Guest Post »

Assassinato de negros nos EUA vira pivô de movimento por igualdade racial

Black Lives Matter chamou atenção para a impunidade de policiais e conseguiu mudança em lei

por Fernanda Mena no Folha de São Paulo

Ativista Ariel Atkins, 28, co-líder do Black Lives Matter de Chicago, posa para foto – Eric Strom : Glitterguts

No início de 2012, a combinação da velha violência racial norte-americana com a inédita onda de ativismo político articulado por redes sociais – vide Primavera Árabe e Occupy Wall Street – sacudiu os Estados Unidos quando o vigilante George Zimmerman matou a tiros o adolescente Trayvon Martin.

Um mês depois, milhares de pessoas se reuniram na Union Square, em Nova York, para pedir Justiça pela morte do jovem negro de 17 anos que saiu para comprar doces na Flórida, e nunca mais voltou.

“Nosso filho não estava cometendo nenhum crime. Nosso filho é o seu filho. Isso não é sobre negros e brancos, isso é sobre certo e errado”, discursou Sybrina Fulton, mãe de Trayvon, durante os protestos, aos quais compareceram artistas como Jay Z e Beyoncé.

Há 40 anos os EUA não assistiam a tamanha mobilização por justiça racial.

A revolta provocada pela absolvição de Zimmerman, no ano seguinte, ganhou expressão numa hashtag que reverberou com uma mensagem tão simples e óbvia quanto impactante: Black Lives Matter (vidas negras importam, na tradução livre do inglês).

O slogan surgiu de um post da ativista californiana Alicia Garza no rescaldo do julgamento da morte de Trayvon. Ela então se juntou a Patrisse Khan-Cullors e Opal Tometi para criar uma plataforma digital para o que se tornaria uma campanha, depois uma organização e, finalmente, um movimento.

“Sempre existe um momento na história em que um grupo de pessoas diz ‘agora, chega’. E nós decidimos, coletivamente, que não queríamos mais a bota no nosso pescoço”, explica à Folha Patrisse, 34, uma das três fundadoras do que hoje é conhecido como M4BL (sigla em inglês para movimento por vidas negras).

“Nós criamos a hashtag em resposta à violência e ao racismo a que somos submetidos. Nós criamos a infraestrutura para que isso se tornasse uma organização e um movimento. Mas foi o restante do mundo que multiplicou essa mensagem, aumentando a consciência em torno desta questão.”

Hoje, a organização tem 40 filiais pelos Estados Unidos. E compõe, com outros grupos, frentes de luta específicas, como aquela que conseguiu tornar lei na Califórnia, em 2017, o acesso público às investigação de crimes envolvendo policiais.

Em seu livro “Making all Black Lives Matter” (University of California Press), a historiadora Barbara Ransby aponta a hashtag como “um slogan poderoso que ressona como um desafio moral e um tapa na cara”. Segundo ela, a mensagem se tornou especialmente poderosa no contexto em que a eleição do primeiro presidente negro da história dos EUA, Barack Obama, promoveu o uso de uma linguagem neutra do ponto de vista racial.

Para Ransby, que leciona na Universidade de Illinois, em Chicago, ter um negro na Casa Branca, ainda que fosse algo simbolicamente importante, não mudou a realidade vivida por milhões de negros norte-americanos e marcada “por desigualdade econômica, epidemia de encarceramento em massa e várias formas de violência por parte do Estado”.

De acordo com cálculos da Folha a partir de dados do projeto Fatal Force, do jornal The Washington Post, entre 2015 e 2016 um negro foi morto pelas polícias nos EUA a cada 35 horas.

No mesmo período, no Brasil, um negro foi morto pelas polícias do país a cada 2 horas.

Ainda que os dois países tenham percentual distinto de negros -54% se autodeclaram pretos e pardos no Brasil e 13% são negros nos EUA –  a taxa daqueles mortos pelas polícias no Brasil é cinco vezes maior que a norte-americana.

A reação a estas mortes nos EUA, no entanto, se tornou tamanha que passou a ser impossível ignorá-las.

Foi com os protestos que tomaram conta de Ferguson, no estado do Missouri, após a morte de outro jovem negro desarmado que o sucesso da campanha virtual Black Lives Matter ganhou capítulos de relevo nas ruas. Mike Brown, 18, foi morto por um policial branco ao desobedecer suas ordens em agosto de 2014.

Em casa, no violento sul da cidade de Chicago, Dorothy Holmes, 49, assistia ao levante de Ferguson transmitido pela televisão.

“Como é que a polícia pode matar nossos filhos? Quem vai nos proteger, então? Isso está errado. É revoltante!”, dizia Dorothy diante das imagens. Ela não poderia imaginar, naquele momento, que em dois meses seria ela quem organizaria protestos nas ruas de Chicago depois do assassinato de seu filho pela polícia local.

Ronald Johnson, 25, filho de Dorothy, foi morto por um investigador que alegou legítima defesa. Segundo sua versão, Johnson estava armado e atirava contra ele quando foi alvejado pelo policial.

Dorothy passou a investigar o caso por conta própria. Organizava pequenos protestos na frente do departamento de polícia de Chicago quando grupos de jovens começaram a aparecer para fazer mais barulho. Eram do Black Lives Matter.

Dois anos depois da morte de Johnson, Dorothy descobriu que imagens de uma câmera de segurança mostravam que as alegações do investigador eram falsas, e mostrava Johnson correndo quando foi atingido por dois tiros. Ele morreu na hora. Mesmo tendo prestado falso testemunho, o investigador foi inocentado.

“Não sei como querem que confiemos na polícia se eles matam nossos filhos e não são responsabilizados por isso”, questiona Dorothy, que passou a fazer parte do grupo local do M4BL. “O Black Lives Matter esteve ao meu lado quando ninguém estava. Eu não sei de onde vem a minha força para lutar, mas já não consigo mais parar. A luta virou a minha vida.”

Dorothy passou a integrar também a Rede Global de Mães em Resistência, criada pela professora da Universidade de Chicago Yanilda Gonzalez, que pesquisa violência policial na América Latina.

Ela vê muitas semelhanças entre as mortes de jovens negros por policiais nos EUA e no Brasil.

“Na minha visão, a polícia é um produto da sociedade e de suas instituições políticas. Temos uma polícia racista porque somos sociedades racistas e porque temos instituições democráticas construídas para privilegiar os setores mais poderosos”, diz Gonzalez.

Quando não está viajando para encontros da rede, as maiores companheiras de Dorothy são jovens do BLM Chicago como Ariel Atkins, 27, e Maria Hernandez, 28, que fazem trabalho voluntário para a organização, levantando fundos com festas de karaoke emo.

Maria diz que se sentiu atraída pela força e pela simplicidade da afirmação. “Para mim, era importante provar o valor de nossas vidas contra um sistema que demoniza a população negra ao mesmo tempo em que explora seus corpos.”

Atkins, que é lésbica e trabalha em uma loja de quadrinhos, é considerada pelas fundadoras do BLM Chicago como uma nova liderança do grupo.

Outros dois fatores parecem ter favorecido o interesse da juventude no Black Lives Matter. Primeiro, suas fortes conexões os movimentos gay e feminista negros. Segundo, a diversidade de táticas, herança das estratégias de desobediência criadas pelo movimento pelos direitos civis nos anos 1950 e 1960.

Artigos relacionados