Assuma a sua passibilidade!

Você pode ter o cabelo um pouco encrespado,

mas a cor da sua pele coloca você num lugar privilegiado.  Nega Fya (Fabiana Lima)¹

Já decidi. Eu sou branca. Quero também o poder de fazer escolhas e, a partir de hoje, amplio em minha vida o sentido de passibilidade e vou torná-lo sinônimo de universalidade. Sim! A partir de hoje sou um sujeito universal e não admito mais ser racializada. Pisarei nesse chão social, sem aceitar classificações alheias, pois o importante é a minha opinião.

Quando criança, por muitas vezes, senti medo de ser rechaçada pela cor da minha pele e sei que muitas pessoas negras se identificam com o meu temor. Eu pensava mais ou menos assim “Tomara que não falem mal do meu cabelo!”, “Será que hoje recebo um elogio da professora?” ou “E aquele personagem estranho do desenho, por favor, que ninguém diga que pareço com ele!”. Assim os dias seguiam em uma ansiedade companheira e costumeira ora evitando ora sucumbindo às desqualificações endereçadas a mim, pela cor da minha pele. 

As preocupações tornam-se mais sérias, mais “cabeça” à medida que crescemos e passam a ser, por exemplo, “Não abra a bolsa no meio de uma loja” ou “Quando chegar a um lugar novo, faça sempre contato visual, identifique-se e diga para onde vai”. Esses e tantos outros cuidados compõem o checklist diário da negrada. Representam uma constante vigilância para minimizar a probabilidade de sermos violentados. 

Mas sabemos que essas medidas não são garantias. Podemos, a qualquer momento, direta ou indiretamente, ser violados por verbalizações ofensivas ou ataques sobre nossos corpos. Quem é negro sabe que não possui o direito da dúvida, quando o assunto é racismo. Aquela pessoa que ainda não se ligou que já foi vítima, um dia receberá o seu “Acorda, Alice!” 

Não deveria ser assim, eu sei, mas é.

Resolvi escrever esse texto em homenagem a uma galera que costumo chamar de “Meus racistas favoritos”, os cordiais, que estão até virando espécime rara, pois em tempo de novos modos democráticos, alguns conceitos estão sendo revisitados e racismo tem sido chamado de liberdade de expressão. Mas isso é prosa para outro dia. 

Retomando o raciocínio, convido você a lembrar de uma denúncia de racismo, qualquer uma que tenha ganhado repercussão nacional. O acusado tende a refutar a intenção violenta, resgatando uma ascendência negra, para comprovar o seu apreço e intimidade com a negritude, valendo-se de frases como “Meu vô era negro!”, “A mãe da minha mãe era bem pretinha” e blá blá blá. São muitos e, por vezes incríveis, os argumentos para atestar bons corações e boas de intenções. Mas a questão é que a quantidade de homens e mulheres negras que compõem uma família não é passe livre para “brincadeirinhas” ofensivas e nem autorização para o acionamento do modo ser negro, conforme for interessante para a ocasião.

Calma! Há outra faceta dos nossos racistas cordiais que quero destacar. Eles circulam pelos seus embranquecidos points sem fazer qualquer movimento que sinalize uma consciência racial. Pouco importa que haja negros por lá, desde que estejam a serviço. Mas quando é interessante, oportuno e vantajoso declaram-se negras e negros, com frases de Lélia Gonzalez e bell hooks postadas em redes sociais e tudo. Coisa linda de se ver. 

Esses também podem reivindicar um selo de negritude, rememorando integrantes negros pertencentes à família em tempos remotos, só para provar a sua legitimidade de identificação. Mas o que os diferenciam dos anteriores é a autodeclaração que surge mais ou menos assim “Eu me considero negra (o) e ponto e não me importo com a opinião dos outros. Isso é autenticidade, sabia?”

Para essas pessoas, pouco ou nada importam discussões raciais e suas reverberações sociais de defasagens ou privilégios. O válido nessa situação é a mesma ocorrência que move a anterior, a convicção da centralidade de suas próprias mobilizações, do quanto se percebem orbitando em uma universalidade que as garantem poder para dizer e ter o que quiser.

Mas atenção, cara gente branca! Estabelecer que os seus interesses são absolutos é ofensivo. O seu parâmetro é medida para a sua vida e não para o que toca a existência de outra pessoa. Não concorda? Deixe de “mi mi mi”, assuma os privilégios de sua passibilidade e saia do seu ilusório centro do universo. Ouça o que o outro diz e respeite, porque você não habita aquela pele, portanto dela nada sabe. Mas pode aprender, sempre é tempo de fazer diferente e melhor.

O que é visto, recorrentemente, é a falsa empatia. A branquitude aproxima-se de causas negras, condicionada a garantia de que não precisará enfrentar o ônus de ser negro em um país cujas mais básicas instâncias nos violentam sistematicamente. É justo e honesto olhar para o outro e reconhecê-lo pelo o que ele é, a partir de uma consciente diferenciação, e perceber que não ser racista é não assumir as vestes de opressor, mas também é não se pensar um redentor e, algo fundamental, é parar de reclamar um lugar que não lhe pertence. 

Então, vamos combinar assim:

Somos diferentes! 

Branco é branco, negro é negro! 

E licuri? Licuri é coco.


¹ Trecho da poesia Solidão da mulher preta de Nega Fya (Fabiana Lima), slammer baiana idealizadora do Slam das Minas.

 

Lígia Santos Costa é Psicóloga gestalt-terapeuta e mestra em literatura.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

 

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