sexta-feira, janeiro 14, 2022

Dia das mães, 2021

A estrutura que me cerca odeia as mães, assim como odeia as mulheres. Uma categoria quase mitológica, que deve ser louvada, a menos que ‘erre’. E errará, sempre errará, de qualquer jeito, mesmo que seja para sobreviver, estará falhando miseravelmente. E todo e qualquer erro será grafado com letras garrafais. A condenação será perpétua, mesmo que as condições de vida dessa mãe sejam absurdas e muito provavelmente isso jamais será considerado no julgamento que ocorrerá em todas as instâncias sociais.

A forma como nos condicionam a um ideal de maternidade branca, cis, ocidental, e ao mesmo tempo emancipada, nos coloca quase na obrigação de odiar nossos filhos, e talvez seja esse o ponto em que as maternidades possam se classificar enquanto revolucionárias. Apesar de vocês, ainda amamos nossos filhos. Com muito custo, peso, dor, e longe muito longe da incondicionabilidade que nos impõem. A precariedade de afeto na criação materna dos filhos de mães nas mais diversas estruturas familiares, é muito mais comum do que podemos contabilizar nesse texto. É difícil amar quando precisamos deixar de existir enquanto sujeitos para servir a mesa, as exigências e expectativas.

Uma mulher mesmo que assuma suas responsabilidades maternas, diante de um juiz terá que se explicar sobre suas tatuagens, piercings, postagens em rede sociais, sobre o que estuda, sua fé, sobre os parceiros ou parceiras sexuais que tem, para se defender de um pai comprovadamente ausente, violento, com milhares de relatórios escolares atestando sua completa ausência , os boletins de ocorrência registrados em delegacias. Esse homem tenta desqualificar sua maternidade , sem nenhuma prova realmente concreta, sem que nada do que faz seja criar uma narrativa moral sobre o corpo e a sexualidade dessa mãe, pq seu ego masculino está completamente ferido e a sua auto estima delirante não tem limites. Ainda assim, essa mulher precisa torcer muito para que sua causa caia na mão do/a jurista correta.

A mãe que se separa do bom pai, vai para sempre responder por isso: “escolheu se separar porque quis, agora assuma”. Às vezes, se separar do suposto homem bom pode ser muito mais custoso do que do homem visivelmente péssimo.
Monique Mederios, mãe de Henry de 4 anos está presa em uma penitenciária, acusada de matar o próprio filho junto com o padrasto o vereador Jairinho, com antecedentes de violências às outras crianças. Na melhor das hipóteses, ela será condenada por ser cumplice do assassinado do filho. Socialmente ela já foi julgada e condenada a prisão perpetua, julgada a total inabilidade de viver em sociedade e a eterna incompetência como mulher e ser humano.

A sensação é que nada que se diga mais será escutado por ninguém sobre esse caso. Se você é mãe e tentar elaborar qualquer reflexão critica que retire Monique do lugar fácil de mãe má, talvez você seja vista como uma possível matadora de filhos. A verdade é que pra sempre ela será a mãe que matou o filho, ou com muito boa intenção, a mulher preferiu proteger o macho que violentava o filho.

Até mesmo mulheres que se percebem em relações abusivas, violentas, conseguem se desvencilhar das narrativas maternas para olhar para Monique como uma de nós. Posso dizer que assertivamente: NENHUMA MÃE ESTÁ LIVRE DE SER MONIQUE. Absolutamente nenhuma. Ao mesmo tempo que temos que manter nossos filhos seguros, temos que nos manter vivas, e muitas vezes a maternidade no faz refém de relações extremamente danosas , violentas e principalmente tudo isso sendo silenciosa.

E nenhuma mãe preta está livre de ser mãe de Pedro Donato, Marlon Santana e Cleiton Lima , assassinados por policiais na chacina do Jacarezinho (RJ) nessa semana. Nenhuma mãe preta está fora da mira da ameaça do luto pela morte de seus filhos pretos. É o Estado, e toda sua estrutura racista e patriarcal de que delega as funções de bem criar, às mães, e cobra injustamente delas que esses filhos, sobrevivam ao tráfico, e ao direito de matar do Estado matar seus filhos dentro de casa.

Seja do jeito que for, estamos condenadas. E se fizermos tudo exatamente como vocês esperam, estaremos mortas, porque nenhuma mulher sobrevive a para além da maternidade precária (sempre será) depois de uma vida sendo mãe. E se alguma mulher nunca for mãe , por escolha, ou falta de escolha, há também uma condenação muito severa e específica sobre isso, a infelicidade e a solidão é o único lugar que lhes cabe.

Com sorte, mães, chegaremos aos sessenta anos, dependente das suas narrativas sobre nós, com filhos adultos, nos alimentando das nossas projeções em nossas crias criadas, cheias de culpa pelas suas infelicidades, ou pelas marcas que jamais serão olhadas como merecem ser OU encarceradas em penitenciárias e/ou em relações abusivas. Ou vamos mirar numa virada interior e muito solitária e nos libertaremos em alguma medida de boa parte disso e voltaremos existir, apesar de vocês.

Um dia nem tão bom assim, pra muitas de nós.

 

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
Facebook Notice for EU! You need to login to view and post FB Comments!
RELATED ARTICLES