Por que mandaram matar Marielle Franco? Essa agora, é a pergunta que não se cala…

Seis anos depois e finalmente o assassinato de Marielle Franco e Anderson Borges, parece estar chegando a um final, pelo menos em relação aos mandantes desse crime fatal. Restando elucidar os motivos que deram origem a ato tão baixo e vil. 

E acima de tudo é um ato de justiçamento e honra da memória de Marielle, que teve sua vida pessoal e política atacada de maneira tão baixa, tão rasteira. Com ilações que a tratavam como verdadeira criminosa, por vezes como se ela fosse culpada por sua própria morte! Sendo que os fatos até agora revelados pela justiça federal, nos colocam diante do aparelho estatal do Rio de Janeiro totalmente ocupados pelos braços político e econômico das milicias cariocas.  

Conjunto de organizações criminosas cariocas que utilizaram de estruturas e canais estatais para arquitetar, desenvolver e dar cabo de uma representante pública em exercício legislativo, por esta atrapalhar os negócios ilícitos que movimentam uma verdadeira economia paralela no estado fluminense, ao exercer de maneira digna e correta a sua representação e defesa dos direitos do povo ante a interesses e sanhas meramente particulares, depreciativas dos valores públicos e democráticos que devem reger a vida em sociedade.

Em outras palavras, Marielle foi assassinada por exercer dignamente e corajosamente, uma plena representação política, em um Estado democrático de direito, em defesa dos direitos cidadãos dos menos favorecidos e assistidos pelo poder estatal. Era uma presença política viva e inconteste, que não se deixava ameaçar e muito menos cooptar pelas forças criminosas que estendiam seus tentáculos cada vez mais profundamente em todos os cantos da sociedade carioca.

A luta pela organização coletiva das comunidades periféricas e das favelas por direitos de moradia, além das pautas políticas de cunho identitárias antirracistas e LGBTQI+, revelam a constituição de um mandato político que se punha publicamente contra o (ultra)conservadorismo reacionário de valores e costumes que se faziam impor na capital carioca a partir da infiltração e ocupação territorial que as milicias passam a usufruir de um comando político e econômico das áreas urbanas esquecidas a própria sorte, a partir de meados dos anos 1990 até hoje se tornar, talvez, a grande máquina política do estado do Rio de Janeiro. Inferindo diretamente, decidindo e impondo seus interesses ilícitos ante as reais necessidades das populações que habitam as áreas da cidade por eles geridas. Contra essa força cada vez maior e irrefreável, se insurge a figura humana de Marielle Franco.

Mulher negra suburbana, favelada, homossexual, intelectual, parlamentar defensora dos direitos humanos, militante antirracista, negra feminista, pró negritude, defensora das religiões de matriz africana e socialista, numa sociedade cada vez mais formalmente reacionária e racista. Em que tais valores humanistas são vistos como socialmente perigosos a uma construção civilizatória cristã (ultra)ortodoxa intolerante defendida pelas hordas milicianas, até enquanto instrumento de controle e de alienação das populações habitantes das regiões das milícias. Marielle, por essa visão torpe e distorcida da vida, era figura que incomodava pelo simples fato de ser quem era e de ter chegado, contra todas as possibilidades e previsibilidades, a um cargo político, eleita pelo povo. Em constante destaque e divulgação de suas causas e bandeiras políticas. Que ousou sair candidata a senadora, com chances cada vez maior de vitória. O que não podia ser tolerado nem em possibilidade, muito menos enquanto concretude que poderia vir a atrapalhar ainda mais os planos de expansão miliciana.

Por isso, sua morte sendo definida em conluio com milicianos, agentes policiais (Rivaldo Barbosa, delegado titular de polícia, ex-secretário da Polícia Civil do RJ) e agentes estatais (Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do RJ), com anuência de representantes legislativos cariocas e fluminenses (Chiquinho Brazão, Deputado Federal fluminense), numa verdadeira rede criminosa de amplo alcance. Vida humana descartada enquanto um nada, como se fosse simplesmente detalhe a ser apagado e esquecido, que borrava a implementação de um plano muito maior que era(é) a corrupção cada vez maior e mais profunda do Estado fluminense, com interesses de atuação em território nacional.

Marielle era peça de um jogo muito maior do que se imaginava, que deveria ser eliminada para não atrapalhar mais ainda esse plano de dominação miliciana. E tal situação de fato ocorreu, na maldita noite de 14 de março de 2018, com o carro em que se encontrava sendo metralhado, tendo ela e Anderson Gomes, o seu motorista, tendo suas vidas ceifadas. Sendo que quase de imediato já sendo lançada a primeira de tantas fake news que iriam ser lançadas e repercutidas visando a destruição de sua memória e de seu legado político. Um verdadeiro novo assassinato posto em prática, agora de honra pessoal e práxis política, minutos depois de sua morte física, posto em execução de maneira impiedosa. Como se não pudesse haver a mínima chance de ela ser levada a sério ou de ainda ser lembrada positivamente. Não bastava matar o corpo, tinha que se apagar o que ela representava, as ideias que ela legitimava e tão ardorosamente defendia. 

Mas o não aceite ante tal barbárie, a revolta que se instalou ante tal crime, as insurgências dos movimentos negros pela elucidação devida do crime, assim como a repercussão internacional do assassinato, fizeram com que novos caminhos fossem constituídos, que novas esperanças surgissem e florescessem. Enquanto flores de resistências que irrompiam o frio asfalto de intolerâncias e preconceitos, como a não aceitar intolerâncias e preconceitos como padrões que iriam reger e nos definir enquanto povo, a memória viva de Marielle se torna cada vez maior e mais forte, incomodando cada vez mais a aqueles que se sentiam seguros e acima do bem e do mal. Ao mesmo tempo que ampara, acalenta e influencia a todas as pessoas que almejam a construção de uma sociedade livre de qualquer tipo de exploração ou dominação, contra toda e qualquer forma de discriminação. 

Um espírito político de liberdade, igualdade e justiça que inspira e repercute seus ideários para um público cada vez maior e mais amplo. Que nesse domingo, dia 24/03/24, teve o primeiro vislumbre de justiça real para a sua morte física. Aos que queriam e festejaram seu assassinato, para aqueles que lucraram política e economicamente com o seu falecimento, que não haja mais paz, nem por um instante ou momento. Que não haja mais mentiras e esconderijos para os chacais da morte! Que suas sabotagens e armadilhas ante as ações investigativas não mais façam por ocorrer, e não mais tenham sucesso!

Que se faça finalmente justiça, num país de tamanhas atrocidades e impunidades, e que traga um pouco de conforto e paz aos seus familiares. E que como um acalanto, como brisa que refresca e revigora, que em meio ao terror de tempos tão difíceis de se combater os absurdos de preconceitos e discriminações, ao qual somos submetidos a todos os dias, a toda hora e momento, nos aponta que apesar de tudo, nós não estamos vencidos e de que nós venceremos. De que somos muito mais e melhores do que essa mediocridade canalha de ódio e canalhices que querem nos impor e normalizar.

Mas não nos iludamos, a descoberta e reconhecimento por parte da justiça dos mandantes do assassinato é uma conquista extraordinária por vários motivos e significados. Mas que não se pare por aqui, queremos e se faz necessário descobrirmos a causa, ou as causas que deram vazão, que impulsionaram esse crime. 

Quem matou Marielle? Já descobrimos! Mas por quê mataram Marielle? Essa é pergunta que ainda não se calou e que tanta coisa pode ainda nos revelar em relação a esse caso. Acerca das motivações, dos conluios e conchavos que deram tanta segurança de impunidade tanto aos seus mandantes, quanto aos seus executores. 

E somente assim, de fato, poderemos crer que esse crime hediondo, vil e covarde – profundamente covarde – possa realmente ser considerado solucionado em sua plenitude. Continuemos em luta, continuemos em guarda, sem dúvida mais seguros e revigorados, de que a verdade dos fatos finalmente se fará revelar em sua totalidade! Mas que não nos deixemos iludir, ante ao que hoje acabou sendo desmascarado ao mundo!

A luta pela justiça a memória de Marielle e Anderson, ainda não terminou. Na verdade, entrou em uma nova e delicada etapa, em geral aquela que se não for bem cuidada e acompanhada, acaba por soterrar as mais vibrantes das esperanças. Que a esperança renascida nesse domingo tão especial, não se torne cinzas daquilo que deveria ter sido e não foi! Não deixemos que isso aconteça! Não permitamos, nem por um instante ou segundo sequer, que isso ocorra…

Marielle e Anderson, PRESENTE! 


Christian Ribeiro, sociólogo, mestre em Urbanismo, doutorando em Sociologia pelo IFCH-UNICAMP. Professor titular da SEDUC-SP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil. (Foto: Arquivo Pessoal)

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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