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A educação das crianças pequenas sob a ótica griô afro-colombiana:  um convite feminista negro transnacional

A educação das crianças pequenas sob a ótica griô afro-colombiana: um convite feminista negro transnacional

Ao tomarmos os versos de Mary Grueso Romero como fonte histórica primária3, procuramos desarticular as amarras da colonialidade, que se reproduz em uma tripla dimensão: a do poder, do saber e do ser, com vistas a desconstruir os essencialismos e propor uma epistemologia crítica contrapondo às concepções dominantes pautadas no racismo e no sexismo.

Por Artur Oriel Pereira e Flávio Santiago enviado para o Portal Geledés 

A obra de Romero é ocupada pela memória feminina negra, dessa maneira os conteúdos libertários e de reivindicação do povo de ascendência africana são
evidenciados, redefinindo, então, o sujeito negro e propondo uma reconstrução da identidade pessoal associada a uma ordem racial afirmativa da negritude. Seus escritos trazem uma ruptura para com a visão eurocentrada de beleza, relações sociais e constituição da identidade, tendo como principal foco a interlocução com as meninas negras. Entendemos que “negritude” é o movimento que resgata a humanidade das pessoas negras cujo pilar de sustentação é o rompimento das amarras do racismo imposto pela colonização 4.

No livro infantil La niña em el espejo, a escritora apresenta o processo de construção dos laços ancestrais entre a menina negra e sua mãe, bem como o reconhecimento de si e de pertencimento de grupo, o que lhe confere cultura, aparência física específica, além de formas individuais de se relacionar com o corpo e com os elementos que constituem o mundo. Durante a narrativa, a “menina” explora, sensivelmente, a identidade racial asseverando de forma contundente os adjetivos que denotam as características que possibilitam sua assunção:

Se miró detalladamente y se detuvo en su rostro. Vio sus hermosos ojos negros y su largo pelo crespo, peinado en trenzas que terminaban cada una en
chaquiras transparentes, una piel de color negro canela, unas mejillas tan sonrosadas que parecían dos manzanitas y en el centro de ellas dos hermosos
hoyuelos. Unos labios bien alineados que parecían un coral (ROMERO, 2016, p. 30).

Inegavelmente, o encontro da menina negra com sua ancestralidade fica evidenteno momento  em que ela contempla seus traços físicos, o que não produz na criança um sentimento de vergonha ou ambiguidade, pelo contrário, a narrativa enfatiza o prazer deste autorreconhecimento, pois ao olhar para o espelho5, ela percebe, entusiasticamente, que é bela e negra como sua mãe: sua ancestral6.

Essa poética afro-colombiana forma um painel narrativo à semelhança de um caleidoscópio, vivo e cambiante, que nos possibilita pensarmos uma perspectiva pedagógica e crítica que procura racionalizar as percepções construídas em torno das crianças, das infâncias e dos modos de estar no mundo – sobretudo, articula o reconhecimento da memória e ancestralidade negra.

O feminismo negro não estabelece só uma luta diária contra as estruturas do patriarcado e o sexismo, mas também desarma as estruturas eurocêntricas de
representação da mulher, dos corpos e das relações sociais, descolonizando a iconografia pejorativa em torno da ancestralidade e das relações entre os membros da comunidade negra, ao mesmo tempo em que direciona a criação de artefatos e saberes que desarticulam a história única e diálogos monolínguisticos estabelecidos pela colonialidade.

MCLAREN, Peter. Multiculturalismo Revolucionário: pedagogia para o novo milênio. Trad. Márcia Moraes e Roberto Cataldo Costa. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. p. 263.

RIBEIRO, Ronilda. Mãe negra: o significado ioruba da maternidade. Tese (Doutorado). Programa de Pós-graduação em Antropologia Social, Universidade de São Paulo – USP, 1995.

ROMERO, Mary Grueso. La niña em El espejo. Ilust. Vanessa Castillo. Colección de Cuentos Ilustrados de Niños Afrocolombianos – Pelito de Chacarrás. Buenaventura: Apidama, 2016.


1Especialista em Sociopsicologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Letrólogo. Pedagogo. Membro da Fraternidade Imhotep dos Homens Negros e do Fórum Virtual Intelectualidade Afrobrasileira. São Paulo – SP, Brasil.
2Doutorando em Educação pela Faculdade de Educação da UNICAMP; Bolsista FAPESP.  Membro do GEPEDISC – linha Culturas Infantis. Campinas – SP, Brasil. Atualmente realiza estágio sanduíche na Università degli Studi di Milano-Bicocca.
3Agradecemos a possibilidade de encontro com a obra de Mary Grueso Romero, propiciada pela Profa. Dra. María Isabel Mena García, coordenadora Nacional de África em Escola e docente na Universidade Nacional Aberta e à Distância de Bogotá D.C., Colômbia.
4Com efeito, a “branquitude” estrutural procura se resguardar em uma pretensa ideia de invisibilidade,  assim, ser branco é considerado padrão normativo, dessa maneira o indivíduo ou grupo concebido é concebido como sinônimo de ser humano “ideal” (MCLAREN, 2000, p. 263).

5O abebé (espelho) aparece em inúmeros mitos da Cultura e Religião Tradicional Iorubá e tem valor epistemológico. É símbolo do autoconhecimento, da transformação e da Ìyámi Àkókó (Mãe Ancestral Suprema), também chamada de Òsún (Oxum) e Mãe das Crianças; divindade cultuada na cidade de
Òsogbo e protetora de Abéòkúta. Disponível em: http://www.oduduwa.com.br/index.php. Acesso em: 04 mai. 2017.
6Como podemos ver na tese Mãe negra: o significado Iorubá da maternidade de Ronilda Ribeiro (1995), na comunidade Iorubá, a maternidade consagra a mulher ao papel de elo geracional; expressando sua força vital e expandindo sua identidade pessoal, que passa a incluir os descendentes.

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