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Ativismo e migração – A atuação da mulher negra em contexto internacional
Créditos da foto: Logo Madalena-Anastácia

Ativismo e migração – A atuação da mulher negra em contexto internacional

No dia 25.07.18 o coletivo de teatro das oprimidas Anastácia-Berlim, o grupo Kakalaques latino americanas, e colaboradoras, organizaram na capital Alemã, um evento em comemoração ao dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha.

Shirley Pereira Rodrigues – Berlim  via Guest Post

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O intuito do evento foi por um lado dar visibilidade a causa das Mulheres Negras, Latino Americanas e Caribenhas em contexto internacional, e por outro, fortalecer a rede global de pessoas que defendem os direitos humanos.

A defesa dos direitos humanos é importante, pois são eles que asseguram a existência individual e coletiva de cada individuo, bem como garante a sua participação justa no contrato social, conforme é argumentado pelos civilizadores europeus, que impuseram violentamente um modelo de organização social ao mundo, chamado sociedade civil.

Porém é importante relembrar que, a base da ideia de civilidade é necessariamente dependente da ideia de classificação e ordenação da raça humana, segundo suas características físicas como gênero, cor de pele, orientação sexual, poder aquisitivo, lugar de nascimento, habilidade física e psíquica, etc. E que esta ideologia começa sistematicamente a ser fabricada na Europa por homens brancos no período colonial. Momento em que o homem, branco, europeu, hetero se auto intitula o ser mais civilizado e por isto superior a qualquer outra ou outro ser.  

O seu oposto, ou seja, mulher, não europeia, e não-branca, é a que mais se afasta do fabricado modelo de superioridade masculino-hetero-branco-europeu, e por isto, foi-lhe negado qualquer tipo de reconhecimento existencial e valorização humana dentro da ideia e da implementação da mesma na organização sócio civil. Pois tal ideologia só se sustenta por meio de práticas refinadas de opressão e violência, uma vez que tal modelo não é dado, e sim fabricado por um pequeno grupo de pessoas. Que para executar, praticar e consolidar seus ideais de superioridade submeteu a mulher não-branca europeia a diferentes formas de discriminações múltiplas explícitas e subentendidas.

Visibilizar, denunciar, conectar, entender, delinear globalmente o movimento deste sistema opressivo e violento, encontrar pontos comuns, desenvolver estratégias globais e regionais de combatê-lo, e de se fortalecer tanto coletivamente como individualmente é uma das tarefas das quais mulheres não-brancas, não-europeias, migrantes, heteros ou não radicadas em Berlim, Alemanha se dedicam.   

Coletivo de Teatro das Oprimidas Madalena-Anastácia

Em Berlim vive um grande número de mulheres não brancas-europeias, como latinas, africanas, árabes, turcas, asiáticas, etc.., que além de vivenciarem no dia a dia o racismo dissimulado da sociedade alemã, sofrem com o pré-conceito de serem migrantes oriundas de um país não europeu.

Viver como migrante em Berlim é uma experiência dupla, pois se de um lado pode-se vivenciar um momento da construção histórica alemã, que busca ao invés da homogeneidade a mestiçagem, por outro, há arraigados resquícios de uma politica nacionalista, eugênica e, sobretudo eurocêntrica que determina o dia a dia das pessoas não-brancas, e não-europeias. Prova disto é, por exemplo, a luta diária das afro-alemãs, por reconhecimento e classificação imediata de sua aparência física á nacionalidade alemã, uma vez que não são brancas, tem dificuldades em serem imediatamente reconhecidas como alemãs.

Os desafios que uma mulher não branca e não-europeia tem que enfrentar e suportar no seu dia a dia vivendo como migrante na Alemanha são inúmeros, é muito comum por exemplo a seleção por sobrenome das candidatas a vagas de empregos, onde sobrenomes de grupos linguísticos não europeus são preteridos.

As relações interpessoais são permeadas de exotismo e jugos colonialistas, que não cessam de nos recordar que nossa nação não funciona muito bem, que nossa pátria é derrotista, corrupta, violadora de direitos humanos e do meio ambiente, aqui não somos Antonias, Geraldas, somos, Brasil, Peru, Nigéria, China, França, Estados Unidos, etc. Além de serem categorizadas, analisadas e calculadas segundo o seu país de origem e sua classe social, as mulheres não-brancas tem-se que defender dos ataques e concorrência das mulheres brancas, bem como dos das não-brancas europeias, uma vez que uma mulher afro-francesa, ou afro-inglesa, por ser europeia, tem menos dificuldades que uma afro-peruana por exemplo, é por isto que aqui, somos chamadas de “as irmãs desprivilegiadas do terceiro mundo”.  

Pensar a si mesma e se autoconstruir dentro deste cenário segmentado e permeados de opressões múltiplas e variadas exige muito esforço individual e coletivo. O que naturalmente é cansativo. E é neste sentido que mulheres não-brancas e não- europeias, integrantes de grupos coletivos ou não, se reúnem periodicamente, para discutirem tanto estratégias de intervenção no espaço público em Berlim, como em espaços fechados para se cuidarem individualmente, que serve como momentos de cura.

Uma das formas de atuação nos espaços públicos é a promoção de vários eventos como o do dia 25 de Julho, bem como discursões, palestras, apresentação de peças de teatro, filmes, recitais de poesia, shows de música, protestos e manifestações em espaços públicos, colagem de cartazes pelas ruas de Berlim, como o do rosto de Marielle Franco, com frases de denúncia e pedidos de justiça.

Além de se dedicarem em contribuir para a criação de um mundo mais justo e bonito, elas também organizam encontros privados, para trocas de experiências comuns, cuja proposta é cuidar de si e da outra, e incentivar o fortalecimento individual e coletivo. Em um espaço de confiança e cura mútua. Uma vez que a sociedade é organizada para negar ás mulheres não-brancas a sua existência, para priva-las de si mesma, e veda-lhes direitos sociais. O cuidar de si é um ato revolucionário para elas.

Viver diariamente, significa para a mulher não-branca, não europeia, em qualquer parte da terra, lutar pelo seu direito de existir, e esta luta também é interna, ela inclui os desafios de amar-se, valorizar-se, autoconhecer-se, expressar-se livremente, rejeitar as sugestões e imposições sociais de qual seria o seu verdadeiro lugar, preservar a sua atenção, o seu amor e afeto para si e para as pessoas que ama, resgatar a mitologia, os nomes e as histórias de heroínas não-brancas, que são referências de resistência, força, realeza e divindade, criar a nossa própria moda, uma que combine com nossos cabelos naturais, como nossa cor de pele e constituição física, enfim lutar por mudanças sociais inclui também cuidar de si.

Oficializar o dia 25.07 como uma data a ser lembrada, marcada e utilizada internacionalmente, para fortalecer o combate ao racismo, á misoginia, ao neocolonialismo, a homofobia, ao avanço de politicas neoliberais e ditatoriais, bem como cuidar da conexão da rede internacional dos e das defensoras dos direitos humanos e lembrar a importância de cuidar de si, é um passo relevante para toda a sociedade, pois como diz Marielle Franco: Eu sou, porque nós somos!


* Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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