Coordenadora de igualdade racial em S. Vicente fala de ‘abolição inacabada’

Alessandra Franco chefia o Coppir e falou dos desafios do órgão na região.
São Vicente apresenta o maior número de homicídios de jovens negros.

Por: Mariane Rossi, no, G1

“Tivemos uma abolição incompleta”. A frase é de Alessandra Franco, responsável pela Coordenadoria Municipal de Políticas de Promoção da Igualdade Racial de São Vicente (COPPIRSV), cidade que possui a maior população negra da Baixada Santista de acordo com o censo de 2010. A cidade também é a que apresenta o maior número de homicídios de jovens negros na região, acima da média estadual, segundo o Mapa da Violência.

Em entrevista ao G1, Alessandra revelou que sempre foi vítima de racismo, desde a infância até os dias de hoje, por ser negra e mulher. Mas, que agora, conhece os caminhos para garantir seus direitos e também trabalhar para garantir a questão da promoção e igualdade racial.

Alessandra conversou com o G1 sobre os desafios que encontra para implantar políticas públicas na cidade e promover os negros em vários âmbitos. Ela quer construir um Centro de Referência de Atendimento às Vítimas de Racismo e ao Pós-Socioeducativo para dar mais assistência, atendimento e mais oportunidades para a população negra de São Vicente. Confira a entrevista:

G1: Os dados do IBGE, de 2010, mostram que São Vicente tem a maior população negra da Baixada Santista. Ainda é assim?
Alessandra: Sim. Dos nove municípios da Baixada, 47% da população de São Vicente se declarou preta ou parda. Em números absolutos realmente é a maior população.

G1: São Vicente tem o maior número de homicídios de jovens negros na região, um índice acima do estadual. Como você trata essa realidade?
Alessandra: No Estado, 36% é de população negra. Na Baixada Santista o número é maior. A gente fala que a violência tem um raio-x, tem uma identidade. O último Mapa da Violência apresentou que, dos homicídios dos jovens na faixa etária dos 15 aos 29 anos, 76% são negros. Em São Vicente, dentro dos nove municípios, os últimos indicadores estão decrescentes. Nós estamos acompanhando. Fomos o primeiro município do Brasil a aderir voluntariamente ao programa federal chamado Juventude Viva, buscando implementar essas políticas públicas necessárias para combater essa questão da violência.

G1: Por que você acredita que São Vicente apresenta esses números?
Alessandra: São Vicente é a cidade com o maior número de negros. Há um ano, o prefeito Luis Claudio Bili criou essa coordenadoria, que é vinculada direto ao gabinete, justamente porque detectou a necessidade de uma política diferente. É preciso uma política pública para tornar São Vicente desenvolvida. Em São Vicente, existe uma grande área de bolsões de miséria que podemos falar que é formada por uma população de classe C e D. Isso está relacionado a condição social e com o recorte étnico. São Vicente vem diminuindo esses números de violência. Não vou dizer que são números pequenos. Estamos com várias políticas para combater e enfrentar as questões do mapa da violência. Na Baixada Santista temos apenas quatro coordenadorias, em São Vicente, Santos, Cubatão e Guarujá. O ideal seria que os nove municípios se preocupassem com essa questão. Se você pensar em um Brasil desenvolvido, onde 53% da sua população é negra, existe a necessidade de inserir essa população de fato. Se você não inserir não terá um país desenvolvido. O Brasil é o segundo país fora do continente africano com mais população negra.

G1: Você acredita que haja uma crescente seletividade das pessoas que serão assassinadas por conta da questão racial?
Alessandra: Temos um caso de repercussão nacional que foi a Claudia, uma mãe que saiu em um domingo de manhã para comprar pão para os filhos e foi brutalmente assassinada. Só ficamos sabendo disso porque ela foi arrastada pelo carro de polícia. Infelizmente, a gente necessita de uma reciclagem da nossa policia, tanto civil quanto militar. A gente sabe que acontecem muitos homicídios por causa da aparência. Em São José do Rio Preto, saiu uma pesquisa sobre o tipo das pessoas suspeitas, que é o negro. A gente tenta combater isso porque qualquer um pode ser suspeito.

G1: São Vicente aderiu ao programa Juventude Viva no ano passado. Quais são as ações do programa que estão sendo feitas na cidade?
Alessandra: O plano é com vários ministérios, no âmbito federal. Há necessidade de política na saúde, no emprego, geração de renda, educação, na cultura. O Juventude Viva são 11 ministérios que estão interligados para uma política publica de combater e enfrentar esse genocídio que vem acontecendo entre a juventude. Em São Vicente, também foi criada uma Coordenadoria da Juventude. Nós estamos articulando e promovendo um grande encontro com a juventude do município, com a sociedade civil organizada para que a gente possa efetivamente ter os nossos articuladores nesses territórios, ter um diagnóstico inicial. Sabemos hoje os bairros pontuais que tem um grande número de casos de violência. Agora temos que aplicar a cultura da não-violência.

G1: Já está sendo feito esse diagnóstico?
Alessandra: Já temos um pré-diagnóstico. Isso está dentro das ações do Juventude Viva e das ações da Coordenadoria. Quando se fala do desenvolvimento da Baixada Santista, tem a câmara temática de Promoção de Igualdade Racial dentro do Condesb. Lá, também está sendo feito um diagnóstico da Baixada Santista, como um todo, para que a gente possa ter as políticas implantadas. Não adianta eu fazer uma ação na orla de São Vicente porque eu não vou atingir o público alvo. Sabemos que na área insular, na Vila Margarida, é onde temos um índice muito alto de violência. É necessária uma política pública neste bairro. Sabemos que a área continental tem um alto número de violência.

G1: O programa Juventude Viva já deu resultados?
Alessandra: Estamos em uma fase de sensibilização e conscientização. A gente já vê uma diminuição. Fizemos um grande convênio de cooperação técnica com a Fundação Casa. Cerca de 86% dos jovens são negros e 95% são meninos. Nós fazemos um acordo justamente com a Fundação Casa pensando no pós socioeducativo, como ele vai ser atendido, como vai ser inserido novamente para que ele não se torne um reincidente e o presidiário do amanhã. Criamos um grande projeto que se chama Centro de Referência de Atendimento às Vitimas de Racismo e ao Pós Socioeducativo. Dentro desse centro de referência a gente não vai só fazer o atendimento de orientação às vítimas. A gente vai acolher. Precisa fazer os encaminhamentos, fazer com que a rede funcione, com a assistência social, a Fundação Casa, com o poder judiciário. Esse centro não tem sede. Estamos na fase de buscar recursos para que ele possa vir a ser físico.

G1:  A gente tem visto muitos casos de preconceito racial na internet e nos estádios de futebol. Os casos tem aumentado por conta das redes sociais?
Alessandra:  Ele nunca deixou de existir. Os mecanismos que temos hoje, a velocidade da informação, põe isso à tona. Isso sempre existiu, porém, não havia espaço para divulgação.
Nós tivemos um grande problema antes da Copa. A Fifa lançou uma campanha de combate ao racismo a nível internacional. Sabemos que não é só nos nossos gramados, é no âmbito mundial.

G1: Qual é o maior desafio na questão racial em São Vicente?
Alessandra: O maior desafio é buscar os recursos para que a gente tenha esse equipamento dentro do município. Sem um equipamento para efetivamente implementar essas políticas, fica difícil.

G1: O maior problema, em relação aos negros em São Vicente, é a violência?
Alessandra: Eu acredito que é a oportunidade. Você tem a base da pirâmide social. Vivemos uma abolição inacabada. Essa população libertada não consegue ascender em decorrência desse racismo, de todas as formas. Você necessita de políticas. Quando você fala de geração de renda, de oportunidade de estudo, você faz uma grande transformação nessa população. Se ela tiver acesso à educação e ao emprego, você já tem um grande divisor de águas. Ela vai conseguir ascender socialmente e, a partir daí, eu acredito que diminuirá a violência, a questão da segurança pública.

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