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Candai Calmon, a bailarina que carrega ancestralidade em cada movimento

Com sua dança, ela conecta pessoas nos quilombos que ainda resistem em Salvador (BA). “Toda dança é política”, afirma em entrevista ao HuffPost Brasil.

Por Nathali Macedo Do Huffpost Brasil

JUH ALMEIDA/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL

Candai Calmon é a 264ª entrevistada do “Todo Dia Delas”, um projeto editorial do HuffPost Brasil.


Bailarina e soteropolitana, Candai Calmon, de 28 anos, faz jus ao seu nome. Ele passa a ideia de incandescência e ela, por si só, irradia luz. Luz essa que nasceu com ela, mas que precisou de muito esforço para se manter acesa e em conexão com sua essência: negra, rastafári, quilombola. Apaixonada por balé clássico, ela desafiou uma área composta majoritariamente por mulheres brancas e se formou pela Escola de Dança da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB). Hoje, ela faz de sua arte uma ferramenta de conexão com a própria ancestralidade. “A estética do balé clássico é branca. Além do mais, é uma dança para fora, para o outro, como espetáculo. Eu também gosto de estar em cena, gosto do espetáculo, mas a dança não é só isso: é se conectar consigo”, explica em entrevista ao HuffPost Brasil.

A dança não é só isso: é se conectar consigo.

JUH ALMEIDA/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL

Com sua dança, ela conecta pessoas nos quilombos que ainda resistem em Salvador (BA).


Diante de sua forte presença, o que a reportagem conseguiu extrair parece ser apenas uma parte ínfima do que ela tem para compartilhar com o mundo. Nascida na periferia de Salvador (BA), Candai foi educada dentro da religião rastafári, sob os preceitos do respeito à natureza e à ancestralidade. “Meu pai me ensinou o que significa ter liberdade enquanto homem preto”. Ela conta que seu ambiente familiar sempre foi aberto a essas questões. E, assim, entendeu desde cedo a qual conjuntura social, racial e de gênero estava submetida por ser mulher e negra. “Minha mãe fala de racismo desde os anos 90, quando ninguém falava disso. Ela é resistência desde que me entendo por gente”.

Mesmo criada neste ambiente, já na adolescência Candai converteu-se ao cristianismo por vontade própria. Tornou-se evangélica e foi inserida em um universo oposto ao de liberdade e conexão apresentado por seus pais. O discurso de “virgindade até o casamento” e da subserviência feminina se tornou presente, assim como a instrução para cortar seus dreads – símbolo importante da cultura rastafári. Assim, foi podada do contato com sua ancestralidade. Hoje, embora tenha se distanciado e atribua à doutrinação cristã a perda de conexão consigo mesma, ainda enxerga beleza no evangelho. “A ideologia cristã funciona muito bem quando não é maculada”.

Minha mãe fala de racismo desde os anos 90, quando ninguém falava disso.

Em paralelo à sensação de deslocamento, falta de autoestima e negação da própria identidade que a religião eurocêntrica impôs, Candai formava-se em dança clássica moderna e regional. Em total contato com o tipo de arte que desejava colocar no mundo, rompeu com o que lhe castrava e iniciou uma caminhada de volta para si mesma. Como consequência, repensou também a forma com a qual expressava sua dança: “Fui em busca da dança contemporânea e das danças afro pela liberdade de criação que elas proporcionam, e principalmente porque elas me reaproximavam de quem eu sou”.

Questionou também seu lugar no mundo. Balé clássico. Mulher. Negra. Quilombola. Rastafári. Como se reconectar, de fato, com a ancestralidade que, há tanto tempo, tinha ocupado o segundo plano em sua vida? Diante das inquietações, decidiu não só experimentar novas referências, mas também, estudar. Escolheu algo que pudesse complementar a forma de se expressar no mundo: feminismo e questões de gênero. E foi debruçando-se no curso “Gênero e Diversidades”, no Núcleo Especializado de Estudos sobre a Mulher, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que descolonizou sua mente e enxergou um universo de possíveis.

A dança me reaproximou de mim mesma.

Mas foi em 2014 que mergulhou, de vez, em um propósito real. Aos 23 anos, partiu para Montevidéo, no Uruguai, para estudar dança na escola “Taller de Danza y Creación Casarrodante”. Lá, durante 3 anos, trabalhou com grandes nomes da dança contemporânea e se apresentou em palcos que sempre sonhou. Repensou a dança de maneira crítica. Passou a ser mais criativa. Questionadora. Repensou, novamente, a si mesma. Conectou-se também com a ancestralidade que lhe foi roubada. “Foi uma mudança radical e intrínseca. Eu revisitei minha dança para voltar a conectá-la com o meu ser”, lembra.

É ela, a ancestralidade, portanto, a principal intersecção que Candai busca trazer em sua arte. Quase que sagrada, a conexão que ela mantém hoje com a natureza está presente não apenas em sua dança, mas em toda a sua existência. Seus amuletos de poder são os cristais. “O reino mineral me fortalece, são pontos de energia fundamentais para mim”, conta. E sua conexão com o espiritual, hoje, acontece em rituais que utilizam a ayahuasca, uma bebida preparada com o cipó jagube e folhas de chacrona, utilizada por povos amazônicos em rituais de encontro com o sagrado.

Eu revisitei minha dança para voltar a conectá-la com o meu ser.

JUH ALMEIDA/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL

É ela, a ancestralidade, portanto, a principal intersecção que Candai busca trazer em sua arte.


Todo o movimento espiritual e pessoal de Candai traz conexão com a expressão de quem se é no presente, lembrando do passado e, também, de quem se pode ser no futuro; com conectar-se consigo mesma e expressar ancestralidade, principalmente, para que ela jamais seja esquecida. De volta ao Brasil e com este propósito firme, ela se interessa pelos significados político-sociais de performances, que fazem da dança um discurso, uma subversão. E também ministra aulas e vivências de dança criativa e expressão corporal em quilombos de Salvador. O objetivo? Estar em contato com outras pessoas negras, preservando a sabedoria e a cultura de seus ancestrais. Esta, sim, sua verdadeira forma de ativismo.

Mulher preta, feminista, bailarina, bissexual, docente em dança, bacharela em Gênero e Diversidade e, principalmente, em se reconectar. A luz de Candai está acesa. Radiante. Hoje, ela gosta de se definir como “mulher da natureza”, já que toda a sua existência está ligada ao planeta e aos movimentos do universo – mas, antes de tudo isso, empenha seu tempo em amar. “Pode escrever aí: é noiva de uma mulher maravilhosa!”, brincou com a reportagem, ao mencionar que casará em breve com a namorada.

A beleza da busca de Candai por si mesma é a beleza da busca de toda mulher por si mesma. Uma jornada que todas nós, cedo ou tarde, vamos percorrer.

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