“Comerciais como o da Perdigão evidenciam o racismo estrutural”

Advogado aponta mensagem racista em campanha de Natal que associa família negra à pobreza. Empresa de alimentos lamenta repercussão negativa

Por Breiller Pires, no El País

 

Silvio Almeida, advogado, professor e presidente do Instituto Luiz Gama. (Foto: DIVULGAÇÃO)

 

A cada Chester vendido, a Perdigão promete doar outro para “uma família que precisa”. Apesar da causa nobre, o comercial de divulgação da campanha cai no lugar comum de representar pessoas negras como a “família que precisa” na ceia de Natal e, por outro lado, atribuir a virtude da caridade a uma família branca. Para Silvio Almeida, advogado, professor de Direito e presidente do Instituto Luiz Gama, que promove direitos da população negra e minorias, a peça publicitária reflete as estruturas racistas da sociedade brasileira, em que os negros são automaticamente associados à condição da pobreza. Autor do livro O que é racismo estrutural (Editora Letramento), o doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela USP adverte que as empresas precisam adotar políticas antirracistas permanentes para não seguir reproduzindo preconceitos em seus discursos e produtos.

 

Pergunta. Qual mensagem o comercial da Perdigão emite ao apresentar uma família negra como necessitada e outra, branca, como abastada e caridosa?

 

Resposta. A desigualdade racial constitui o imaginário. Naturalmente, a propaganda se utiliza desse imaginário para que as pessoas consumam. Comerciais como o da Perdigão evidenciam o racismo estrutural da nossa sociedade. Ele apela para um sentimento de caridade que se manifesta toda vez que nos deparamos com pobres. Em 30 segundos, precisa passar uma mensagem sucinta sobre compaixão que venda seu produto. Sendo assim, a imagem mais rápida é a dos negros como pessoas que merecem compaixão. Trata-se de uma visão tão arraigada, do negro em condição inferior, que a empresa ignora até mesmo os possíveis efeitos negativos que essa representação pode gerar sobre sua marca, incluindo a reação de pessoas brancas que rejeitam esses estereótipos.

 

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