Do riso que não compartilho: Blackface, racismo, humor e minorias sociais

Usei alisantes, progressivas e relaxantes durante muito e num determinado momento aquilo já não me fazia bem. Meu cabelo já não crescia como antes e minha autoestima já não ia muito bem. Pesquisando na internet, descobri que era possível voltar ao meu cabelo natural e decidi me livrar de todas aquelas pontas lisas. Depois do corte meu cabelo começou a crescer e formou um black power. Um dia eu estava voltando pra casa, quase cochilando encostada na janela do ônibus quando paramos num engarrafamento. De repente, um homem do lado de fora começa a gritar: “Olha o cabelo daquela mulher, mano!“. “Vem cá cara, vem ver o capacete daquela mulher”. O cara gargalhava e não satisfeito, chamou um amigo para compartilhar do riso. Riso de mim. Riso do meu cabelo. Confesso que paralisei, tranquei os olhos e não consegui abrir até que o ônibus arrancou. Quando abri os olhos, algumas pessoas do ônibus me encaravam. Não sei se esperavam constrangimento, choro, qualquer coisa assim. Não dei nada a elas. Ficou tudo amarrado num pequeno nó na garganta.

por Maressa de Sousa no Cacheia

Tem riso que a gente ri junto. Quando a gente se atrapalha enquanto cozinha, quando a gente tropeça por pura distração, quando a gente compartilha aqueles sentimentos comuns: o medo, a raiva, a ansiedade. A verdade é que é bom descobrir que o outro também viveu determinadas experiências. Mas o riso de alguém que aponta para um cabelo crespo não é o riso que eu compartilho. O motivo do riso não é algo que me faz me sentir tão humana quanto o outro que ri comigo. Não é algo que nos aproxima, pelo contrário, é algo que nos afasta. O que está implícito é uma demarcação de fronteiras “meu cabelo é bom, o teu é ruim”.

Outro dia uma pessoa “x” marcou a amiga numa postagem lá no Facebook do blog, com as seguintes palavras: “fulana, cabelo duro”. A resposta chegou rápido: “Não me chama assim”. E o argumento final da pessoa “x”, (acreditem!) foi este: “respeita minha opinião”. Quando foi que o racismo dessas palavras virou opinião? Peraí que eu me perdi!

Dias antes uma situação parecida já havia acontecido. Um homem “x” marcou uma moça numa postagem: “fulana cabelo de bombril”. Ao chamar a atenção dele e dizer que aquilo não era legal, que ele estava contribuindo para destruir a autoestima daquela mulher, que naquele espaço onde ele estava – o blog – nós estávamos justamente tentando fortalecer a autoestima das mulheres, fui acusada de ter a “alma amarga”. Vejam só que argumento inovador! “Você não tem senso de humor”, “É só brincadeira, agora vocês veem racismo em tudo”. Deixa eu te dizer uma coisa:  você não pode exigir o riso de quem você desrespeita. 

Palavras não são apenas palavras. A linguagem é permeada por símbolos e é centro de disputa. Palavras têm impacto: marcam a infância daqueles que sempre ouviram que seu cabelo é “ruim”, de quem foi chamado de “macaco” pelo atendente de uma loja. Mas o racismo não se manifesta apenas na fala. Mora também nas representações.

A linguagem participa da construção do conhecimento e é também por isso que as imagens escolhidas para representar pessoas, ações, acontecimentos e períodos históricos devem ser objeto de questionamento ou minimamente de curiosidade. Outro dia estava lendo um manual de cabeleireiro que dizia que cabelos secos “são quase sempre volumosos que outros tipos de cabelo e apresentam mais dificuldade para pentear e desembaraçar. Aliás, em geral, parecem não ter sido penteados corretamente“. E a imagem escolhida para representar aquele tipo de cabelo, era de uma moça negra de cabelos crespos. E aí heim? Por que essa imagem e não qualquer outra já que a questão é se o cabelo é seco, oleoso ou misto? Pode me chamar de azeda se quiser. De amarga. De chata. Olhar com desconfiança para determinadas coisas é um exercício de pensamento necessário.

Por muitas vezes o humor se vale do preconceito e do racismo para despertar o riso. Recentemente uma mãe que está lutando para retirar as imagens do filho que tinha síndrome de Pfeiffer virou notícia. As fotos da criança estão sendo usadas em memes e se espalharam nas redes sociais. Uma das imagens compara a criança a um animal: um cão da raça pug. Eis aí o riso que afasta e que lança o outro na fronteira do não-humano.

Para não ir muito longe, vou voltar num outro exemplo cotidiano. Se você ligar a TV agora, vai conseguir ver. “Qual é sua maior paixão? Futebol ou mulata?”. “Mulato” é o nome dado para o cruzamento entre um cavalo puro sangue com uma jumenta. “Mulato” é também o nome dado para os filhos dos homens brancos com as mulheres negras. “Mulata” não é elogio. Jogue a palavra “mulato” no Google e veja lá a primeira tradução: jumento. O correspondente feminino “mulata” já aparece diferente e é traduzido como “filha de mãe branca e pai negro ou vice-versa”, escondendo o racismo da expressão original.

E já que estamos no Carnaval, vamos falar também das vezes em que homens e mulheres brancas se fantasiam de negros por diversão. As roupas são bastante coloridas e algumas possuem enchimentos de espuma no bumbum. Muitas fantasias representam uma espécie de uniforme utilizada por empregadas domésticas e as perucas tentam imitar cabelos crespos. A pele é pintada de preto e a boca num tom de vermelho vivo, com contornos exagerados para dar a impressão de lábios muito grandes. E diante de tudo isso alguns dirão “é homenagem!”.

Não, não é homenagem! É BlackFace: uma prática que ganha força entre os atores brancos americanos nos séculos XIX e XX. Esses homens se pintavam de preto e ridicularizavam as características faciais e comportamentais dos negros americanos que eram impedidos de atuar. O Black Face enquanto gênero teatral teve fim com movimento por direitos civis dos negros nos EUA, mas as práticas de Black Face continuaram acontecendo, inclusive no Brasil. Personagens de programas televisivos brincam livremente com a imagem de homens e mulheres negras protegidos pela capa do “humor”. No carnaval a figura da “nega maluca” está sempre presente.

Nos quadrinhos, no teatro, na televisão, nas fantasias e até nos objetos (lembram da esponja do BBB?) é possível encontrar várias representações que contribuem para reforçar estereótipos: a proximidade com uma figura animal, a sujeira, a aspereza do cabelo, os traços corporais exagerados: o feio, o desprezível o risível.

black-face-racismo-nega-maluca-quadrinhos-mulheres-negras

O incômodo que essas imagens causam é muito evidente. Mesmo assim, ao apontar para o racismo nessas fantasias a resposta é quase sempre “eu não sou racista, o racismo está na sua cabeça”. Reconhecer que determinadas frases e atitudes são racistas parece ser a maior dificuldade das pessoas e talvez por isso o caminho mais fácil é dizer que não o são.

Quantos e quantos textos, tweets e posts tenho visto circular recentemente reclamando da “geração mimimi”. Alguns textos afirmam: “Antes você podia brincar sem ser chamado de homofóbico, gordofóbico, de racista ou machista”. Pois é meus amigos. Dar nome às opressões e combatê-las em cada uma das suas manifestações (e isso envolve sim a piada, o assédio que se repete cotidianamente, as fantasias e os estereótipos de e propagam em vários meios de comunicação) tem incomodado. Toda essa movimentação é parte de um longo processo de luta política. Alguns acham chato o fato de não supostamente já não poderem mais fazer piadas machistas por exemplo. Mas a gente sabe que não é bem assim. Basta procurar lá no Youtube, dar uma passada no Netflix ou ir nos teatros para assistir diversos shows de stand-up que sobrevivem com piadas homofóbicas, gordofóbicas, machistas e racistas em vários níveis. Essa disputa em torno da linguagem e dos direitos é desigual e é por isso que muita coisa continua circulando amparada pela naturalização de determinadas relações: “mulher é assim”, “preto é assim”, “pobre é assim”.

Quando você se sente autorizado a fazer piada sobre um negro que é ladrão ou sobre o cabelo de uma mulher negra que escondia sei lá o que, pode ser que pra você as frases cuspidas sejam “só brincadeira”,  mas é bom ter em mente que esses estereótipos não ficam lá na sua rodinha de conversa, não ficam no teatro, não terminam quando a TV é desligada. Eles se perpetuam e agem de maneira perversa sobre o “objeto” da sua piada todos os dias. Será que é por isso que é mais fácil rir dos outros?

 

Aos que dizem que “somos todos humanos” como modo de calar as discussões sobre o assunto eu digo que sim, somos iguais em muitas coisas, mas não somos corpos sem história. Vivemos numa sociedade ocidental, num país que foi colonizado e saqueado por europeus, que escravizou negros por 400 anos, que viveu um processo de abolição da escravidão tardio e que ainda colhe os resultados desse histórico de violência contra homens e mulheres negras. Somos um país de classes e desigual em oportunidades: no acesso à educação, ao transporte, ao lazer. E vocês sabem disso. Pelo menos boa parte das pessoas que aciona esse argumento sabe de tudo isso e prefere ignorar só pra não ter que assistir debates mais próximos da próprio cotidiano. Não questionar é cômodo. O contrário é que é um desafio.

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