segunda-feira, setembro 20, 2021
InícioÁreas de AtuaçãoEducaçãoDia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha: “É necessária uma intencionalidade da...

Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha: “É necessária uma intencionalidade da política de educação para a redução das desigualdades

Em entrevista para o Instituto Unibanco, Suelaine Carneiro fala sobre os desafios na criação de políticas públicas mais inclusivas

Criado em 1992 no 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas na República Dominicana, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha nasceu para trazer visibilidade para as mulheres negras contra as opressões de raça e gênero. No Brasil, por meio da Lei n° 12.987/2014, a data também veio para homenagear a líder quilombola Tereza de Benguela, um dos maiores símbolos da resistência do povo preto no País.

Em meio a uma pandemia mundial, a celebração que percorre todo o mês de julho ganhou uma nova perspectiva, afinal, os desafios enfrentados pelas mulheres negras no Brasil foram ampliados, especialmente para as meninas negras em idade escolar. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD – Covid-19), dos 6,4 milhões de estudantes que não tiveram acesso às atividades escolares no Brasil em setembro de 2020, 4,3 milhões eram negros e indígenas da rede pública, quase o triplo do número de estudantes brancos (1,5 milhão).

Para a coordenadora da área de Educação e Pesquisa do Geledés Instituto da Mulher NegraSuelaine Carneiro, a falta acesso aos materiais foi um dos fatores que dificultou a permanência das meninas negras nas escolas e contribuiu para o aprofundamento das desigualdades no País no período. As políticas públicas que buscavam garantir o processo de escolarização na pandemia focaram nas plataformas de conectividade. No entanto, segundo a pesquisa A Educação de Meninas Negras em Tempos de Pandemia: O aprofundamento das desigualdades realizada em São Paulo pelo Geledés, o principal acesso ao material escolar foi o formato impresso, retirado na escola pelas famílias ou enviado pelos correios.

“O celular não é um meio acessível. Então, quando as políticas públicas foram pensadas, o foco foi na maneira mais fácil para o poder público disseminar o conteúdo e não na forma como ele seria acessado pelo estudante”, afirmou.

E essa foi apenas uma das dificuldades enfrentadas, outro fator é a renda. Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2020, as famílias negras são as que possuem os salários mais baixos e são também a maior parcela (77,8%) das pessoas em extrema pobreza no Brasil.

A vice-presidente explica que essa situação levanta também problemáticas relacionadas às questões de gênero que buscam reafirmar as posições dos homens e mulheres na sociedade e afastam jovens negros da escola, ao forçar os meninos negros a saírem para trabalhar mais cedo e as meninas negras a trabalharem em casa.

Nesse processo, Suelaine afirma que a importância da escolarização fica evidenciada, pois ela é fundamental para meninas negras alcançarem melhores rendas.

O mesmo não acontece para homens brancos ou negros, pois mesmo com uma escolarização menor, eles conseguem ter uma renda mais alta que as mulheres negras, o que reforça a dupla situação de violência vivenciada pelas mulheres negras em relação à raça e gênero, em uma somatória de desvantagens.

Para a socióloga, os grupos vulnerabilizados sabem do valor da educação.

“A nossa sociedade é uma sociedade de privilégios em que a meritocracia tem cor e relações”, afirma.

Ela explica que as imensas dificuldades presentes na vida das meninas negras impõem uma situação em que é necessário o dobro do esforço para alcançar o mínimo.

Para ela, “mais do que uma sociedade que não dá valor à educação, nós somos uma sociedade que destrói sonhos”, afirma.

Dessa maneira, Suelaine destaca a necessidade de políticas públicas para o real enfrentamento do racismo e de questões de gênero. Para a especialista, as políticas públicas existem, mas não são desenhadas a partir da base, ou seja, de quem depende delas, excluindo deliberadamente uma grande parcela da sociedade.

Assim, para que o desenho das políticas públicas que seja mais inclusivo “é necessária uma intencionalidade de mudança, de compromisso com a educação e com a redução das desigualdades e, principalmente, para compreender que a educação é um caminho, não é o único, mas é importante para ampliar os horizontes dessa população”, salientou.

Dentro do ambiente escolar, a especialista pontua que é necessário valorizar as contribuições negras. Ela afirma que tanto os professores e professoras, quanto a direção, precisam ir além do processo de escravização e compreender a população negra como sujeitos de direitos que contribuíram e conseguiram ressignificar o seu lugar na sociedade.

Para ela, é essencial que profissionais da educação busquem uma história do Brasil que valorize a participação negra, que reconheçam o processo de escravização dentro do crime contra a humanidade que foi e que enxerguem o processo das conquistas negras, desde a abolição até os dias de hoje, como ações de reparação e integrem em seu cotidiano do fazer pedagógico a resistência negra, as contribuições, a literatura e a cultura negra.

Suelaine pontua que só assim tudo que foi produzido pelo povo preto na literatura e na cultura conseguirá fazer parte do espaço escolar, na formação e na valorização de todos os grupos raciais brasileiros.

“Ao enfrentar o racismo, ao contribuir para a redução desses dados de desigualdade na educação em que você consiga manter o estudante negro na escola, você também está construindo uma nova sociedade”, afirmou.

Suelaine vê a situação atual de forma crítica, mas otimista.

“Eu acredito que a gente ampliou as nossas fileiras no que diz respeito aos direitos da população negra e das mulheres, mas é cada vez mais violento e cada vez mais temos que incorporar e ampliar as nossas lutas, para que os movimentos dialoguem, façam acordos, expandam as pautas”, disse.

Por outro lado, ela conta que cada vez mais cedo as meninas negras estão trilhando um caminho na afirmação de sua identidade racial e isso é muito importante para ampliar os horizontes, desafiar convenções, reestruturar a sociedade e criar memória.

Para a socióloga, estudos como o realizado pelo Geledés sobre a educação de meninas negras na pandemia possuem, portanto, uma grande importância, pois eles constroem evidências desse período e trazem insumos para que seja possível exigir políticas públicas que atendam as mulheres negras latino-americanas e outras populações em situação de vulnerabilidade social.

RELATED ARTICLES