sexta-feira, novembro 26, 2021
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E aí, 2030, conseguimos adiar o fim do mundo?

A minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim. A gente não fez outra coisa nos últimos tempos senão despencar. Cair, cair, cair. Então por que estamos grilados agora com a queda? Vamos aproveitar a nossa capacidade crítica e criativa para construir paraquedas coloridos.
Ailton Krenak, em Ideias para adiar o fim do mundo

 

Oi, 2030. Contrariando as evidências de terra arrasada, resolvi te escrever, aqui de 2021, pra perguntar: “E aí, tudo bem?” Um ato de esperança? Vai saber.

Eu adiei, enrolei, mas finalmente estou aqui. Peguei uma fresta do tempo – que cá por essas bandas, anda escasso e meio parado – para te escrever e contar as novidades de um presente requentado de passado.

A essa altura você já deve estar sentindo daí, mas o desmatamento continua comendo solto. E não é só o Brasil, não, o bagulho tá louco no mundo inteiro. Só para você ter ideia, parte considerável do Pantanal morreu e vai precisar ser ressuscitado. No resto do globo revivemos as “dez pragas do Egito” de incêndios florestais na Califórnia aos ataques de gafanhotos na Etiópia, do desemprego causado pelos lockdowns na pandemia, na Itália, à situação de fome vivida por milhões de pessoas, em decorrência das mudanças climáticas e da covid-19. Uma tristeza sem fim, que te conto com lágrimas nos olhos, porque eu realmente não consigo ver o copo meio cheio.

O racismo, o machismo e todas as opressões nos colocaram – sim, nós, o Brasil – no pior lugar no ranking da desigualdade social, está sendo televisionado.

Seguimos também sem saneamento básico. Várias de nossas crianças ainda pisam no esgoto ao sair de casa, a água tem geosmina, um composto orgânico produzido pela bactéria Streptomyces coelicolor, que está acometendo de novo a população do Rio de Janeiro. A nossa única sorte – ou seria por luta? – é ainda termos acesso universal a um sistema único de saúde, o SUS. Acredita que tem gente que pensa em privatizá-lo?

E tem um outro tipo de água, aquela da enchente, que derruba morros e encostas e leva consigo pessoas e o pouco que elas têm, como aconteceu nessa semana em Belo Horizonte. A imagem de homens e mulheres indo trabalhar com água na cintura não é cena de filme, é realidade. A falta de comida é realidade. Sinto em contar que grande parte da população mundial está de novo, ou ainda, passando fome e desempregada. Sim, não há trabalho nem de carteira registrada e nem na informalidade. Não há.

A sociedade civil organizada está no seu limite de atuação, mas segue. Os movimentos estão precisando segurar a falta do básico, porque até o básico acabou. Estamos, todos os dias, apagando incêndios, para salvar o pouco oxigênio que nos sobrou.

Somado a tudo isso, você deve se lembrar, estamos enfrentando uma das maiores crises sanitárias da humanidade, causada pela covid-19, também conhecida como coronavírus, vulgo coronga. No Brasil, até o dia de hoje, data desta carta, morreram mais de 200 mil pessoas, tudo por negligência do Estado, que, infelizmente, é governado por Jair Bolsonaro. Sim, nas últimas décadas, demos dois passos para frente e, em dois anos, dezessete para trás.

Segundo a ONU, só em 2018, tempestades, inundações, secas e incêndios florestais deixaram cerca de 108 milhões de pessoas necessitando de assistência humanitária internacional. Estão dizendo que, em 2030, esse número de pessoas pode aumentar quase 50%, para um custo de cerca de 20 bilhões de dólares por ano. Apesar dos números alarmantes, uma em cada três pessoas ainda não está adequadamente coberta por sistemas de alerta precoce, que são medidas de adaptação. É essencial ter sistema de previsão e alerta, além de plano de evacuação e abrigo de afetados.

Há meses vivemos um mundo sem graça nenhuma. Com ou sem pandemia, tudo virou um g-r-a-n-d-e mar de lama – em algumas cidades isso aconteceu literalmente. Estamos aqui, às voltas, em busca do tal “novo normal”. Se ele existe e faz sentido, não sei, só sei que ele me parece tão violento quanto o normal de antes.

Os territórios negros e periféricos sofrem com o racismo ambiental diariamente. Faltam terras, sobram enchentes, doenças pela inexistência de saneamento básico, água contaminada, a lista é grande. Com ou sem teoria, chegamos aqui – nesta devastação do planeta – por conta da ação e busca do homem por dinheiro e poder. Um poder que para se manter de pé nos propõe um desenvolvimento que não inclui a maior parte da população.

É 2030, eu espero que chegando aí o cenário seja outro. Que o debate ambiental, climático ou qualquer outro que seja central para a sobrevivência das pessoas, seja feito com mais pessoas. Que a população, representada pelo movimento negro, o de moradia, pelas associações de bairro, organizações de saúde, educação e cultura, esteja na mesa de decisão. Somente a partir dessa construção conjunta conseguiremos enfim adiar o fim do mundo.

Ah, e uma curiosidade: aí, em 2030, as pessoas já aprenderam a ler e ouvir Sueli Carneiro, Edson Cardoso, Emicida, Ailton Krenak, Bianca Santana, Douglas Belchior, Nilma Bentes, Vilma Reis, Lélia Gonzalez e tantas outras muitas referências?

Voltando à pergunta do iniciozinho do texto: sim, essa carta é um ato de esperança. Espero e luto para que a gente seja mais generoso aí na frente, para que estejamos juntos. Eu não sei, imagino que o percurso daqui até aí não será nada fácil, muitos ficaram pelo caminho, mas sei que tantos outros chegaram, aos trancos, mas chegaram.

 

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