lacuna historiográfica, nos obrigando, enquanto sociedade, a nos encararmos e nos reconhecermos de fato como somos, sem ilusões ou pretensões racistas eurocêntricas. Tudo alinhavado em uma narrativa sensível, de empatia e solidariedade, mas ao mesmo tempo para longe de uma neutralidade autoral ou imparcialidade, sem se preocupar em ser rotulado de panfletário ou doutrinador. O que todo intelectual, todo pensador social como ele, de seu porte e estirpe sofre a cada manifestação sua, por aqueles que não conseguem contra-argumentar suas interpretações artísticas. Se agisse ao contrário, estaria não somente em negação com sua própria trajetória como artista, mas em especial com a narrativa de vida de Tiodora, do que ela representa enquanto simbolismo e inspiração. Sendo por isso, essa sua obra, sua expressão artística mais impactante. De impactos e reflexões que não terminam ao folhear da sua última página, mas que nos tensiona, nos implica refletirmos sobre nós mesmos e nossa importância nesse mundo, nesse país construído por sua personagem viva que através de seus traços, parece nos olhar diretamente, como que nos inferindo a saber qual destino almejamos para nós, enquanto pessoa e enquanto nação.

Uma sensibilidade crítica e estética autoral, que ganha novos e maiores contornos quando durante a narrativa da obra nos vemos apresentados a figura de Luiz Gama, circulando pelos espaços negros de convívio e circulação, como personagem que nos situa ante a situação política da época e dos processos de resistências negras que se davam em contraposição ao Sistema vigente. Nos revelando as particularidades e contradições que eram tensionadas e aprofundadas por aqueles que eram literalmente desumanizados em seus direitos pelas elites senhoriais. Em que a própria cidade de São Paulo nos é situada através de ângulos e perspectivas, em estruturas de páginas que nos inserem também como personagens da história, sendo a perseguição pelas ruas das cidades, momento sublime dessa forma de narrativa! Nos apresentando e situando a uma São Paulo negra, a uma sociedade, e Estado, construída e desenvolvida pelas diferentes comunidades negras que aqui vieram por habitar, como elemento basilar social e cultural, dinamizador e modernizante das searas paulistas. Muito antes, e mais profundamente, do que a noção racista, e simplista, de que o progresso civilizatório pelas terras bandeirantes só se deu a partir do embranquecimento de sua população com a chegada da imigração europeia. Marcelo D’Salete nos presenteia a uma representação simbólica da sociedade brasileira por uma ótica, por uma perspectiva poucas vezes vistas em uma história em quadrinhos, ou até mesmo em produções de História e Sociologia. Ao optar por constituir um tipo de expressão artística não usual, em sua problematização e questionamento ante aos cânones ideológicos de nossa da formação social brasileira, nos apresentando os africanos e seus descendentes como agentes protagonistas de nossas cidades. Outro fator que consideramos tornar esta obra, tão pioneira.  Ainda mais numa sociedade, tanto paulista, como brasileira, que só enaltece – por vezes até inventando – laços e influências de branquitudes, como traços de superioridade social e racial ante aos “outros”, aos “inferiores” e “comuns” que aqui habitam! Mascarando totalmente sua face negra, suas historicidades e almas de origem africanas, seus cantos e encantos, suas potências, saberes e poéticas existenciais que aqui construíram, literalmente, um novo mundo! Que ainda hoje, teima em não lhes reconhecer, em detrimento de uma falácia histórica – ou seria história de terro? – que nunca foi…

Além de ainda nos apresentar, de maneira precisa, a centralidade que entidades de poder como a Igreja Católica, tinham como agentes reprodutores e mantenedores da ordem escravocrata. E de como essa realidade acabava por revelar o melhor e o pior de cada ser humano nessa situação. Desde os homens de boa fé, representantes da vontade divina na Terra, como de simples e puras crianças, inocentes de todo mal ou interesses torpes! Nos apresentando situações em que somos postos como observadores participativos, e não como mero leitores, pois não há como se tornar isento ante realidade tão torpe e sórdida, como de viver em uma época em que a superioridade de uma raça era legitimada e apoiada pelas forças estatais e padrões sociais hegemônicos do período! Além de nos revelar, em meio ao desenrolar de sua trama, cenas de um cotidiano de pessoas negras que dão vida e sentidos a uma cidade, realidade essa a qual por vezes não temos a devida percepção ante a sua importância e valor histórico. Sem deixar de contextualizar a existência de interações entre as populações negras e indígenas, que se relacionam, comunicam-se, dialogam e se ajudam contra um inimigo em comum, contra um sistema que se alimenta – literalmente – de seus corpos e almas. Um Brasil verdadeiramente popular, que sempre reinventa novas formas de solidariedades e existências, para o desespero daqueles que se autointitulam os “donos do poder”. 

Conjunto artístico, que possuí seus espaços simbólicos e territoriais, a partir da história central de Tiodora relacionada a outras narrativas e perspectivas através da figura de Benê, o jovem menino, que circula e irrompe por espaços proibidos, exerce sua voz e não se omite ante situações em que não deveria estar presente, que ousa e se faz enquanto agente livre para ajudar aos seus, principal responsável pelas conexões descritivas que se fazem ao final conectar-se, em um dos momentos mais sublimes da produção ficcional brasileira dos últimos tempos. Não que isso signifique um final feliz, mas sim enquanto respeito e coerência a Tiodora, como se fosse um desfecho de uma carta que ele próprio estivesse escrevendo diretamente para ela, como que a querer lhe dizer que ao final, tudo ficaria bem! Que de certa maneira seus sonhos e desejos vivem em nós… Que apesar de todas as dificuldades e obstáculos, tudo dará certo ao seu final! Publicação, que nos tira de nossas certezas, nos situa em regiões estranhas e desafiadoras, para além do comodismo do senso comum ou de respostas singelas. Que não nos deixa indiferentes ao seu conteúdo e que de imediato nos faz olhar a realidade a nossa volta de uma outra maneira. Não é produção artística de uso rápido e descartável, mas objeto para ser relido, degustado por várias e várias vezes, detalhadamente, sem pressa… Tal qual uma boa roda de samba, se deixando levar para outras percepções e compreensões, ante ao mundo que se altera ao seu redor. Sabe aquela forma de arte que lhe impacta tanto, que você sente seu ser se modificar a cada momento de interação, a cada virada de página? Pois, é! “Mukanda Tiodora” de Marcelo D’Salete é expressão artística desse quilate e influência. Verdadeira obra-prima, com a qual somos presenteados! 

Uma ode primaveril em uma época de tanta dor e tragédia, de adoração das ignorâncias e crueldades, recebemos como um sopro de resistência e vida, de esperança sobre dias melhores que hão de florescer! E ainda nos brinda com uma sessão de paratextos – além de fotos, mapas, tabelas, glossário e uma cronologia da luta contra escravidão em São Paulo – do próprio autor e da historiadora Cristina Wissenbach que descobriu e investigou as cartas de Tiodora. Missivas que nos são apresentadas em primeira pessoa, nos possibilitando um contato direto, pela própria escrita e sentimentos de Mukanda, em contato direto com a voz interior de pessoa com uma história de vida nada singular ou comum… Que supera um manto de silêncio e de invisibilidade que lhe foi imposta por mais de um século, para revelar-se em todo o seu esplendor e beleza, em uma trajetória de permanente afirmação de sua negritude e orgulhosamente ciosa de sua condição de mulher negra e africana, numa sociedade que lhe negava qualquer forma de direito, como até mesmo de reconhecer sua condição de ser humano. E que apesar dos pesares nunca deixou de lutar e sonhar, pelo triunfo de novos tempos, de uma nova era que haveria de ser constituída por estas plagas! 

Só nos restando dizer, após leitura tão impactante:

“Obrigado Tiodora, por tudo, por seus amores, desejos e utopias. E que na certeza de estar em terras de África – abençoada e protegida pela Rainha Kalunga, senhora de todas as travessias – feliz na companhia de seu esposo e filho, somos a continuação de seus sonhos, vivos e poéticos, a construir uma nação que não terá mais vergonha, nem mais matará, aqueles que são o sal e a alma de uma terra que insiste em não nos amar, chamada Brasil!” 


 ¹ Sem que com isso desconheçamos, ou ignoremos, a importância da produção gráfica e quadrinista de Maurício Pestana, enquanto artista negro, que de maneira pioneira e consciente, deu forma a uma obra referencial que problematiza nossa hierarquia social racista e arcaica, denunciando a falácia de nossa “democracia racial” e contribuindo na constituição e caracterização do que veria ser posteriormente chamado de “novo movimento negro brasileiro” a partir dos anos 1970. Um conjunto artístico dos mais inovadores e impactantes que se deram em plena vigência ditatorial no país, mas que é estranhamente ignorado em sua existência, potencias e significados, mesmo entre seus pares geracionais, quando abordadas a trajetória histórica da nona arte no Brasil. Um silêncio ensurdecedor sobre a sua obra, e o seu não devido reconhecimento, que acreditamos explicar, por si só, as contradições e os limites de nossa sociedade estruturalmente racista e discriminatória que tanto retratou e confrontou nas pontas de lápis e pincéis, ao longo de toda a sua carreira, até os dias de hoje.


Christian Ribeiro, sociólogo, mestre em Urbanismo, doutorando em Sociologia pelo IFCH-UNICAMP. Professor titular da SEDUC-SP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil. (Foto: Arquivo Pessoal)

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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