terça-feira, janeiro 31, 2023

Carta aberta à Madalena

08 de março de 2021

Mana,

Quando vejo a tua imagem-presença nas redes sociais, não tenho dúvidas que há vida no pântano, na lama, no lodo, e que o que você passou, suportou, superou, não tinha porque passar, não tem porque existir. Ainda bem que temos as nossas mais velhas, que não dormem, que sopram em nossos ouvidos cansados e esperançosos, que são luas, de dia e de noite; e você emergiu do subsolo da casa branca, nos braços de uma delas. Eles só têm dinheiro, dinheiro que lhe é devido e que você vai poder acessar depois desses 14 anos pantanosos de trabalho. O tempo é sabedoria, e foi feito o trabalho, foi expurgada a escravidão. Trabalho escravo nem deveria ser chamado de trabalho, e sim de escravidão mesmo, trabalho é outra coisa. E o trabalho foi feito para que conhecêssemos você, sua história, suas memórias em forma de imagem, seu existir. Trabalho é outra coisa, né minha irmã!?

Nessa manhã, quero falar da minha alegria por saber que você terá direito ao que lhe é devido juridicamente, humanamente, existencialmente. Seus direitos trabalhistas, seu tempo, o caminho pra casa, o caminho de volta, de volta para o seu eixo, para os seus, para os lugares que lhes foram sequestrados. E agora vendo cada passo, e o seu sorriso negro, me alegro, me alegra a vida. A tua vida alegra as minhas recordações, não sei te explicar muito bem, mas a tua vida é como uma notícia boa, uma vida que deve ser reverenciada, exaltada, pautada. Tu és verdade! E existe racismo no Brasil, sim!

Você que sofreu na carne o peso de ter sido escravizada há exatos 14 anos, e na história escravocrata brasileira, temos um fatídico e controverso (contra o verso) 14 de maio, pós assinatura do que ficou conhecido como “Lei Áurea”, que Lazzo Matumbi¹, definiu muito bem o que esta data significou, e teima em se repetir, mas não sem luta.

No dia 14 de maio, ninguém me deu bola

Eu tive que ser bom de bola pra sobreviver

 

Mas a minha alma resiste, o meu corpo é de luta
Eu sei o que é bom, e o que é bom também deve ser meu
A coisa mais certa tem que ser a coisa mais justa
Eu sou o que sou, pois agora eu sei quem sou eu

Foi em um 14 de março de 2018, que a vida de Marielle Franco foi ceifada também. Março me traz esses episódios de violência, essas lembranças…

Sabemos que as marcas do racismo não se apagam quando as correntes são quebradas. E as correntes devem ser quebradas, sempre! E te digo que o eco dessa quebradeira chegou aqui, produziu estrondos audíveis “pras” bandas de cá, do Norte do Brasil, na cidade de Ananindeua, Região Metropolitana de Belém-PA.

Sabe Madalena, dói muito tudo o que você passou minha irmã! Se eu pudesse, eu queria massagear seus pés, te ouvir, contar-lhes histórias, as minhas histórias, poesias, contos e ouvir sua voz, sua existência. Contar-lhes segredos dos meus dias de miséria, dos episódios de racismo, de escrotidão disfarçada de bondade, de ajuda de gente “legal”, os bem intencionados, sabe? Ah, eles sabem que são desumanamente “bem intencionados”, que são racistas, escravocratas, capitalistas e senhores de bens.

Queria poder te contar dos vestidos que eu ganhava quando eu era criança. Vestidos bonitos, cheios de folhos, com forro e as vezes vinha até com restos de goma, mas eram sempre vestidos usados, não sei quem eram as “donas” deles, mas eram vestidos bonitos, finos e bem alinhados, bem coloridos, bem acabados. Se bobar, você até conheceu e conviveu com assas distintas donas dos vestidos que me chegavam nas datas de Natal, ou teve acesso a eles, quando novos. Quem sabe até os engomou, para deleite de quem os usaria, novos, antes de serem doados, descartados.

Então, eu sou a menina que usava os vestidos usados, hoje uma mulher que usa a escrita para engomar as memórias nos livros, artigos, jornais, revistas e cartas, para que não mais fiquem submersas, pois a goma que engoma minhas memórias, antes de ser goma, é mandioca, matéria prima da farinha também, são primas-irmãs. Eu não passei por esses condenáveis episódios de escravização a que você foi submetida, essa história do vestido, que é real, é também para conVersar um pouco de como nos encontramos de alguma forma, em algum lugar; pantanoso, e eu queria contar-lhe e dizer que aqueles vestidos da família rica e branca, que eu vestia, quando criança, e até hoje, já formada em psicologia e deformada em poesia, ainda hoje Madalena, fico me perguntando: a quem aqueles vestidos pertenciam, antes de mim? Quem eram as donas daqueles vestidos?

Hoje sei que você e tantas mulheres negras, continuam sendo expropriadas de suas existências para limpar a sujeira do piso e dos vestidos que depois de usados, me eram doados, lembro que vinham sempre limpos, usados e limpos. Por muito tempo os usei novamente quando criança, igual brinquedo brincado, sabe?

Ah, Madalena! Mana, tu não sabes da alegria que eu senti e sinto quando te vejo com esse sorriso largo e negro, e com teus vestidos lindos, livres. E a certeza, na luta, de que outras Madalenas serão libertas.

Agora eu te acompanho pelas redes sociais e coletivos comprometidos com luta anti racista, a luta pelas vidas ceifadas vivas. E como é bom ver-te dona de si!

Madalena Gordiano,

Como é bom ver-te vestida de Liberdade!

Demora é pouca, fico por aqui!
Até a próxima!
Ana Silva
[dra. Poesia]

Nota de Rodapé:

¹Pronunciamento de Lazzo Matumbi no senador brasileiro no Dia da Consciência Negra para receber a “Comenda Senador Abdias Nascimento”. https://www.youtube.com/watch?v=mjORYovN9iY. Acesso: 08-03-2021.

Poeta, psicóloga, feminista negra-amazônida, pesquisadora rolezeira, integrante do Slam Dandaras do Norte -PA, integrante do Coletivo Feminista “As Marias”, integrante da K-alas (KoletivaAfroLatinAmericanas), idealizadora do projeto: Escuta poÉtica: me conte o seu conto! Doutora em Ciências (USP). Paraense.
** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
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