sexta-feira, setembro 30, 2022
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Cultura: como Batuku e Cordel destacam a participação de mulheres e jovens

O batuku de Cabo Verde e o cordel do Brasil carregam traços semelhantes e a presença das mulheres e dos jovens nos nesses dois ambientes são de grande peso

Cada país possui suas próprias expressões culturais. O cordel no Nordeste brasileiro e o batuku na Ilha de Santiago em Cabo Verde contam histórias através de seus ritmos, expressando as ideias de um povo. As mulheres possuem um papel interessante nas duas expressões, simbolizam força e resistência, mas o contexto se dá de forma totalmente diferente. A participação dos jovens também remete a força dessas manifestações, são essenciais para que continuem existindo.


Buscamos compreender em entrevistas a importância das rimas que essas expressões culturais transmitem, enfatizando os papéis das mulheres e dos produtores mirins.


A literatura de cordel
O cordel surgiu no século XVI na Europa e chegou ao Brasil no século 17, com a chegada dos colonizadores portugueses. A região Nordeste é a que mais se utiliza desse gênero literário, que se popularizou entre as décadas de 30 e 60. Tendo começado inicialmente apenas em forma oral, a qual os cordelistas recitavam suas produções com apoio somente de sua memória.


No final do século XIX, temos uma mudança com a dimensão da escrita, os cordéis passaram a ser impressos e também ganharam o gosto de escritores pela forma prática e simples de ser feita: o próprio autor poderia, sozinho, escrever, fazer a capa e comercializar.


Esse estilo de literatura permite que a escrita seja mais livre e desprendida das normas formais da gramática portuguesa, sendo caracterizado pela linguagem composta por traços de oralidade, com rimas que produzem certa musicalidade aos versos. Ele também é bastante reconhecido pelos folhetos pendurados em varais, fáceis de encontrar em feiras de artesanato, bem como a utilização das xilogravuras (que são figuras gravadas na madeira) como forma de ilustração.

Cordéis pendurados-Foto: Acervo Iphan-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

O cordel é uma expressão cultural e artística que usa a prática e experiência de homens e mulheres com as rimas, para expor opiniões e críticas contra os sistemas de opressão sociocultural, falar das desigualdades sociais, segregação, racismo, preconceito e dentre outras questões sociais. Além de, claro, muitas outras temáticas, como por exemplo, voltadas para a cultura popular e folclórica regional.

O batuku
Batuku em crioulo (língua regional de Cabo Verde) ou batuque em português é um gênero musical que faz parte da cultura cabo-verdiana, registrada desde o tempo da colonização no arquipélago de 10 ilhas. Formado quase sempre por um grupo de mulheres, conhecidas como “batucadeiras”, que, sentadas, cantam e tocam no que podemos dizer um “pequeno tambor”. Há uma solista que dá início ao batuku e uma batucadeira que fica de pé para dar o ritmo da música, como é o caso do Grupo Tradison de Terra

Infográfico sobre a popularidade do Batuku em Cabo Verde—Dados Ilustrativos – Produzido pela equipe de reportagem

Atualmente, o batuku é bastante valorizado por seu país de origem, sendo considerado como patrimônio de Cabo Verde, com forte presença na ilha de Santiago, maior ilha do arquipélago.

Infográfico sobre a popularidade do Batuku em Cabo Verde—Dados Ilustrativos – Produzido pela equipe de reportagem

Em texto publicado na página Buala, Redy Wilson Lima salienta que as músicas de protesto tiveram um papel central na difusão dos ideais da libertação de Cabo Verde. O batuku era uma dessas expressões e funcionava como um instrumento de resistência ao domínio português, antes da libertação nacional. Redy Wilson Lima ainda afirma que:

“procura consciencializar para a vivência sociocultural da comunidade com a finalidade de esclarecer e reforçar a vida comunitária, estimulando a solidariedade social, reforçando a coesão social e resistindo culturalmente”.

As mulheres no Cordel e no Batuku
Para as mulheres cabo-verdianas, a prática do batuku tem um significado importante, em que avós, mães, filhas e netas são criadas enquanto mulheres, através da prática do batuku e das experiências compartilhadas.


Embora nem sempre passada de geração em geração, elas aprendem observando outras mulheres e convivendo diariamente com essa manifestação cultural, a qual é muito natural para elas, pois esse é um espaço em que essas mulheres compartilham experiências, cuidam umas das outras e fazem disso um meio de unir forças para enfrentarem problemas, recriar e aperfeiçoarem cada vez mais, diferentes formas de expressão.


Para Teresa Fernandes, representante do Grupo Tradison di Terra, as mensagens que o batuku sempre trazem é daquilo que está mal para ser trabalhado, daquilo que está bem para ser melhorado ainda mais. Clique aqui para acompanhar o áudio da entrevistada, Teresa respondeu em crioulo (língua originária do Arquipélago de Cabo Verde) e a repórter Anilza Rocha realizou a tradução para português.

Teresa Fernandes, representante do Grupo Tradison di Terra— Foto: arquivo pessoal

Em contraponto com as estrondosas vozes femininas dentro da arte do batuku, no cordel, o que ecoou até pouco tempo atrás foi o silêncio. No batuku as mulheres têm um protagonismo maior, pois é a voz delas que dá forma a essa manifestação cultural, sendo uma expressão tradicionalmente feminina, que fizeram grandes nomes como Nha Nácia Gomi e Nha Bibinha Cabral.


Já no cordel, assim como em outros gêneros literários, as mulheres pioneiras foram menosprezadas e desencorajadas. Na escrita, quando o cordel passou a ser impresso, as mulheres tiveram que usar pseudônimos masculinos para publicar suas obras, como o exemplo da paraibana Maria das Neves Baptista Pimentel, que foi a primeira mulher a publicar um cordel com o nome de um homem, se identificando como Altino de Alencar Pimentel, sob o título “O violino do diabo ou o valor da honestidade”. A escritora publicou pelo menos três cordéis, assinando como homem.


A professora Francisca Pereira, mais conhecida como Fanka, poetisa e especialista em literatura brasileira, nos contou a respeito da história de Maria das Neves Pimentel, clique aqui para ouvir o áudio na íntegra.


Paulo Ernesto, que é membro da Associação de Cordelistas do Crato, conta que Leandro Gomes de Barros, um grande editor de cordel, teve boa parte de sua literatura feita por mulheres, mais especificamente pelas filhas dele. Mas se elas escreveram, por que o nome delas não estava na autoria? “A explicação é que naquela época as mulheres não eram valorizadas, ninguém acreditava que mulher pudesse escrever poesia. E mesmo que elas assim fizessem, não vendia”, explicou Paulo.


Apesar disso, Paulo Ernesto ainda nos conta que as mulheres tinham um papel muito importante na divulgação do cordel no séc. XIX. Eram elas que mais aprendiam a ler e a escrever, em comparação aos homens, e, dessa forma, na maioria dos casos eram as mulheres que escreviam o que era dito pelos violeiros e poetas. Assim o material poderia chegar a mais pessoas, já que não tinha gravador acessível na época. Clique aqui e acompanhe o áudio de Paulo Ernesto sobre o assunto.

Professora Francisca Pereira- Foto: acervo pessoal

O silenciamento das mulheres enquanto produtoras intelectuais e culturais é muito comum em uma sociedade patriarcal, e não foi diferente no Brasil. A professora Fanka, afirma que não encontrou nenhuma menção das mulheres quanto à escrita nesse gênero literário quando começou sua pesquisa sobre o cordel, por volta dos anos 90.


“As mulheres não eram citadas, e a partir daí surgiu meu tema, onde eu quis trazer essas vozes, também esquecidas, na historiografia oficial, trazendo as mulheres nessa história, desde as cantadoras, as repentistas, e todas as outras que a gente conseguiu resgatar através de breves citações em livros de folcloristas ou mesmo de poetas que cantaram com algumas dessas”.


Segundo Fanka, em todo tipo de arte é encontrado preconceito, mas isso não impossibilitou que as mulheres escrevessem. Ao longo de quase vinte anos de pesquisa, foram encontradas mais de 200 mulheres que fizeram esse tipo de literatura, em todo o país. A catalogação desse registro resultou no livro chamado “O livro delas: autoria feminina no cordel, cantoria e gravura”, lançado neste ano de 2021.

Cordelista Anilda-Foto: arquivo pessoal

Trazendo para o contexto atual, a cordelista Maria Anilda de Figueiredo, que começou a escrever cordel ainda pequena por influência da avó, carrega muito orgulho de poder repercutir esta prática, e afirma: “quando chego em vez de me identificar como advogada, funcionária do Banco do Brasil, como filha de fulano, seu Antônio Bento e Dona Maroli, como esposa de não sei quem, como mãe das minhas filhas, eu me identifico como cordelista e sou muito bem aceita”.


A cordelista relata que, quando foi fundada a Academia do Cordelista do Crato, contava com dez poetas homens e apenas duas mulheres, mas que hoje as coisas evoluíram e trazem um quadro mais equalizado de membros. Atualmente a academia conta com 9 poetas e 11 poetisas. Anilda ressalta:

“Homem e mulher, estão aí para escrever o que quiserem e o cordel é para todos […] todo mundo escreve, todo mundo lê”.

Acompanhe o áudio da entrevista com Anilda na íntegra, ela foi entrevistada pela repórter Luana Torres e até nos deu uma despedida muito saudosa, clique aqui para conferir.

No Cordel
Como toda manifestação cultural, a literatura de cordel e o batuku precisam de novos praticantes para continuar viva. O cordel pode proporcionar aos jovens uma nova forma de enxergar o mundo à sua volta, perceber a cultura no dia a dia, expressar seus pensamentos e reflexões sociais, entre outros. Da mesma forma, a prática do batuku é uma maneira de perpetuar a cultura cabo-verdiana, continuar com um legado que vem desde o período da colonização e que é tão importante para a história do seu povo, especialmente as mulheres.


Aqui no Brasil, Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré, foi um dos maiores nomes da poesia nordestina. Seu neto, Daniel Gonçalves da Silva, que também é cordelista, comenta que o avô entrou no cordel ainda criança, quando percebeu o talento para a poesia. Para dar continuidade ao legado de Patativa, Daniel começou a escrever as primeiras rimas quando tinha 8 anos de idade, numa parte inspirado pelo avô e em outra, movido pela curiosidade. Hoje, aos 35 anos, o cordelista e poeta que já escreveu grandes obras e participa de festivais em todo o país conta que a inclusão de jovens cordelistas é mais que importante, sendo imprescindível para preencher a lacuna que existe no cordel. “O cordel tem feito uma inclusão muito boa de jovens, mas ainda é um número não significativo. Precisaria ter mais jovens”, explica Daniel.

Clique aqui e acompanhe um pouco mais da fala de Daniel.

A produção dos jovens é essencial para que o cordel possa continuar repercutindo. O poeta Daniel recitou alguns versos de cordel sobre este assunto, clique aqui e confira!


Não são muitos os jovens conhecidos por escrever este tipo de literatura, e essa ausência não significa o fim do cordel, mas dificulta a entrada de novos cordelistas numa das mais antigas expressões culturais do Cariri e da região Nordeste. Segundo Fanka, o discurso da cultura popular é por vezes tido como algo primitivo, rústico, simples, dentre outros adjetivos que acabam por diminuir a sua importância. A partir disso, o folheto de cordel foi colocado como uma “coisa do passado”, o que desestimula e afasta a juventude como um todo.


Dado o fato da falta de incentivo e reconhecimento desses jovens talentos, é preciso que medidas sejam tomadas para reverter a situação. Uma delas, segundo o poeta Daniel, seria uma maior inclusão do cordel na mídia, que, embora já exista, ainda é pequena, o que expressa a necessidade de pautar mais cordelistas. Um exemplo bem conhecido na contemporaneidade é o poeta Braúlio Bessa, que ficou famoso através de suas participações no programa Encontro, da jornalista Fátima Bernardes, da Rede Globo.

Daniel Almeida, neto de Patativa— Foto: arquivo pessoal


A escola tem um papel fundamental para a continuidade do cordel, já que ela constitui um dos principais, senão o principal, espaço de contato dos jovens com esse tipo de literatura. Ouça o que a professora Fanka tem a dizer sobre isso.


Daniel nos conta que o cordel é essencial por abranger diversas temáticas, clique aqui para acompanhar na íntegra. Esse fator acaba dando mais peso para a importância do cordel na escola.


De acordo com uma pesquisa realizada pela equipe de reportagem, dentre um total de 24 jovens entre 18 e 25 anos, 83,3% responderam que tiveram seu contato inicial com o cordel em âmbito escolar, comprovando que esse espaço deve ser usado como ponte e que a partir dele novos talentos da literatura apareçam. Confira os outros dados coletados na pesquisa:

Infográfico sobre o cordel na UFCA-Produzido pela equipe de reportagem

Para a jovem Sabrina Ferreira, de 17 anos, a literatura de cordel é uma forma de expressar suas emoções e também um lugar de superação. Sua história com o cordel deu início em 2018, após ela perder o irmão que na época tinha 1 ano de idade. “Eu fiquei com começo de depressão, então procurei me refugiar em algo que poderia me fazer sentir melhor, foi aí que eu descobri o cordel e comecei a transpassar os meus sentimentos para o papel. Desde esse dia me apaixonei pela literatura de cordel e a poesia”, conta.


Ainda segundo Sabrina, que recentemente concluiu o Ensino Médio, a cada projeto que podia encaixavam com a literatura de cordel, já que era uma área reconhecida no cotidiano da jovem. O principal incentivo veio de sua professora de artes, Priscila, que a apoiava em suas obras.

No Batuku
O professor de dança do Grupo DanFala Dance, Lonny Alves, afirma, em entrevista, que o batuku não tem a mesma força de antes e principalmente não tem a mesma participação ativa dos jovens como se fazia antigamente.

Ex-professor de dança do Grupo DanFala Dance Lonny Alves— Foto: acervo pessoal

“Hoje os jovens, na maior parte, se desligaram dessa herança deixada pelos nossos antepassados. É claro que, por estarmos no mundo onde as culturas se misturam, acabamos absorvendo mais a cultura externa”, completou.


Loony considerou que é preciso promover esta dança, através de palestras culturais e atividades frequentes, que poderão ajudar a “despertar o interesse dos jovens”, clique aqui e acompanhe o áudio do entrevistado na íntegra.


No que tange a questão da discriminação, Teresa Fernandes, que ganhou este ano o prêmio da Melhor Música Tradicional, informou não existir discriminação por parte dos jovens.


“Não, não há. Porque o batuku marcou muito o tempo da escravatura e eles estudam isso nas escolas”, afirmou.


Esta batukadeira terminou a entrevista ressaltando que o batuku é a identidade de Cabo Verde.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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