Boliveira: “Simonal foi nosso primeiro astro popular esmagado pelo racismo”

Fabrício Boliveira deixou a equipe de “Simonal” assustada quando disse, no início do projeto, que não iria imitar o cantor carioca na cinebiografia dirigida por Leonardo Domingues. “Foi um momento meio constrangedor”, ele lembra em conversa com o UOL, após a exibição do filme na competição do 46º Festival de Gramado. “Todo mundo esperava uma cópia do Wilson Simonal verdadeiro. Mas eu não sou um imitador, sou um ator, precisava de um desafio que fosse além do virtuosismo de dizer: ‘Olha como eu sei fazer um Simonal igualzinho a ele'”, diz o ator baiano.

por Carlos Helí de Almeida UOL

Fabrício Boliveira como Wilson Simonal no filme Simonal Imagem- Divulgação

O filme, que estreia nos cinemas só em 2019, relembra a ascensão e queda do intérprete de “Meu Limão, Meu Limoeiro” do posto de maior estrela pop brasileira dos anos 1960 e 1970. “Não queria ficar aprisionado aos gestos dele, algo que está no YouTube ou no nosso imaginário”, ele fala sobre o cantor de carisma e energia que enchiam arquibancadas de estádios de futebol. “Mas fiquei assustado com o primeiro corte do filme que assisti. Não é que o Simonal estava ali? Acho que a liberdade de procurar entendê-lo me fez encontrá-lo em mim”.

Boliveira e Isis Valverde no Festival de Gramado Imagem- Edison Vara : Pressphoto

De origem humilde, Simonal teve uma carreira meteórica, inédita para um artista negro no Brasil. Sua queda diante da opinião pública começou com o envolvimento de agentes do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), um dos órgãos de repressão da ditadura militar, no sequestro e tortura do contador dele, a quem imputou seus problemas financeiros. Mas o filme sugere um componente racial na derrocada da carreira de Simonal, que chegou a chegou a escrever a canção “Tributo a Martin Luther King”, líder na luta dos direitos civis americanos, no final dos anos 1960.

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“Simonal foi o nosso primeiro astro popular a ser esmagado pelo racismo, pelo resquício da escravidão. A direita o via como um subversivo, e a esquerda o acusava de ser um dedo-duro, mas a verdade é que puxaram-lhe o tapete porque ninguém engolia o sucesso dele, um cara que tinha dinheiro, propriedades e três Mercedes Benz na garagem. Ele foi o primeiro artista a abrir o seu próprio escritório, e a fechar o maior contrato da história da publicidade com uma multinacional de petróleo, mas era um negão”, aponta Boliveira, o Roberval da novela “Segundo Sol”.

Para o ator, que estreou no cinema com “A Máquina” (2005), de João Falcão, antes de ganhar seu primeiro papel na TV, na novela “Sinhá Moça” (2006), “Simonal” chega às telas em um momento perfeito. “Vivemos tempos de intensa discussão sobre preconceito racial e a representatividade do negro na sociedade brasileira. O filme revisita essa nossa história, que deixou uma cicatriz ainda aberta e que mina até hoje, porque ainda não tivemos outro artista negro do porte do Simonal. O país não permitiu que isso acontecesse. O filme chega para ratificar a luta negra desses últimos anos”, reforça Boliveira.

A reivindicação por uma maior representatividade racial no audiovisual brasileiro é um fenômeno recente, segundo Boliveira. “Ela tomou força com o filme ‘Vazante’, de Daniela Thomas, que incendiou os debates no Festival de Brasília do ano passado. As questões envolvendo a presença negra nas diversas expressões culturais ficou muito quente em todo o país. Nenhum setor tem escapado da discussão, nem mesmo a TV”, analisa o ator, lembrando o caso de “Segundo Sol”, atual atração das 21h da Globo, duramente criticada pelo baixo número de atores negros em uma trama ambientada em Salvador.

O ator acredita que “Simonal” –que tem no elenco Isis Valverde como Tereza, Leandro Hassum, Caco Ciocler, Mariana Lima e Bruce Gomlevsky– se beneficie de sucessos do cinema negro recente, como o thriller “Corra!” e a aventura “Pantera Negra”, exemplos de filmes que “trazem embutidos a questão racial de forma fortíssima”. “A diferença é que produções como ‘Pantera Negra’ há uma quantidade de personagens negros, mostra a diversidade cultural dos povos africanos. Ali, a questão racial já evoluiu um pouquinho mais. Em ‘Simonal’ ainda estamos falando de luta, discutindo diferenças, então ainda estamos alguns passos atrás na discussão”.

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