Duas mulheres numa rua íngreme

A moça iniciava a descida da ladeira e o vento cortava fino, de baixo para cima. O salto era alto, tanto quanto a nobreza a equilibrar-se sobre ele. A dúvida da assistência era se a saia de tecido fino, seda, talvez, em tons de verde e azul, resistiria à inclemência do vento. A torcida inconfessável dos homens era para que sucumbisse e a saia se desfizesse, que a bela ficasse apenas com a blusa laranja de alças delicadas, as sisterlocks em leve desalinho e o salto 12.

 

A gata também tinha torcida feminina. Não pensem que só os meninos notavam sua exuberância. “É de Iansã!” Dizia uma admiradora ao entrar no carro, saindo de uma joalheria na rua de cima. “Como você sabe?” Pergunta a amiga já dentro do veículo, no banco de trás. “É de Iabá! Não tenho dúvidas. Não é de Iemanjá, de Nanã, nem de Obá. Se fosse de Oxum teria mais dois dedos de saia”. “Olha que pode ser de Euá, viu?” Comenta a segunda amiga, que conhecendo a motorista, acha por bem aboletar-se no banco da carona.

 

“Pode ser!” A entusiasta conclui, deslocando o freio de mão e preparando-se para descer a ladeira, bem devagar. No ritmo dos passos da diva. “Pode ser, mas o Xangô que mora em mim, avisa que ela é de Iansã.” “Hunf! Que Xango é esse que nunca veio, nunca vi?” Pergunta uma das amigas. “Ousada desse jeito só pode ser de Iansã”, ela insiste.

 

Sabedora da multa que está por vir, a intrépida motorista desliza na ladeira. A suposta filha de Iansã vence o primeiro terço da descida. Os homens saem às janelas e portas para vê-la, querem que a saia suba pelos ares. Algumas mulheres também não despregam os olhos dela e torcem para que o salto enrosque nos paralelepípedos. Contra tudo e todos, acariciada pelo vento, a bela segue, segura.

 

Motorista habilidosa, a moça do carro vermelho, dirige coladinho nela e mansa, doce, diz à semi-deusa: “Boa tarde, senhora dos ventos, da tempestade que tumultua meu peito. Permita que eu me apresente. Eu sou o Xangô que Oyá mandou para guardar seu caminho. Dê-me a honra de acompanhá-la em seu destino.”

 

A mulher de Iansã tira os óculos escuros, sem qualquer surpresa. Olha o que ainda falta da ladeira, espreita três mulheres inofensivas dentro do automóvel, dá a volta, deslizando a mão pelo capô e resolve entrar. Cumprimenta a todas, simpática, agradece a gentileza e a motorista pergunta, “para onde vamos?”

 

Vão a um cartório, para onde a bela se dirigia na Barroquinha. Depois vão tomar sorvete na Ribeira. A motorista deixa as amigas por lá e vai levar a musa em casa. A essa altura já tem certeza de que ela é de Iansã.

É convidada a entrar e papo vai, papo vem, musiquinha, carinho, janelão para mirar o Sol se pondo atrás do mar e o tempo parece correr lento. Num dado momento, a mulher de Iansã vê o fio de contas da motorista sobre a mesinha do abajour e o saúda: “Saluba, viu Xangô?” A outra ri e explica: “É herança, preta!”

Duas mulheres numa rua íngreme

 

(Do livro BAÚ DE MIUDEZAS, SOL E CHUVA)

 

 

 

Fonte: Blog da Cidinha

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