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Djamila Ribeiro critica combate seletivo ao preconceito

Na Feira do Livro de Ribeirão Preto, escritora defendeu a luta contra a opressão, seja ela qual for. ‘Não dá para ser feminista e não entender que existe LGBTfobia no Brasil’, afirma.

Por Pedro Martins*, G1 

Djamila Ribeiro participa da 19ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto (SP) — Foto: João Thiago/Divulgação

Considerada uma das principais vozes do feminismo negro no Brasil, a filósofa e escritora Djamila Ribeiro nega que o movimento seja uma “vertente” ou “escalonamento” do racismo, destacando que a luta contra a opressão não pode ser seletiva.

Polêmica e de opinião conceitual, embasada na literatura, em estudos acadêmicos e na própria experiência, Djamila diz que é preciso combater o preconceito não só de gênero, mas de classe social, raça e orientação sexual.

“Não dá para lutar contra uma opressão e reforçar outra. Lutar contra o machismo e reforçar o racismo é alimentar a mesma estrutura. Para nós, mulheres negras, só faz sentido pensar uma sociedade de fato livre de opressões, e não só pensar nas opressões que nos atingem”, explica.

Apesar de reconhecer a importância histórica do feminismo, a filósofa avalia que o movimento “pensava a partir da realidade das mulheres brancas” e diz que a discussão precisa se estender a outros grupos.

“Não dá para ser feminista e não lutar a favor da causa indígena. Não dá para ser feminista e não entender que existem homens negros a cada 23 minutos sendo assassinados. Não dá para ser feminista e não entender que existe LGBTfobia no Brasil”, afirma.

Na Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto (SP), a escritora discutiu a importância da igualdade de gênero e do empoderamento de meninas e mulheres, reforçando que todos devem ter os mesmos direitos e o mesmo espaço no que ela chama de “lugar de fala”.

“Existe um regime de autorização discursiva que elegeu o homem branco como sujeito a falar e a ocupar os espaços. Não à toa, eles são a maioria nas redações, são donos de meios de produção, são a maioria do corpo docente nas universidades. Então, é [preciso] combater essa voz única”, diz.

Djamila Ribeiro em conferência no Theatro Pedro II em Ribeirão Preto (SP) — Foto: João Thiago/Divulgação

Mestra em filosofia política, Djamila é idealizadora do selo editorial “Sueli Carneiro”, que homenageia a escritora e ativista brasileira incentivando a publicação de produções literárias escritas por negras brasileiras, latinas, indígenas e LGBTQI+.

“As pessoas deturpam muitas coisas, mas, no geral, o que estamos dizendo é que precisamos ser alçadas à condição humana, já que não somos, em um país com tanta violência às mulheres que impede uma existência plena”, defende.

A ativista também faz sucesso na internet. A conta dela no Instagram, por exemplo, tem cerca de 400 mil seguidores. Suas declarações polêmicas, na web ou nas colunas que escreve em jornais de grande circulação no país, levantam a discussão sobre como o preconceito funciona na prática.

“As pessoas não se questionam por que tem poucas mulheres em determinados espaços, por que elas ainda reforçam papéis sociais como a mãe que tem que cuidar do filho e não entendem que, quando a gente faz isso, estamos confinando a mulher dentro do espaço privado, dizendo que o espaço público não é para ela”, diz.

Para a escritora, a conjuntura brasileira atual impacta negativamente no movimento, criando um “cenário muito mais hostil” para que as reivindicações sejam ouvidas. Por outro lado, o advento da internet facilita o acesso à informação e ajuda a fortalecer o debate público.

Ao mesmo tempo, a filósofa diz que, diferente do que aconteceu nas décadas de 1980 e 1990, quando as Organizações Não-Governamentais (ONGs) eram as “vozes” do feminismo, hoje o movimento funciona de maneira autônoma.

“As pessoas não precisam mais que exista uma liderança específica, como aconteceu nas gerações passadas. Percebo hoje mais uma proliferação e uma multiplicidade nesse movimento das pessoas se entendendo como feministas, sem necessariamente estar vinculadas institucionalmente”, explica.

Ex-secretária-adjunta de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, Djamila afirma que as políticas de enfrentamento à violência contra mulher estão sendo abafadas ou encerradas, mas cabe às pessoas assumirem papéis de transformação onde quer que estejam.

“Empresas podem assumir o papel de ter um comitê de diversidade, em que vão contratar maior número de mulheres. Se forem gestores públicos, criar políticas que combatam essa desigualdade. Se é educador, trabalhar esses temas em sala de aula. Existem várias formas de atuar”, exemplifica.

Por fim, mesmo reconhecendo que o movimento feminista tem diversas correntes de pensamento, vertentes e discordâncias, Djamila diz que o objetivo principal deve ser sempre o mesmo: construir uma sociedade sem hierarquia de gênero e opressões.

“Feministas são todas as pessoas que estão cientes da realidade desigual que vivemos e lutam contra essa realidade, que entenderam a importância de lutar por uma sociedade mais justa, de discutir esse tema com seriedade, saindo do achismo, da superficialidade, de colocar feministas como mulheres raivosas ou como mulheres que querem superioridade, quando não tem nada a ver com isso. A gente só está lutando pelo direito a uma existência plena”, afirma.

*Sob supervisão de Adriano Oliveira e Thaisa Figueiredo

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