Beatbox

por Clodoaldo Arruda

A cultura Hip Hop nasceu em Nova York, Estados Unidos, mas se espalhou por todo o mundo, se tornando uma manifestação legítima dos jovens negros e latinos excluídos que acharam nessa manifestação sócio-político-cultural, uma forma de expressar seus anseios e perspectivas. Formada por três formas de manifestações artísticas, a música (rap), a dança (break) e a pintura (grafite), a cultura Hip Hop se difundiu mundialmente porque é mais uma vertente da cultura negra e, portanto, cultura africana na diáspora. Com isso, assim como aconteceu com o soul, o reggae ou o blues, a música rap e toda a cultura Hip Hop achou respaldo entre os excluídos de todas as partes do planeta, sendo mais uma forma pacífica e artística de combate ao racismo, e à todas as formas de preconceito.

 

No Brasil, aonde chegou na metade da década de 80, não poderia ser diferente. A cultura Hip Hop encontrou solo fértil num país como o nosso, com problemas como o racismo e a desigualdade social. Tornou-se mais um instrumento para educar, conscientizar, trocar informações, denunciar e apontar soluções. Essa interatividade se dá de várias formas, já que, como cultura urbana, o Hip Hop tem grande facilidade de mutação e penetração. O espírito do “faça você mesmo” se aplica à risca dentro de uma cultura que se massificou em camadas financeiramente carentes, porém, ricas em criatividade, versatilidade e talento.

Dentro do rap, expressão musical do Hip Hop, existem vários sub-estilos e recursos, sempre priorizando a transmissão da mensagem e a longetude de seu alcance. O Hip Hop criou a cultura dos DJs como a conhecemos hoje, foi pioneiro no uso dos recursos tecnológicos para a criação, composição, produção e difusão de músicas de forma digital, e, sempre ligado às mais profundas e longínquas ligações ancestrais com a África (o uso de dois toca-discos em substituição aos tambores não é mera coincidência), antes de todo esse pioneirismo high-tech, o Hip Hop criou o beatbox.

 

Beatbox significa, literalmente, “caixa de batidas”. Consiste no talento de, usando somente a boca como emissor do som, criar batidas, melodias e ritmos, imitando instrumentos musicais de forma quase perfeita. Esse “recurso”, da forma como conhecemos hoje, nasceu na cultura Hip Hop, quando os beatboxers (artistas que dominam o beatbox) “simulavam/ compunham” batidas para os rappers (cantores de rap, também conhecidos como MCs) fazerem suas rimas em situações em que não havia músicos ou bases eletrônicas. Mas, se olharmos um pouco mais para trás, lembraremos de grandes nomes do jazz como Louis Armstrong, Ella Fitzgerald, Cab Calloway, George Benson, Bob McFerrin e Al Jarreau, só para citar alguns, que se utilizavam de uma técnica de improvisação chamada scat, um “ancestral” do beatbox que também remonta à tradições milenares de sons vocais africanos presentes até hoje em certos povos.

 

Mais do que continuação de culturas e tradições, o beatbox é uma arte internacionalmente conhecida e reconhecida como arte contemporânea, assim como as rimas do rap, os scratches e colagens dos DJs, os traços complexos dos grafiteiros e as acrobacias dos streetdancers e B.Boys. Por isso, assim como qualquer expressão vinda da Cultura Hip Hop, tem um potencial poder de transformação social, já que a educação, a cultura, o lazer e o entretenimento são algumas alternativas para se combater as drogas e a violência nas comunidades da periferia, compreendendo também que a cultura Hip Hop tem sido o principal meio de lazer e comunicação entre os jovens que vivem nessas comunidades.

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