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Baixa representação negra em comerciais indica medo da rejeição
Créditos da foto: Rafael Reynaux/OP9

Baixa representação negra em comerciais indica medo da rejeição

Segunda das três reportagens da série “Invisibilidade Pública” mostra que atores e modelos até deixam de fazer testes

Por Sharon Baptista Do Op9

Falta de profissionais negros com poder de decisão nas agências afeta escolha. Foto: Rafael Reynaux/OP9

Com 250 modelos e atores no seu portfólio, a T.C. Fashion atende agências de publicidade em Pernambuco na formação de castings para comerciais. Dez por cento deste elenco que pode incorporar qualquer papel familiar ou profissional é formado por pessoas negras. Com 21 anos de experiência no mercado, a diretora de produção Tereza Franco reconhece que esta baixa representação é reflexo ainda de um forte preconceito. “Existe uma demanda do mercado, que ainda é pouca e muito específica, mas que devagarinho está crescendo. Por mim haveria muito mais negros e o mercado tem pedido isso, mas às vezes esbarramos na dificuldade para atender um perfil específico que o cliente solicita por não termos no nosso casting”, afirma.

No dia a dia da agência, Tereza percebe que alguns modelos e atores negros, por receio de sofrer racismo, até deixam de participar de alguns testes. “Temos dificuldade para encontrar, por exemplo, bebês e crianças negras. Existe uma certa aflição por parte dos familiares que têm medo das crianças não serem escolhidas por causa do tom de pele e por isso não as trazem para as agências”, completa.

Tereza Franco vem percebendo um aumento constante na procura por profissionais negros. Foto: Rafael Reynaux/OP9

Falando sobre as exigências dos clientes e perfis específicos procurados pelas empresas, Tereza acrescenta que existem clientes que só procuram os negros para fazerem comerciais populares e pontuais. A alternativa tomada por ela é oferecer opções para outras campanhas. “Só assim conseguiremos avançar na inserção de negros na publicidade e as propagandas se aproximarem mais da realidade da pluralidade da população brasileira”.

Como fazer uma campanha que fala sobre um grupo étnico-racial se os profissionais que a interpretam não fazem parte deste grupo? Estudo feito pela publicitária e pesquisadora Danila Dourado em 2015 mostra um panorama da quantidade de profissionais negros que trabalham em agências de publicidade a partir dos seus perfis numa rede social de trabalho, o Linkedin.

Mesmo com a criação de políticas sociais que visam favorecer o ingresso dos negros na graduação, isso ainda não é refletido em cargos altos das agências. Além de serem minorias neste mercado, nenhuma mulher negra foi encontrada ocupando cargo de gestão estratégica no setor publicitário.

 

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