Hoch lebe Zumbi dos Palmares, por Sueli Carneiro

Não, caro leitor, não é o samba da crioula doida não. O título acima significa Viva Zumbi dos Palmares em alemão.

Por: Sueli Carneiro no Correio Braziliense

No ano passado escrevi nesta coluna que Zumbi cada vez mais se espraiava, ganhando o mundo e um reconhecimento que por muito tempo a história oficial lhe negou no Brasil.

 Ei-lo agora em Berlim, provocando mais uma jornada cultural dos afro-brasileiros aqui residentes.

E como em Palmares, e como também é de sua natureza e de sua história, eis Zumbi juntando comunidades, facilitando diálogos entre afro-brasileiros, afro-alemães, judeus, turcos, africanos, todos empenhados em construir pontes que permitam um agir em concerto na luta anti-racista.

Sob a coordenação de Wagner Carvalho, um dos mais ativos agentes culturais afro-brasileiros aqui residente, e com o apoio da Werkstatt der Kulturen, (Oficina das Culturas) do Senado de Berlim e da Fundação Heinrich-Böll, realiza-se nesse momento o Blequitude Berlin – Programa de Informação e diálogo em homenagem a Zumbi dos Palmares, uma semana de discussões e troca de experiências sobre o trabalho anti-racista no Brasil e na Alemanha.

O tema do racismo é objeto de permanente debate por aqui. Está na mídia, nas ruas, nas universidades, em peças de teatro para adolescentes. As múltiplas vozes se fazem presentes, e a luta anti-racista parece parte integrante da agenda política das forças progressistas da sociedade. O que faz toda a diferença em relação ao processo brasileiro.

A comunidade turca, a maior entre as minorias da sociedade alemã, por meio da Confederação Turca em Berlim-Brandenburgo (Türkischer Bund Berlin Brandenburg), luta contra o racismo e a hostilidade a estrangeiros e pela igualdade de direitos em relação aos alemães, pois grande parte deles é nascida em solo alemão e se autodenomina turco-alemão ou alemão-turco.

Informa-nos Kenan Kolat, o seu secretário-geral, que o problema do racismo apresenta três características básicas: a que advém das diferenças nos direitos de cidadania sobretudo para imigrantes; a violência racial física ou verbal e as manifestações de racismo latente, que se traduzem no acesso desigual às oportunidades sociais, especialmente no mercado de trabalho. Como se vê, nesse caso, o Brasil apresenta padrões de Primeiro Mundo, o que me faz sentir em casa por aqui.

Na comunidade judaica, nos diz seu representante, Moshe Waks, que se discute formas de lidar com o anti-semitismo dos últimos tempos. Mas há confiança na disposição do Estado alemão em não permitir o retorno do anti-semitismo como política oficial do Estado alemão e celebram o fato de, apesar do latente sentimento anti-semita, a experiência democrática dos últimos 50 anos da sociedade alemã mostrar-se capaz de isolar politicamente essa tendência: um político importante do Partido Liberal tentou capitalizar politicamente o anti-semitismo. Por isso, seu partido não foi bem sucedido eleitoralmente e não ultrapassou 7% dos votos nas últimas eleições, quando esperava alcançar em torno de 18%.

Os refugiados lutam por direitos específicos que facilitem a integração, o direito de ir e vir, o acesso ao trabalho e ao aprendizado da língua alemã. Mulheres negras africanas e afrodescendentes lutam para sair do isolamento político e alcançar reconhecimento de sua condição específica. Afro-alemães recusam ao mesmo tempo cidadania de segunda classe que têm em relação ao alemão branco e o status superior de que desfrutam em relação a outros afrodescendentes por serem cidadãos alemães.

Há um exercício permanente e vibrante de ação anti-racista no contexto de uma conjuntura econômica adversa, que alimenta sentimentos latentes de intolerância racial, étnica e religiosa aos quais o Estado procura responder com campanhas educativas de combate ao racismo, evitando a impunidade dos crimes raciais e reparando as condutas discriminatórias. Entre as recentes conquistas das comunidades destaca-se a legislação que reconhece a Alemanha como um país de imigração, fato que tem por conseqüência a aceitação e o reconhecimento de todos esses grupos étnicos como pertencentes à nação alemã. Lei a esse respeito está em tramitação. Outro passo importante rumo à integração desses grupos é a atribuição da cidadania alemã a todas as crianças nascidas em solo alemão a partir de 1º de janeiro de 2000.

É sem dúvida um processo difícil e cheio de contradições cujo mérito fundamental é o fato de ninguém fugir ou negar a existência do problema e, mesmo que penosamente, buscam maneiras de equacioná-lo. Nisso ainda temos muito o que caminhar no Brasil.

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