segunda-feira, outubro 3, 2022
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Capital, desigualdades e branquidade: Um alfabetário heterodoxo

É quase certo que conceituar fragmentariamente o capital só reforça o capitalismo que muitas de nós combatemos, porque reforça hierarquias, competição exacerbada, o consumismo, o desemprego/desocupação, a busca de lucro progressivo e incessante – mesmo que com prejuízos ecológico -, a privatização de bens públicos, em síntese , a valorização do ter e da aparência, à luz de conceitos e ideologias euro-hegemônicos . Em todo caso, pode caber um certo glossário, para estimular reflexões sobre sinergias negativas, ligadas às questões de gênero, raça e condição socioeconômica. Tanto no plano individual quanto no coletivo, destaco os vínculos:

por Nilma Bentes 1 – enviado para o Portal Geledés

a)  Capital afetivo: Aqui, trata-se da questão de orientação sexual, então, a heterossexualidade/heteroafetividade é absolutamente hegemônica e é, portanto, privilegiada; fica a homo e transsexualidade com ́capital afetivo ́ baixo.

b)  Capital ambiental: Nas cidades, os que habitam as áreas de melhor infraestrutura urbana detém maior fatia desse tipo de capital e as famílias brancas o concentra – racismo ambiental.
c)  Capital ́ascendestista: A ascendência europeia é de maior capital. Assim, brasileiros/as que têm fenótipo euro-branco e até (apenas) sobrenomes alemães, italianos, ingleses, franceses, holandeses e portugueses têm sido privilegiados . Alguns sobrenomes orientais e indígenas têm um certo capital ́ascencentistas ́ . Porém os ́dos Santos ́, ́dos Anjos, ́da Silva ́, ́da Conceição ́ , ́de Souza ́ os quais têm baixo ́status ́, e alguns, de alguma forma, estão ligados à escravidão negra, têm baixíssimo capital ́ascendentista’.
d)  Capital cultural: Hegemonicamente ́cultura ́ é sinônimo de ́euro-cultura-elite ́ (branca: balé, música clássica-erudita, artes plásticas /pintura/escultura); a chamada ́cultura popular ́ tem, obviamente, menor capital cultural.
e)  Capital força-física: Inequivocamente os homens possuem a concentração desse tipo de capital; não é à toa que estupram, estapeiam/esmurram e são maiores agentes de feminicídios, inclusive dentro do sistema de saúde, sobretudo às que estão na zona da pobreza.
f)  Capital sexista: Também, inequivocamente, os homens concentram esse tipo de capital e não somente no Brasil e sim no mundo. Machismo/patriarcalismo generalizado.
g)  Capital impunibilista: A acumulação desse tipo de capital de impunidade privilegia famílias brancas, de poderio econômico-financeiro e de status. A severa ́força da Lei ́ é ativada para os que estão na pobreza, sobretudo para negros/as, indígenas e às pessoas ligadas ao ́baixo prostíbulo ́.
h)  Capital econômico: Esse é um dos ́clássicos ́. No Brasil donos de grandes empresas extrativistas (madeireiras, mineradoras, de frutos do mar/rios); os latifundiários (muitos são ́grileiros ́), do agronegócio (pecuaristas, monocultores), agroindustriais e industriais, comerciantes e banqueiros . Perfil hegemônico: famílias brancas e, em pequena escala, orientais/asiáticos.
i)  Capital eleitoral: Homens, brancos, empresários, com fartos recursos econômico-financeiros, com acesso direto ou indireto à redes de comunicação e ditos ́bem apessoados ́.
j)  Capital etário: As pessoas de 35 a 55 anos possuem esse tipo de capital mais elevado.
k)  Capital esportivo: Em geral, acumulam mais esse tipo de capital, as modalidades com menor possibilidade de contato físico; que precisam de espaço especial (piscina, campo de golfe, quadras de tênis), e cujos apetrechos são de custo elevado; cabe indagar aqui se automobilismo é mesmo esporte pois depende mais de motor, combustível, tipo de pneu, etc. Perfil hegemônico: pessoas brancas. Aos que estão na pobreza cabe algumas modalidades ligadas ao atletismo (corridas e saltos, principalmente), futebol, box e outras que não precisem usar espaços elitizados.
l)  Capital financeiro: banqueiros, grandes aplicadores no mercado de capitais. Perfil hegemônico: famílias brancas.
m)  Capital intelectual: Pesquisadores, professores universitários, sobretudo com títulos de mestrado/doutorado obtidos na Europa, USA, Canadá. Populações negra e indígena estão com baixíssima acumulação desse tipo de capital. Praticamente não conseguem ́bolsas de estudos ́ nem para se deslocar dentro do território nacional;
n)  Capital jurídico: Advogados/Operadores de Direito/juristas ligados a escritórios renomados. Perfil hegemônico: homens brancos.
o)  Capital marcialista: Homens brancos de alto escalão no oficialato das forças armadas federais. Pouca ou nenhuma representação de negros/as e indígenas.
p)  Capital mass media: Redes de TV são as hegemônicas (a maioria quer ́aparecer na TV ́), embora as radiofônicas sejam as mais acessadas. Donos? Homens brancos.
q)  Capital natural/biodiversidade: O Brasil tem, mas quem amealha e tem lucrado? Famílias brancas.
r)  Capital patrimonialista: Historicamente, no Brasil, o homem branco concentra esse tipo de capital.
s)  Capital político: Possui mais quem garante maior exposição nos meios de comunicação, então, são os homens brancos que concentram esse tipo de capital.
t)  Capital profissional: diretores executivos (CEO), advogados, médicos, publicitários, jornalistas – brancos/as, evidentemente.
u)  Capital racial: Segmento branco da população; pessoas brancas que estão na pobreza, de alguma forma, se beneficiam com esse tipo de capital- são priorizadas em empregos em shoppings, companhias aéreas, recepcionistas, etc.
v)  Capital regional: Sudeste e Sul do Brasil detêm a hegemonia do capital regional – maior concentração de brancos. Quem tem menor ́cacife ́ são as regiões Norte e Nordeste.
w)  Capital religioso: Cristianismo detém maior capital religioso. Mesmo que Jesus Cristo tenha sido afro-asiático, é considerado ́blasfêmia ́ dizer que ele não foi uma pessoa branca. No tocante a ́Deus pai, Filho e Espírito santo ́ só o nome ́santíssima trindade ́ é feminino. Religiões ́afro-indígenas ́ têm sido ultra discriminadas.
x)  Capital social: Considerando que, para alguns, esse capital está ligado a estratégias ́ e pode ser ́herdado ́, então, desde invasão europeia neste chão e do pecado ecológico que representou a brutal extração de ́pau-brasil ́, a hegemonia deste capital está com os homens brancos.
y)  Capital tecnológico: Considerando que envolve nível educacional, acesso a informação técnica, estágios no exterior entre outros, o perfil hegemônico o liga a homens brancos.

z)  Capital visual: Considerando que, secularmente, o ́padrão de beleza ́, no Brasil, tem sido branco, não há dúvida de que homens, mulheres, crianças, homossexuais, portadores de deficiência, prostitutas, domésticas, brancas (principalmente se louros/as de olhos azuis), têm sido beneficiados, na sociedade brasileira. As populações negra e indígena têm de percorrer muito chão para garantir a equidade e, já que chegamos até aqui, resta continuar.

Julho de 2014.


 

1 Ativista do movimento negra, uma das fundadoras do CEDENPA-Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará; da Rede Fulanas-Negras da Amazônia Brasileira/NAB , do IMUNE-Instituto de Mulheres Negras do Pará e, atualmente, uma das coordenadoras da AMNB-Articulação de Mulheres Negras Brasileiras.

 

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