segunda-feira, outubro 3, 2022
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Meu irmão, meu limoeiro, por Sueli Carneiro

Ele era o príncipe encantado das jovens negras de minha geração. Belo, charmoso, irreverente e altivo. Nenhuma manifestação da subserviência que sempre se espera de um negro. Parecia que sua trajetória de sucesso seria infinita como seu talento e sua capacidade de mobilizar e encantar multidões com suas canções. A interpretação antológica de Meu limão, meu limoeiro, sacudindo todo Maracanãzinho ao reger uma orquestra de vozes de 50 mil pessoas com todo o swing, que Deus e os Orixás lhe deram, é inesquecível. O negro Simonal era demais!

Mas então aconteceu o impensável. O príncipe era um sapo, um dedo-duro a serviço da ditadura militar, responsável pelo martírio de companheiros de profissão nas mãos da repressão.

A destruição moral que se seguiu levou o astro ao isolamento, à perda de contratos, ao tratamento de portador de doença contagiosa e, finalmente, à morte. Segundo Ziraldo, ”ele era tolo, se achava o rei da cocada preta, coitado. E era mesmo. Era metido, insuportável. Morro de pena, ninguém merecia sofrer o que ele sofreu”.

Na verdade, o patrulhamento ideológico foi o solo fértil para a manifestação de sentimentos inconfessos: inveja, ressentimento, racismo e outros tantos que perseguem as celebridades sobretudo quando negras. A sua retirada de cena abriu espaços para a consolidação de talentos menores que seguem festejados e reverenciados enquanto a ele restou ser inocentado, post mortem, por crime que não cometeu. Segundo as matérias sobre o caso, ”a indisposição contra Simonal vinha de antes. Em julho de 69, o semanário de esquerda O Pasquim publicou entrevista de capa sob o título ‘Não sou racista’, em que acuava Simonal com perguntas sobre racismo e o fato de ele comer caviar e ter mordomo”. Foi exemplarmente punido pela petulância. Um filme recorrente na história de negros famosos. O goleiro Barbosa da seleção brasileira de 50 dizia que, ao contrário de um criminoso, sua pena era imprescritível. Pagou até o fim da vida, com o ostracismo e o desprezo, o erro atribuído exclusivamente a ele pela o gol do Uruguai que calou o Maracanã. Pelé foi execrado quando falou das criancinhas e conseguiu manifestações iradas à esquerda e à direita quando ousou dizer que negros deviam votar em negro.

Simonal era tolo, sim, como costumam ser príncipes, reis e cinderelas negros quando acreditam que basta ter talento e serem ”amigos dos homens” para gozar de alguma complacência. Esquecem que negros são suspeitos a priori para os quais se dispensa julgamento formal para serem condenados. Antônio Ribeiro Romanelli, advogado exilado do Brasil durante o regime militar, disse que ”Simonal foi julgado sem defesa pela mídia, o que acabou com ele não só como pessoa e artista, mas acabou com sua vida”.

Sobre o caso, disse Caetano Veloso: ”Assim que cheguei, os militares me interrogaram por seis horas e disseram nomes de artistas que os estariam ajudando com denúncias etc. Foram vários nomes. Eles queriam me amedrontar. O nome de Simonal estava entre eles”, afirma Caetano. ”Parecia estar sendo usado como um nome fácil de parecer crível.”

O que havia de crível nessa estória é o que sempre aguarda os negros, apesar dos mimos e salamaleques de que desfrutam do mundo branco enquanto estão em posição inatacável mas que dá lugar à virulência, a uma sede de destruição, a uma intolerância quase sempre desproporcional ao ”erro” cometido quando comparado às tolerâncias indisfarçadas ou acobertamentos em relação a crimes e delitos maiores praticados por outros. Aliás, fato compatível com o que já se sabe por estudos acadêmicos e empiricamente: réus negros recebem penas superiores à dos réus brancos para os mesmos crimes. Em muitos casos é desnecessária a existência do próprio crime.

No dia 13 de maio de 1988, vi pela primeira vez, cara a cara, o meu ídolo. Era passeata de contestação ao centenário da famigerada Lei Áurea. O cortejo saiu do Largo do Paissandu com destino à Praça da Sé. Lembro que a altura da Avenida Ipiranga com a Avenida São João, onde, segundo Caetano Veloso, ”alguma coisa acontece/no meu coração” . Ali estava Simonal, camisa de mangas compridas avermelhadas, sapatos de brilhos acanhados, rosto aparentemente inchado pela embriaguez gerada pelo ostracismo e o repúdio. Houve um alvoroço em torno dele. Uma parcela do Movimento Negro, refém do patrulhamento ideológico, endossava o seu criminoso prejulgamento. Prevaleceu a porção da consciência negra mais antenada – e contra o fratricídio estimulado – com o destino miserável dos negros artistas ou não. Essa militância garantiu a presença do Rei da Pilantragem (por ironia) no palco daquele evento.

É elogiável o ato da OAB, sobretudo, para seus talentosos herdeiros etnomusicais Simoninha e Max de Castro. Porém, trata-se de uma reparação irreparável, Simonal pagou com a própria vida. Foi martirizado. O mesmo destino não tiveram outros artistas brancos sobre os quais pesavam as mesmas suspeitas, encobertos pelo manto da cor da pele da impunidade hereditária.

O recado é claro. Há sempre algo à espreita, pronto para se manifestar ao menor deslize. A destruição moral, pessoal, política etc. é o início do processo de recondução ao seu ”devido lugar” a todos e todas que dele ousaram sair.

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