terça-feira, setembro 21, 2021
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Autônomo acusa família de furtar celulares no Parque Ibirapuera e é chamado de racista: ‘Por que apontou para nós?’

Um homem acusou de furto de celular uma família com integrantes negros que pedalava no Parque Ibirapuera no início da tarde de sexta-feira (9), na Zona Sul de São Paulo. Após o início de um bate-boca que envolveu a presença de seguranças do parque, frequentadores do local que viram a cena acusaram o homem de racismo. O G1 presenciou parte da discussão.

O caso foi registrado na Polícia Civil como difamação e injúria e será investigado.

Genilson de Oliveira, de 38 anos, contou ao G1 que pedalava um triciclo com sua esposa enquanto os dois filhos estavam em bicicletas que a família alugou no parque, quando perceberam que estavam sendo filmados por um homem. Em seguida, ainda segundo Genilson, esse homem passou a acusá-los de ladrões, gritando.

Guardas do parque compareceram ao local, na ciclovia, diante de um restaurante. Durante a discussão, frequentadores do restaurante se manifestaram aos gritos dizendo ter presenciado as acusações direcionadas à família. Algumas pessoas gritaram que a atitude era racista.

“Tinham várias pessoas ali. Por que ele apontou para nós? Só porque a gente era os únicos negros que estavam do lado do restaurante, eu acho? (…) Chegar para alguém e apontar você como ladrão é a coisa mais feia. Qual vai ser o psicológico dos meus filhos hoje? Em ir para um lugar, se privar de sair com medo de acontecer isso em outros lugares? (…) Minha esposa está aos prantos”, afirmou Genilson ao G1 por mensagem após registrar o boletim.

Genilson é negro, sua companheira é branca, e os filhos deles, de 14 e 18 anos, pardos.

O homem que fez a acusação, o autônomo Felipe Teobaldo, de 34 anos, que tem cerca de 20 mil seguidores no Instagram, disse em depoimento que estava no parque quando ouviu um barulho e teve a sensação de se tratar de um furto de celular. No dia seguinte à publicação desta reportagem, Teobaldo pediu, por meio de sua assessoria de imprensa, que não fosse apresentado como influencer. Ele se diz autônomo e presta serviços de publicidade. No instagram, se apresenta como “desbravador da internet, professor, planejamento e futurista”. Ele faz vídeos com conteúdos de tecnologia, entre outros.

Pouco depois, disse que viu um casal pedalando um triciclo, e que os viu recebendo um celular que lhes foi passado por um ciclista. Depois, o casal recebeu outro celular de um ciclista. Pouco mais à frente, disse que o casal recebeu uma carteira. Felipe diz que então ultrapassou o casal e, observando os dois, percebeu nova entrega de objeto. “Viu uma pessoa sair de perto dessas pessoas com um volume”, diz o registro.

Segundo o boletim de ocorrência, a família relatou que Genilson deu seu celular pessoal a um dos filhos, para o caso de se perderem no parque. A esposa passou o celular corporativo de Genilson para o outro filho filmar o passeio. Um pouco mais à frente, a família encontrou um grupo de pessoas fazendo promoção de um aplicativo e entregando bonés. O casal ganhou os bonés e um pouco adiante, reencontrou os filhos, que devolveram os celulares. Um dos meninos também entregou sua carteira ao pai.

Teobaldo, então, chegou gravando e os chamando de “ladrões” e dizendo que “estavam roubando desde lá de cima”, segundo a família. Genilson disse que não estava roubando e que abriria as bolsas na presença da polícia.

O que diz Genilson de Oliveira:

  • Ele, a mulher e os filhos pedalavam quando perceberam estar sendo filmados e que foram acusados de ladrões
  • Disse que entregou os celulares para os filhos para caso se perdessem e para fazerem filmagens do passeio; disse ainda que ganhou bonés que estavam sendo distribuídos no parque

O que diz Felipe Teobaldo:

  • Que estava passeando no parque e ouviu um barulho e achou se tratar de um celular furtado.
  • Disse que percebeu a família passando celulares, carteiras entre eles
  • Que começou a filmar para apresentar provas à polícia

A Guarda Civil Metropolitana (GCM) foi acionada e as bolsas foram abertas em meio aos frequentadores do parque, onde os guardas apenas encontraram alimentos, celulares e documentos pessoais.

Os dois guardas municipais também compareceram à delegacia, um como condutor e outro como testemunha. O condutor afirma que a família abriu as mochilas de imediato em sua chegada e que nada suspeito foi encontrado. “O GCM condutor informa que não teve nenhuma notícia de furto no parque no dia de hoje”, diz o boletim ocorrência. Os guardas afirmaram à polícia que Teobaldo relatou uma “aglomeração de furtadores”.

Depois, Teobaldo afirmou ao G1 e aos policiais que tropeçou em uma pessoa enquanto filmava o casal, falou para ela sobre sua suspeita e, então, foi interpelado por Genilson e sua companheira. Teobaldo disse que daí em diante foi questionado e acusado de racismo pelo casal e por outros frequentadores do parque.

Ele diz que estava fazendo um registro para mostrar para os seguranças do parque. Em meio à discussão, ele afirmou a todos que tinha “tudo gravado”.

Ele foi orientado a enviar o vídeo que fez à polícia e se recusou a mostrar o conteúdo ao G1. Seus advogados informaram por mensagem que o vídeo é “pouco conclusivo”.

Teobaldo disse ao G1 que sua acusação não foi motivada pelo “tom de pele”, e que viu mais gente com a família. “Havia mais pessoas. Inclusive, dentro do grupo de pessoas que estavam com eles, algumas não foram, não seguiram para a delegacia também”, afirmou.

“O que eu vi foi algo que eu não acho que eu vi errado. Eu vi um triciclo parar, e receber vários celulares em momentos diferentes, e achei que aquilo podia ser alguma coisa, eu queria avisar a guarda”, disse Felipe.

Nota

Depois da publicação dessa reportagem, os assessores de Teobaldo enviaram a nota abaixo:

“Ontem às 12h30 foi ao parque Ibirapuera aproveitar algumas horas de sol e feriado. Logo na entrada do parque, ouvindo música nos fones, viu uma comoção de pessoas, como se alguém tivesse tido um bem levado por outra pessoa de bike.

Atento ao movimento e aos altos índices de furto da região, guardou seu celular e fones e seguiu caminhando.

Mais adiante, viu uma movimentação diferente, feita por pessoas de costas pra ele em um quadriciclo, onde recebiam celulares de outras pessoas que passavam em bicicletas.

Achando estranha a movimentação, resolveu ultrapassar o quadriciclo para tirar fotos dos rostos das pessoas para entrega-las à guarda civil. As pessoas do quadriciclo estavam integralmente cobertas, vestindo camisas de mangas longas, calças, óculos, bonés do ifood, máscaras, além de carregarem muitas mochilas que tampavam a visão.

Quando Felipe ultrapassou o quadriciclo, foi correndo em direção ao veículo para obter foto ou vídeo, ocasião em que tropeçou em uma pessoa, que reclamou alto de sua desatenção. Ele se desculpou e explicou que estava concentrado em filmar uma movimentação de entrega de celulares no quadriciclo próximo.

As pessoas no quadriciclo ouviram esse diálogo e se dirigiram a Felipe. Apenas nessa hora que Felipe conseguiu identificar um homem e uma mulher e seus dois filhos.

Imediatamente, já falaram alto que Felipe estava sendo racista, pois estaria acusando de ladrões. Em resposta, Felipe informou que não havia dito aquilo, havia dito “que aquelas pessoas estavam recebendo celulares”, o que consta no Boletim de Ocorrência acessado pela reportagem – que, por algum motivo, decidiu não mencionar essa narrativa. Como dito, Felipe não acusou ninguém de roubo, apenas relatou o que estava vendo, os celulares sendo entregues. Felipe não tinha como saber a origem dos celulares e pretendia deixar essa investigação para a polícia, a quem compete.

Muitas pessoas em volta se juntaram e seguiram o coro, chamando-o de racista. Na mesma hora, ele se prontificou a ir na guarda civil com aquelas pessoas e ficou quieto até que a guarda chegasse.

Passaram um grande período na delegacia onde relatou todo o ocorrido. E colaborou com tudo que foi ao alcance dele e do momento.

Felipe declara: “como uma pessoa branca revejo e questiono meu racismo todos os dias, aprendendo com cada ação que fizer e jamais fugir de nenhuma situação e também continuarei colaborando com a justiça sem me esquivar dos meus deveres como cidadão e como uma pessoa que luta e trabalha com a diversidade, inclusão, bem estar e paz o social.”

Felipe ainda reafirma que estará à disposição para atender qualquer pessoa envolvida ou que esteja disposta a noticiar os fatos com ética e respeito.”

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