Pedagogia Antirracista como práxis de transformação social: diálogos possíveis

A Pedagogia é a ciência do ensino que abraça aspectos educacionais de orientação, isto foi se transformando ao longo da história de acordo com os propósitos de cada povo e que da perspectiva materialista é de modo dialético, na interação das pessoas com o meio, que as sociedades realizam suas transformações sociais a partir de suas contradições.

Obviamente essas transformações não se dão linearmente e a educação é a ferramenta que está a serviço das necessidades sociais e ideológicas de cada período, por isso ela é um campo de disputa de poder, onde de conservadores a progressistas brigam por determinar as diretrizes, o currículo, as prioridades, as metas e objetivos.

Na história da Educação isso é bem explícito, pensando no contexto nacional, não se valorizou o que irei chamar de Pedagogia dos Povos Originários, não temos nos livros de História da Educação, registros de como se dava a orientação dos costumes e tradições dos povos originários desse território e se ressalta a educação a partir da perspectiva do colonizador, esta que foi direcionada para manter os privilégios daqueles que eram abastados, e ainda que haja registro de uma proposta pedagógica àqueles que aqui estavam a pedagogia jesuítica, foi com o propósito específico de aculturar e escravizar os povos originários aos costumes do opressor, o colonizador português.

Com o sequestro e escravização de africanos e africanas, para os europeus havia cada vez mais a necessidade de afirmar sua pseudo-superioridade, levando em consideração que apenas eles percebiam-se como humanos, a educação foi por séculos ferramenta da perpetuação da branquitude e do colonialismo, com nuances de que o patriarcado também bebeu nessa fonte, porém, as mulheres brancas, ainda que sofressem com uma instituição machista, tinham acesso a algum tipo de humanização por meio da manutenção de valores patriarcais.

A luta por direitos educacionais, além de outros, e valorização indígena e negra inicia com a colonização, já que esses povos foram desumanizados, saqueados e agredidos por brancos europeus. Os direitos alcançados são poucos, recentes e vivem sofrendo ameaças da branquitude e do racismo.

A descolonização das práticas educativas e de seus propósitos é o primeiro passo para que possamos pensar em padrões equânimes de uma sociedade.

Descolonização refere-se ao desfazer do colonialismo. Politicamente, o termo descreve a conquista da autonomia por parte daquelas/es que foram colonizadas/os e, portanto, envolve a realização da independência e da autonomia.

A ideia de descolonização pode ser facilmente aplicada no contexto do racismo, porque o racismo cotidiano estabelece uma dinâmica semelhante ao próprio colonialismo: uma pessoa é olhada, lhe é dirigida a palavra, ela é agredida, ferida e finalmente encarcerada em fantasias brancas do que ela deveria ser. (KILOMBA, 2019, p. 224)

Percebe-se que a disputa de poder no campo educacional é muito maior, as contradições, os aforismos neoliberalistas que pregam educação profissional, ou com objetivos e metas de formação para o mercado de trabalho, sem antes pensar na proposta antirracista, está apenas estabelecendo as mesmas diretrizes do passado, onde aos brancos eram reservados as cadeiras das letras, da filosofia, das ideologias, do jurídico, ou seja, de quem definem a cultura , a economia e o social. E aos que estavam a mercê de uma educação pública, gratuita, seriam treinados para serem proletários, treinados para seus expedientes nas fábricas, nas plantações, para serem obedientes e servis.

Pensar em descolonizar a educação, não é apenas incluir conteúdos que falam das lutas dos oprimidos, descolonizar a educação é criar espaços de diálogos possíveis, críticos, revolucionários, em que os oprimidos sejam protagonistas, se rebelem e com essa práxis possam se libertar da opressão.

[…] uma práxis se torna revolucionária quando ela não pode abandonar a imperatividade de criar, coletivamente, transindividualmente, uma nova ordem econômica, política, social e cultural, mas sempre a partir da ordem social instituída, com a qual estabelece uma relação dialética (de superação), em que as “situações limites” se tornam “inéditos viáveis”. (ROMÃO, 2012, p. 22)

Assim, a educação só servirá de ferramenta para a transformação social, se este espaço de poder for reestruturado intensamente, de modo que, haja diversidade nos currículos, discursos, cultura e as pessoas que determinam o que é conhecimento e quais ideologias serão ressaltadas.

No contexto de nosso país, o racismo se reinventa e cria manobras para que a cada vez que os povos conseguem avançar, a armadilha da estrutura racista se move e tenta desestruturar a luta, temos que levar em conta que ainda que ocorra ações no campo individual, essas ações que aprisionam pretos, pretas, indígenas, são parte de um macrouniverso racista que não abre mão de seus privilégios coloniais.

Essa estrutura política social manteve as relações étnico-raciais em uma pirâmide social, onde o branco está no topo. A estrutura político econômica e jurídica, justificada pela ideologia da classe dominante, moldou a História e a Cultura do país em seus aspectos raciais, impedindo que negros e negras, mesmo no pós abolição, participassem plenamente da formação social (SILVA, 2020, p.25)

É uma grande cilada não racializarmos as relações, sejam elas quais forem, pois para um país forjado no colonialismo e na escravização de indígenas e afrodiaspóricos, o que fundamentou o que chamam de classe, foi e é o recorte racial, pois ainda que essas pessoas ascendem economicamente, a sociedade performa padrões coloniais, desumanizando-os/as.

Cada vez mais espaços sociais, econômicos, culturais, nutridos pela população negra e indígena tem se fortalecido, pois essa população tem voz, tem força e entende que o futuro é anscestral, que ao contrário do que prega o neoliberalismo, somos coletivos e nos aquilombamos.

Contudo, como já dissemos acima, a estrutura nacional é racista e violenta, onde a branquitude se especializa em não ceder lugar, muitas vezes falamos que não cedem os privilégios, porém pensando bem, eles não abrem mão nem mesmo dos direitos fundamentais e continuam performando atitudes coloniais.

A pedagogia é uma grande área de atuação, ela não acontece apenas nos muros da escola, é fruto da interação do eu com o outro e destes com o mundo. Nossos diálogos cotidianos, as rodas de conversa com os amigos e familiares, o discurso que acatam no seu espaço de trabalho, no seu ambiente religioso, o que você reproduz no metaverso virtual, tudo isso pode ou não estar a favor da construção de uma sociedade antirracista.

A linguagem em suas diversas formas é nosso aliada, é aliada dessa pedagogia antirracista, com toda a velocidade que na atualidade propagamos essas narrativas. Podemos transformar nosso meio, precisamos estar mais atentos e atentas a outros diálogos, outras narrativas carregadas de propósito, isso no campo da arte, da literatura vem acontecendo, com obras que valorizam a história negra e indígena.

Porém isso precisa estar na educação de maneira mais pragmática e efetiva, é importante que esteja em nosso campo de visão da vida cotidiana, para que não transformemos a vida real em fantasia, para que tenhamos nossos direitos fundamentais garantidos, para que não sejamos desumanizadas/desumanizados.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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