Datafolha: 90% querem que professores discutam discriminação racial

Em escolas particulares, debate acontece com pouca presença de alunos e professores pretos e pardos

Nove em cada dez brasileiros concordam que a discriminação racial deve ser discutida pelos professores, segundo pesquisa Datafolha. No entanto, em muitas escolas, em especial da rede privada, esse debate é feito quase sem a presença de alunos e professores negros, em um país onde pretos e pardos são a maioria da população.

Kauany e Pedro são irmãos e estudam numa escola particular em Santa Fé do Sul, interior de São Paulo. Kauany, 14, é negra e sua turma de 9º ano tem três outros alunos negros. Pedro, 11, é branco e na sua turma de 6º ano tem 31 colegas brancos. Ambos têm apenas um professor negro.

Sidmar, 45, pai da Kauany e do Pedro, fez questão de colocar os filhos na rede privada para que eles pudessem ter, segundo ele, a melhor educação.

July Barbosa, 41, moradora da região metropolitana de Belo Horizonte, é mãe de três garotos negros e, como Sidmar, recorreu à rede privada, embora reconheça a escassez de diversidade na escola.

Os colégios onde essas crianças estudam não são exceções. Das 20 instituições de ensino mais bem colocadas no Enem de 2019, 19 eram escolas da rede particular.

Foto: Reprodução/ Folha de S. Paulo

Segundo o Gemaa (Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, apenas três escolas registraram 20% ou mais de alunos negros, e duas delas não registraram nenhum aluno preto ou pardo.

Para o Gemaa, embora as escolas não sejam obrigadas a coletar esses dados, a falta de informações consistentes refletiria o descaso com a temática racial. A Folha entrou em contato com a Abepar (Associação Brasileira de Escolas Particulares), mas não obteve retorno da instituição.

Com 13 anos, o filho de July está no 8º ano e diz que nunca sofreu racismo porque ele é “muito na dele”, mas admite que os outros colegas negros, às vezes, são chamados de macaco. Ele acha que isso é errado. “A gente não é animal.”

Kauany também diz nunca ter sofrido racismo na escola, mas já ouviu colegas dizerem coisas como “cala a boca, seu preto” para um aluno negro — o que a deixa muito chateada. A menina, que nasceu em Belém, diz também que, às vezes, é chamada de pernambucana devido ao seu sotaque.

Para Eneida Martins Gonçalves, psicóloga especializada em saúde da população negra, a falta de representatividade e o modo como negros são retratados, sempre associados à escravidão e à marginalidade, reforçam a sensação de não pertencimento.

Wilson Crescencio Antônio, 58, professor de artes e comunicação numa escola particular de Pirassununga, interior de São Paulo, diz que a presença dele e de outros professores negros funciona como antídoto para a sensação de solidão dos poucos alunos negros que passam pelo colégio.

O filho de July tem dois professores negros. Os outros alunos não gostam muito de um deles, o de matemática, mas ele é um dos favoritos do garoto por ser o único que o usa como exemplo nos exercícios.

Em 2020, após o episódio envolvendo o assassinato do americano George Floyd, comunidades de pais de alunos organizaram movimentos em busca de maior diversidade racial em escolas particulares. Um deles foi fundado por Evie Barreto Santiago, 49.

Ela é negra e, ao perceber que o colégio onde seu filho estuda, em São Paulo, não se posicionava de modo satisfatório contra o racismo, reuniu-se com outros pais para questionar a postura da escola.

“Se tivesse mais pessoas negras, penso que poderia melhorar o preconceito. Não parar de existir, mas diminuir um pouco”

Kauany, 14
Estudante negra do 9ª ano de uma escola particular no interior de São Paulo

Desde então, ela diz que a instituição destinou bolsas integrais para alunos negros, aumentou a diversidade do corpo docente e começou a repensar o currículo escolar para garantir a aplicabilidade da lei de ensino sobre história e cultura afro-brasileira em todas as matérias.

“Nunca parei pra pensar nisso, mas agora acho que poderia ter mais pessoas negras na escola. Até mesmo diretores” diz a menina Kauany. “Se tivesse mais pessoas negras, penso que poderia melhorar o preconceito. Não parar de existir, mas diminuir um pouco.”

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