sexta-feira, novembro 26, 2021
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Carta para Carolina Maria de Jesus – Por Aline Botelho

Rio de Janeiro-2021.

Essa carta é direcionada para uma Feminista que catava lixos, aproveitava restos de palavras e produzia reflexões inspiradoras e desafiadoras, que retratava a escrita do cotidiano do favelado. Carolina Maria de Jesus, escrevo a ti para tentar de alguma forma compreender o seu ponto de vista em relação a um questionamento que me inquieta e insiste em martelar na minha cabeça. 

Antes de iniciar preciso te posicionar a respeito de como está o nosso Brasil. Tivemos alguns avanços na questão educacional. Eu mesma consegui obter o diploma de graduação em uma Universidade Pública, através de um Programa chamado Plano Nacional de Formação de Professores- licenciatura de Pedagogia, esta plataforma carregava o nome do nosso centenário querido Paulo Freire. Com a formação acadêmica, pude passar em alguns concursos públicos e viajei de avião. Sim, durante algum tempo a qualidade de vida do povo brasileiro melhorou.  Ter alimento na mesa deixou de ser um pesadelo na vida de muita gente e o verbo esperançar estava presente nos diálogos do cotidiano familiar. Mas, de um tempo pra cá tudo tem ficado complicado para nós, o povo preto e pobre! 

Sonhos como o seu, “que residia numa casa residivel, tinha banheiro, cozinha, copa e até quarto de criada”, são substituídos por calçadas que tem o céu como sua cobertura, e que correspondem a tantas formas de casa, voltaram a ser inalcançáveis, não tento romantizar com minhas palavras a dor de nossos irmãos. Mas ouso afirmar para você que os tempos atuais voltaram para dizer que os olhares colonizadores continuam. Além de tantos apagamentos/silenciamentos/violências/fomes/e falta de ar, ainda temos que aprender a lidar com a COVID-19, um vírus mortal que tem dilacerado e ceifado tantas vidas mundiais. Tem uma frase que se encaixa perfeitamente nos dias atuais, “a nossa maior resistência é estar vivo”!

 Parafraseando nossa amiga Conceição Evaristo, escrever é um ato político e, nos dias atuais, o direito à fala também se tornou um ato de resistência. Então, tento escrever a ti deixando meu coração falar, com palavras simples e que me possibilitam sentir suas batidas. Vivemos em constantes doutrinações linguísticas e eu sinto necessidade de falar o Pretoguês, como Lélia Gonzalez nomeou nossa forma de linguagem. Quero usar, como você fez, palavras que não dormem nos dicionários.  Quero escrever palavras vivas e sentidas, pois ‘não nascemos rodeadas de livros e sim de “palavras’; de “estórias”; de “memórias”. 

Mas qual meu questionamento pra ti? Parte de metáforas que utilizam os tons da cor amarelo(s).

Nas experiências tecidas entre leituras e conversas, descobri que o Amarelo representa a cor do orixá Feminina Oxum do Candomblé, que é uma religião de matriz africana e está vinculada a ideia de: gema do ovo, fecundidade, maternidade, ouro, saúde, e tudo que é muito precioso na vida. Um verdadeiro Sagrado feminino. Mas uma definição que me emocionou foi que o amarelo representa o amor entre os seres, o amor universal.

Entretanto, a origem da palavra Amarelo surge do baixo-Latim hispânico amarellus, diminutivo do Latim amarus, “amargo”, indo ao encontro de sua definição da palavra ‘Fome’, no seu bestseller quarto de despejo.

Leandro Roque de Oliveira, mais conhecido como Emicida, é um rapper e produtor musical brasileiro. É conhecido por suas rimas de improviso, seu posicionamento político, sua inteligência, seu respeito e nos contempla com reflexões magníficas quando reflete que todas as mazelas presentes na sociedade são coisas para para ontem, e que tudo que temos é um ao outro para vencermos esses tantos desafios impostos. Mas porque trago Emicida? Chamo o cantor para nossa conversa, porque em seu documentário ‘AmarElo’ ele nos apresenta a ideia de que o amor é do tom amarelo.

Carolina, vocês dois falam de lugares similares. No entanto, o AmarElo trazido por Emicida tem seu significado nos nossos elos de afetividade/amorosidade com nossa ancestralidade que perdura até os dias atuais. Elo que se tem por base de se importar com nosso igual preto que enfrentou opressões, lutou e conquistou tantos espaços e expressões para hoje estarmos onde estamos. 

Já em Quarto de Despejo o amarelo tem seu significado a partir da palidez que a fome pinta na face daqueles que a suportam cotidianamente. Parte de uma denúncia escancarada frente a um dos maiores países que produz alimento do mundo! O povo preto passa fome neste solo fértil de plantio variado. Um paradoxo absurdo!

Se analisarmos o mapa da exportação de alimentos no Brasil e a queda da linha de pobreza durante a pandemia, percebemos que a compra de gêneros alimentícios é cruel para os mais pobres e pretos.  E se encaminharmos essa discussão no campo educacional chegamos à merenda escolar que durante a pandemia não houve.

Em quarto de despejo, naquela passagem que você cita que João Carlos não teria aula, e isso a deixava aflita, pois lá na escola ele fazia uma alimentação composta por quatro alimentos em um prato, você fez uma afirmação, “é preciso conhecer a fome para descrevê-la.”

E assim, inúmeros estudos dizem que muitas crianças vão para escola com a intenção de comer, como João Carlos, e garantir a Bolsa Família, programa pelo qual é direcionado a família em situação de pobreza e de extrema pobreza em todo o País. De modo que consigam superar a situação de vulnerabilidade, o programa busca ainda garantir a essas famílias o direito à alimentação e o acesso à educação e à saúde.  Na sua máxima sabedoria popular vinculada a experiência de vida, nos ensina que “o Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças.” 

Como essas duas concepções se cruzam na trajetória da vida de tantas pessoas estigmatizadas? Como uma mesma cor pode ser representada por essa dualidade? E como unir ambas? Será que tem como, Carolina?

Trago esses questionamentos a ti, mas pontuo que seja difícil encontrar a resposta. Em minha humilde opinião de Mulher Negra, um pouquinho entendedora de classes sociais, bem sucedida para os padrões periféricos, e como uma pessoa que não esquece nunca de onde veio, acredito que o elo, seja a coletividade. Essa é arma afetuosa que pode nos unir e assim tentar compreender as diferentes definições da palavra fome.

 Falo sobre a fome do saber, a fome do amor, a fome da comida, a fome da dor, a fome da vacina, a fome da escuta, a fome da esperança e tantas outras fome (s) que nos assolam. Mesmo diante de tantas dores, não podemos deixar de sorrir, temos que ter esperança no amanhã!

 Pois, nós seres humanos que nos permitimos a compreender a dor do outro, desestruturamos o racismo estrutural e criamos novos elos coloridos, que se unem e formam um arco-íris do amor/paz e união. E partir daí, esses elos seguram as mãos de tantos que precisam de ajuda… assim a cor de tom amarelo seja apenas uma pintura para completar esse arco-íris de amor, através do sagrado que está em nós e no outro. 

  E volto a te perguntar Carolina, como seria a resposta para unir ambas concepções? Teria como, me fale? 

Permita que eu continue a falar, enquanto não chega sua resposta. Peço permissão não apenas para expor nossas cicatrizes que são presentes em nossos corpos, pois estas como já dito tão sabiamente por Emicida, nos roubam nossa voz. Peço, pois, nossos desafios são enormes. Eles são do tamanho de nossos sonhos!

Por muito tempo, nós, estávamos dispersos. Mas quando nos unimos formamos elos de   apoio mútuo e assim, nos tornamos salvos e fortes. Restando nossos encantadores sonhos.

Despeço-me e agradeço imensamente por sua contribuição para nós mulheres negras, feministas, pobres, periféricas em todos os campos de nossa vida.  Obrigada por nos mostrar o protagonismo, força e capacidade de sobreviver. Então essa carta é sobre VIVER! Espero a resposta! Beijos e abraços fraternos.

Aline Botelho – junho de 2021.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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