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Consciência negra: herança de orgulho e dor

Artistas negros do Estado, representantes de vários segmentos, conversaram com a Folha de Pernambuco sobre a celebração do Dia da Consciência Negra

Por Mariana Mesquita, Da Folhape

Cannibal – artistas pernambucanos falam sobre Consciência Negra Foto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco

Um fenótipo, um arquétipo, uma classificação. Pigmento, melanina. Um jeito de ser diferente, dentro de uma pretensa igualdade. Questão de biologia, de economia, de história, de política e de educação. De conceito e de preconceito. O que é ser negro no Brasil? Como se enxerga a celebração do Dia da Consciência Negra? Nesta semana em que se recorda a memória de Zumbi dos Palmares (morto em 20 de novembro de 1695), a Folha de Pernambuco conversou com alguns artistas negros para saber a opinião deles sobre esta temática e acerca de como a negritude perpassa a arte que produzem.

“Na verdade, o dia da Consciência Negra deveria ser usado pelas pessoas não-negras, brancas, para refletir sobre o papel delas na sociedade, sobre qual o lugar de fala delas e como estão agindo para mudar o cenário de racismo no Brasil, tentando trazer o discurso do respeito para as suas práticas no dia a dia, entendendo a dimensão de seus privilégios. Porque esta responsabilidade não deveria recair apenas sobre as pessoas negras”, critica a poeta Luna Vitrolira, para quem o dia 20 de novembro é importante, sim, mas coloca os ativistas num lugar de cobrança social, de formadores do pensamento das demais pessoas.

“É um dia de resistência, mas é um dia de dor. É quando celebramos os direitos que já conquistamos e lutamos pelos que ainda precisam ser adquiridos. Este lugar de resistência é duro, pode ser adoecedor”, complementa a escritora e educadora Odailta Alves, que trabalha a temática negra em suas produções, tentando com outras escritoras “furar as bolhas que existem na acessibilidade da mulher negra aos espaços literários”.

Para muitos, o Dia da Consciência acaba se tornando um pouco o da Paciência Negra, que, por vezes, reforça estereótipos e dilui sua importância dentro da exploração midiática. “A mídia se apropria das pautas dos movimentos sociais, e isso é muito perigoso”, lamenta o músico Amaro Freitas, destaque mundial no jazz instrumental. “Minha preocupação é até que ponto essa ‘consciência negra’ que aparece no jornal representa, de fato, a população negra. Às vezes, eu sinto que não”, afirma.

“Minha arte é uma forma de militância, um instrumento político de transformação social, mas não gosto de ver que o mercado, por vezes, me limita a esse lugar de fala. Eu sou, sim, uma poeta negra que faz literatura negra, mas os brancos precisam descolonizar seu olhar e deixar de ver a gente como objeto”, diz Luna Vitrolira. Para o ator e bailarino Orun Santana, a celebração da negritude é um ato político e deveria acontecer o ano inteiro. “O dia da Consciência Negra não é necessariamente de celebração. Deveria servir para manter vivas, na memória, as questões de poder que atravessam nossos corpos negros”, avalia.
Odailta Alves ressalta o grande simbolismo de Pernambuco quando se fala no Dia da Consciência Negra. “A cabeça de Zumbi dos Palmares foi exposta na Praça do Carmo, no centro do Recife. Ainda temos o sangue desse herói derramado ali, o sangue do povo preto escorre dos casarões do Recife, dessa arquitetura que se consagra como europeia, mas foi construída pelos negros”, pontua.

O artista plástico Derlon, que atualmente vive em São Paulo, concorda que Pernambuco deveria valorizar mais o dia 20 de novembro. “Foi onde mataram Zumbi, não é? Devia ser um momento de maior conscientização. Ainda há barreiras gigantescas enraizadas na sociedade, e todo gesto em prol da conscientização vale ouro”, avalia.

Criticado por alguns por não retratar muitos negros em sua obra, que tem forte influência das xilogravuras e da cultura do interior do Nordeste, Derlon, nos últimos tempos, desenvolveu técnicas para caracterizar os negros. Ele conta, feliz, que um dos últimos desenhos retrata Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil, e que, em breve, fará sereias negras. “Não fazia sentido, já que sou negro, como mais da metade da população do País”, afirma.
Instrumento de mudança

Enquanto artistas, eles sentem a responsabilidade de “salvar” as pessoas da dureza da realidade e, ao mesmo tempo, promover a reflexão. “Meu papel enquanto artista negro é levar ao regozijo, à alegria, e também fazer pensar”, explica Orun. A dificuldade, às vezes, passa pelo fato de que o público negro não tem acesso a essas produções.

É o que lamenta Amaro Freitas, que conseguiu levar seu talento para um segmento extremamente elitista, apesar de sua raiz inegavelmente africana. “No mundo todo, os espaços do jazz foram embranquecidos. A maioria dos seguranças são negros, mas o público é branco, e isso aconteceu em cima de um processo que mudou a estrutura musical do jazz, após o mercado perceber o enorme retorno financeiro desse gênero”, relata.

Amaro trabalha num segmento quase improvável em Pernambuco: toca piano instrumental, quando muitos lhe diziam que não dava para viver disso e que negros deveriam se dedicar à percussão. Ele relembra a semana em que tocou na Suíça, no Montreaux Jazz Festival, um dos maiores do mundo; em São Paulo, no Sesc Consolação; e no Lincoln Center, no Dizzy’s Club, em Nova Iorque, o grande templo do jazz. E sonha em poder trazer sua experiência para as periferias da Região Metropolitana do Recife, dando a chance de crianças e adolescentes das comunidades terem acesso ao piano e a outros instrumentos musicais.
A cantora Isaar também tem o projeto de intensificar cada vez mais sua atuação nas periferias. “Preciso de público negro nos meus shows”, confessa. Ela conta que essa ausência sempre a incomodou, ao olhar de cima dos palcos. “Dói observar a plateia e ver que é quase toda branca”, explica. Neste mês de novembro, ela realizou shows no Ibura e em Peixinhos, e não esconde sua felicidade. “Entendo essa representatividade como uma coisa importante, que fortalece a questão da autoestima das pessoas. As crianças ficaram encantadas. Eu não esqueço o show que fiz na Bomba do Hemetério, no Carnaval, e uma moça veio falar comigo, contar que foi a primeira vez que viu uma negra igual a ela lá em cima, no palco”, relata.

Para Isaar, seu trabalho também tem a função de “tentar construir mais consciências negras voltadas para mudar uma sociedade que ainda está sentindo dores que não sabe explicar”. “Eu fui crescendo sem essa consciência, que só surgiu com a maturidade. Entrei na universidade antes de existirem as cotas e, por algum tempo, fui contra elas. Engolia esse papo de que a escravidão já acabou e que o processo seletivo deveria ser igual para todos. Hoje enxergo como essas ações afirmativas são necessárias e me orgulho dessa geração de negros mais conscientes que há 30 anos. Temos uma juventude mais atenta e isso não veio do nada, é fruto da luta pelos direitos dos negros”, conclui.
Nascidos e criados em bairros da periferia, o cantor e guitarrista Cannibal, da banda Devotos, e o bailarino Orun Santana não deixam o Alto José do Pinho e Chão de Estrelas saírem de suas vidas. “Chão de Estrelas é meu lugar de nascimento, onde alimento minha prática. Foi no Daruê Malungo que aprendi percussão, dança e capoeira, fundamentais para eu entender os jogos, as relações da sociedade. Desde criança, como negro, eu luto contra e a favor de questões que têm diretamente a ver com isso”, afirma Orun, que explica que, aonde vai, a negritude vem em primeiro lugar, por conta da sua construção identitária e do racismo entranhado nas pessoas.

Já Cannibal se orgulha de ter conseguido mudar um pouco a postura dos “de fora” em relação ao Alto José do Pinho. “Conseguimos dar orgulho à população daqui”, conta. “Eu sou de uma comunidade que até meados dos anos 1980 era malvista, ninguém dizia que morava aqui e sim em Casa Amarela. Era uma comunidade que sempre teve cultura, é o berço do Maracatu Estrela Brilhante, do afoxé Ilê D’Egbá, das escolas Gigantes do Samba e Galeria do Ritmo. Mesmo assim, a imprensa sensacionalista só falava nos crimes, no lado ruim. Quando as bandas surgiram e fizeram sucesso, começaram a se interessar pelo que a gente tinha de bom”, relata.

Cannibal faz questão de seguir morando no bairro e diz que essas mudanças serviram de espelho para outras comunidades. E se emociona ao lembrar o episódio em que, desempregado e com uma filha recém-nascida, foi pressionado por um chefe a cortar seus cabelos, numa clara demonstração de preconceito em relação à estética afro. Ele não cortou seus dreadlocks, que se tornaram sua marca registrada. “Hoje penso que se tivesse feito o que aquele cara queria, não teria minha banda, nem viajado por oito países, nem mudado o quadro social de minha comunidade. E não estaria aqui, dando entrevista para você”, resume.

 

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