Campanha lança manifesto ‘Vidas Negras Importam’ e propõe 10 metas para reduzir impacto do racismo

Enviado por / FonteG1

A Universidade Zumbi dos Palmares e a Afrobras, com apoio da Agência Grey, lançaram nesta terça-feira (30) em São Paulo um plano de ações práticas para o combate ao preconceito e à discriminação racial no Brasil, pedindo ações concretas das autoridades do país para a melhoria de vida da população negra brasileira.

O manifesto “Vidas negras importam: nós queremos respirar” também é um movimento nacional proposto por diversas personalidades do meio jurídico, político, empresarial, artístico, do esporte e da comunicação, que se mobilizam para debater a diversidade racial brasileira e ajudar a implementar políticas públicas e privadas contra o racismo no país.

Chamado de “Movimento AR”, o nome do grupo é uma alusão ao caso do norte-americano George Floyd, homem negro que foi morto por asfixia com o joelho por um policial branco em Minneápolis, nos Estados Unidos.

“George Floyd foi assassinado porque queria, precisava, mas foi impedido de respirar. A partir de hoje ele não estará mais sozinho. Com ele, cada um de nós, negros de todas as cores, em várias partes doBrasil e do mundo, encheremos os pulmões para gritar e exigir, as mudanças e transformação inexoráveis do seu e do nosso, tempo e geração”, afirma o manifesto do grupo.

A campanha também faz alusão à morte do adolescente João Pedro, de 14 anos, assassinado durante uma ação policial dentro de casa, em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Várias personalidades que fazem parte do “Movimento Ar” gravaram vídeos para a campanha, que conta com participação de nomes como a atriz Zezé Motta, da cantora Sandra de Sá, a empresária Luiza Trajano e o comediante Fábio Porchat, entre muitos outros

Metas e ações

O texto lançado nesta terça aponta dez ações estratégicas para possibilitar que os negros tenham acesso à Educação e à renda no país, por meio de parcerias e políticas públicas. O plano quer atingir esses objetivos em cinco anos, alcançando 30% a cada novo período.

“O ódio racial envenena o ar a nossa volta e intoxica, sufoca e asfixia cada um de nós e toda a nação. O racismo subverte os princípios da dignidade humana e cria, justifica, naturaliza e reproduz o sentimento de superioridade e inferioridade entre os indivíduos em razão raça e da cor da pele. O preconceito e a discriminação racial mata inocentes, destrói sonhos e interdita possibilidades. Subverte e deslegitima os propósitos da república, desqualifica e fragiliza os fundamentos da democracia, corrói e corrompe a confiança, a solidariedade e a fraternidade social. Mantém negros e brancos separados e desiguais”, diz o manifesto.

O plano de metas do movimento elenca medidas para garantir o acesso ao mercado de trabalho e a prorrogação da Lei de Cotas nas universidades públicas federais, além de pedir a reformulação nos protocolos policiais, a criação de oportunidades de estudos para jovens negros e a criação de um fundo chamado de “Fundo Vidas Negras Importam”.

O objetivo do fundo é fomentar, apoiar e financiar projetos educacionais, de empreendedorismo, tecnológicos e de economia cultural criativa para jovens negros no Brasil.

“Precisamos educar para transformar. Elaboramos um manifesto com ações que, em alguns casos, basta apenas fazer com que as leis sejam cumpridas. Não estamos pedindo nada, queremos o direito de auxiliar a sociedade a se organizar de uma forma onde não exista distinção pela raça. Para isso a educação de nossas crianças e jovens negros é essencial, mas também a educação nos ambientes corporativos é preponderante que os profissionais sejam envolvidos e aprendam a fazer a gestão da diversidade”, afirma José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares e um dos idealizadores do “Movimento AR”.

As dez metas do manifesto publicado pelo “Movimento AR” são as seguintes:

  1. Mudança nos protocolos policiais para impedir técnicas de sufocamento e estrangulamento em abordagens policiais, bem como disparos de arma de fogo em invasões ou ocupação de favelas e comunidades.
  2. Mudança nos protocolos da segurança privada para acabar com a hostilização, perseguição e constrangimentos nos ambientes públicos e privados, incluindo a eliminação da sala de agressão e tortura presente nos bancos, shoppings e supermercados.
  3. Criação de 500 mil bolsas de estudos para qualificação de jovens negros em graduação, pós-graduação, pesquisa, formação tecnológica, economia criativa, negócios e empreendedorismo.
  4. Criação de 300 mil vagas de estágios, trainees e profissionais negros nas empresas públicas e privadas.
  5. Formação e qualificação de um milhão de quadros corporativos em discriminação e racismo e gestão da diversidade racial.
  6. Implementação de recursos por meio de ferramentas, mecanismos, metodologia de gestão, gerenciamento da inclusão, desenvolvimento de carreira, ações e políticas de diversidade racial em 300 empresas públicas e privadas.
  7. 300 milhões em compras corporativas do ambiente público e privado, de serviços e produtos de empresas e empresários e profissionais negros.
  8. Fundo Vidas Negras Importam de R$ 200 milhões para o fomento, apoio e financiamento educacional, empreendedor, tecnológico e de economia cultural criativa para jovens negros.
  9. Implementação integral da Lei da História do Negro e História da África e da disciplina de Relações Étnico Racial em todo ambiente escolar e universitário público e privado do país.
  10. Campanha de instalação da Rua Zumbi, do Selo da Igualdade Racial, ampliação e expansão da ‘Virada da Consciência”.

Carta

Também foi lançada uma carta de “mulheres brasileiras feministas antirracistas e antifascistas em defesa da democracia”.

Para as autoras da carta, como a professora doutora na Faculdade de Direito da PUC-SP, Silvia Pimentel, reconhecida por sua trajetória de atuação na defesa dos direitos humanos, sobretudo das mulheres, a expansão da pandemia da Covid-19 escancara a crise econômica e as violações de direitos humanos, em especial da população negra e dos povos indígenas, com reiteradas sinalizações de ruptura institucional entre os Poderes da República.

“Lutamos contra a perpetuação da desigualdade social que se amplia com os cortes nos orçamentos da saúde e da educação, do saneamento básico e de programas sociais”, diz trecho da carta.

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