O episódio ocorrido no dia 18 na ALESP não foi excesso de linguagem, recurso performático desastrado ou provocação isolada. Foi a reaparição explícita de uma tecnologia histórica e perversa de poder. De um lado, o blackface: a reencenação de um repertório racista que reduz a pessoa negra à caricatura. De outro, o cissexismo: a lógica que insiste em tratar a existência trans como fraude, desvio ou afronta. Não se trata de violências paralelas, mas da mesma engrenagem operando em camadas: apagar, degradar e desautorizar.
No caso de Erika Hilton, a operação é particularmente brutal. Antes de ser convertida por seus adversários em “tema trans”, Erika é uma mulher negra. E é precisamente essa condição que o blackface tenta atacar. Ao acionar um símbolo historicamente ligado à ridicularização racial, não se ofende apenas a população negra em abstrato. Apaga-se concretamente a negritude de uma mulher negra em posição de poder, tentando recolocá-la no lugar da caricatura, da exceção e da contestação. O que está em disputa não é apenas identidade de gênero. É o direito de uma mulher negra trans existir de forma inteira, sem ser fatiada para caber no ódio alheio.
O núcleo do cissexismo não está apenas em insultar pessoas trans, mas organizar o reconhecimento social de modo a submetê-las à suspeita permanente. O cissexismo decide quem será lida como plenamente humana e quem continuará obrigada a provar a própria existência. Exige laudo, explicação, penitência, adequação, prova. Transforma a identidade trans em caso a ser examinado, enquanto a identidade cis permanece naturalizada como norma silenciosa. Sua força não está apenas na injúria, mas na capacidade de converter diferença em ilegitimidade. E é preciso nomear isso com precisão jurídica. No Brasil, transfobia não é mera “opinião”, nem simples divergência moral. Desde 2019, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a omissão legislativa do Congresso e decidiu enquadrar homofobia e transfobia nos tipos penais previstos na Lei do Racismo, até que sobrevenha legislação específica. Em outras palavras: a violência dirigida contra pessoas trans, quando opera pela humilhação, discriminação e exclusão, já foi reconhecida pela mais alta Corte do país sob a lógica do racismo.
No Brasil, essa disputa nunca foi abstrata. Ela atravessa o corpo, o nome, o documento, a circulação social, a escola, o trabalho, a rua e o direito à memória. Em 2016, sendo eu uma mulher negra, abri um processo judicial de retificação de registro civil que se tornou marco ao afirmar o reconhecimento da identidade de gênero sem exigência de patologização ou cirurgia. Na decisão, afirmou-se ser desnecessária a perícia médico-psiquiátrica, porque a identidade de gênero não pode ser tratada como doença nem submetida à tutela médica como condição para o reconhecimento jurídico da existência. Ali estava exposto o centro da disputa: o Estado só admitia reconhecer pessoas trans se antes as convertesse em caso clínico. Ao buscar a retificação de nome e sexo sem aceitar o diagnóstico de “disforia de gênero” como pedágio para existir, enfrentei diretamente a crueldade de um sistema que oferecia cidadania apenas sob a forma da patologização. A fórmula era simples e brutal: transformar identidade em enfermidade, enfermidade em estigma e estigma em exclusão.
A radicalidade daquele gesto estava em nomear o que de fato se colocava em jogo: não uma disputa burocrática, mas a fronteira entre vida reconhecida e morte social. Porque a morte, no caso da vivência trans, não começa no assassinato. Ela começa quando o nome é negado. Quando o gênero é imposto de fora. Quando o documento humilha. Quando a escola expulsa. Quando o trabalho fecha as portas. Quando a rua vira zona de caça. Quando o Estado transforma cidadania em prova impossível. A morte começa muito antes do cadáver; começa na fabricação institucional da inexistência.
É exatamente contra a possibilidade de existência plena que se volta o cissexismo contemporâneo. Quando uma parlamentar branca cisgênera recorre ao blackface e, no mesmo gesto, investe contra a legitimidade de mulheres trans, ela não está apenas ofendendo. Está tentando restaurar uma velha pedagogia da hierarquia: a pessoa negra reduzida a signo manipulável; a pessoa trans reduzida a identidade contestável. No caso de Erika Hilton, a violência é ainda maior porque tenta apagar, ao mesmo tempo, a mulher negra e a mulher trans, como se fosse preciso amputar uma dimensão para melhor destruir a outra.
Esse expediente revela um traço especialmente perverso do conservadorismo brasileiro: o uso oportunista da luta negra para sustentar ataques às pessoas trans. O blackface, nesse contexto, não é apenas racismo. É racismo instrumentalizado como arma de apagamento. Apaga-se a mulher negra concreta em nome de uma encenação grotesca do “ser negra”; em seguida, usa-se essa encenação para golpear a mulher trans, como se a dignidade de umas pudesse ser mobilizada contra a humanidade de outras. Não há defesa das mulheres negras nisso. Há sequestro simbólico de suas histórias, de suas lutas e de suas dores.
O que minha trajetória jurídica e política demonstrou há quase dez anos foi o oposto disso. A luta trans não pede privilégio, não reivindica exceção e não solicita tolerância paternalista. Reivindica o mais elementar dos direitos: o direito de ser. E o direito de ser, para pessoas trans, nunca foi abstração filosófica. Foi luta concreta contra a patologização, contra a humilhação pública, contra o apagamento documental, contra a expulsão social e contra a morte em suas formas lentas e administradas. Por isso, o ataque a Erika Hilton não pode ser tratado como simples divergência ideológica. O que se ataca nela é a condensação de uma presença que a extrema direita não suporta: uma mulher negra trans com voz, linguagem, mandato e centralidade pública.
O blackface não é acessório nesse ataque. É seu centro simbólico. Porque tenta rebaixar a negritude à condição de fantasia, ao mesmo tempo em que o cissexismo tenta rebaixar a transgeneridade à condição de fraude. Juntos, operam como política de apagamento.
A luta de 2016 permanece, portanto, radicalmente atual. Quando uma mulher negra enfrentou judicialmente a exigência de patologização para ter nome e gênero reconhecidos, não estava apenas abrindo um processo individual. Estava ajudando a inscrever na ordem jurídica brasileira uma verdade simples e decisiva: pessoas trans não precisam adoecer para existir perante o Estado. É essa verdade que o cissexismo tenta revogar toda vez que reaparece disfarçado de piada, provocação, opinião parlamentar ou suposta defesa abstrata das mulheres. Mas não há defesa possível das mulheres que passe pelo apagamento de mulheres negras trans. Não há combate ao racismo que se sustente na caricatura racial. E não há democracia digna desse nome enquanto o direito de existir plenamente continuar sendo negado justamente àquelas pessoas que mais expõem as fraturas estruturais do país.
No fim, a questão continua a mesma: entre o reconhecimento pleno e a morte social, entre o direito de ser e a violência que reduz vidas à caricatura, não pode haver neutralidade. Toda vez que uma mulher negra trans é atacada por meio do racismo e do cissexismo combinados, não é apenas uma pessoa que está sendo ofendida. É a própria ideia de humanidade compartilhada que está sendo posta à prova.