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As “sardinhas” derrotam a extrema direita

No final de janeiro, a extrema direita na Itália, contra todas as previsões, foi fragorosamente derrotada nas eleições regionais na Emília Romana. As esquerdas ficaram com 51,4% dos votos, contra 43,7% da direita. O candidato à presidência da região vencedor, Stefano Bonaccini, tratou em sua campanha de problemas concretos e locais, em vez de bater de frente contra os carros-chefes da extrema direita, como a anti-imigração e o racismo. O grande perdedor foi Matteo Salvini, líder da Liga do Norte, expoente da vertente nacionalista, populista, xenófoba e anti-imigrantes na Itália.

Por Paulo Sérgio Pinheiro, da Comissão Arns, no UOL

Foto: Lucas Ferraz/Piauí-UOL

Uma das razões do fracasso do candidato a duce – que em agosto de 2019 tentou dar um golpe parlamentar para obter os plenos poderes – foi o movimento delle sardine, o movimento das “sardinhas”. A referência às sardinhas vem da expressão stretti come sardine, em português, “como sardinhas em lata”, e se refere à necessidade de lotar as praças públicas. A proposta, que partiu de quatros jovens em Bolonha, justamente a capital da Emília Romana, visava a mobilização da sociedade pelo Facebook em torno dos valores do antifascismo.

Em contraste com a pregação boçal e ofensiva da extrema direita, as “sardinhas” usam uma linguagem pacífica, pregando a tolerância e contra a violência verbal. Os participantes do movimento ignoram as provocações da extrema direita, em vez de responder. Em novembro de 2019, conseguiram reunir em praça pública, na Bolonha, mais de 15 mil pessoas. Depois a experiência foi replicada em cidades como Modena, Milão, Florença, Turim, Nápolis, Palermo, com multidões cada vez mais numerosas, chegando a reunir cem mil pessoas em Roma, no dia 14 de dezembro.

A novidade é que o movimento das sardinhas é apolítico e não alinhado a qualquer partido. Bandeiras e faixas de partidos são banidas nas manifestações para favorecer um espírito de inclusão e enfatizar a dimensão cívica dos protestos. As “sardinhas” estão tendo sucesso onde a esquerda progressista falhou, incapaz de achar vocabulário e ideias para desafiar a retórica divisiva e violenta de lideranças da extrema direita.

Hoje, as “sardinhas” já têm uma estrutura de comunicação sólida, com uma dezena de porta vozes nacionais e membros articulando a mídia. Depois das eleições de 2020, em março, projetam criar uma estrutura organizativa, por meio de amplas conferências, para discutir seu futuro. Desde já deixam claro que continuarão a não indicar candidatos ou apoiar partidos, nem vão se transformar em partido político.

No Brasil, ataques da extrema direita acontecem, às escancaras, para desmontar a democracia constitucional de 1988. Diante dessa realidade, as organizações de direitos humanos estão profundamente divididas em temáticas específicas. As forças políticas democráticas e progressistas, baratinadas, não se articulam.

Para sairmos do torpor atual, a experiência inclusiva das “sardinhas” pode inspirar a mobilização em torno de um programa comum mínimo, apartidário, em defesa da tolerância e da democracia.

Paulo Sérgio Pinheiro é integrante da Comissão Arns, cientista político, ex-ministro da Secretaria de Estado de Direitos Humanos.

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