Efeitos de cor

Mercado editorial internacional vem mostrando curiosidade em relação a autores afrodescendentes

por José Eduardo Agualusa no O Globo

O festival Marathon des Mots, maratona das palavras, cuja 14ª edição terminou em Toulouse, na França, na terça-feira passada, oferece o que o nome anuncia: os escritores, às dezenas, passam os dias correndo pelas belíssimas ruas da cidade cor de rosa, de debate em debate, ora em bibliotecas públicas, ora em livrarias e centros culturais — e os leitores seguem-nos, espavoridos. Na presente edição, os leitores e escritores com melhor preparo físico puderam ainda assistir a shows do António Zambujo, da fadista portuguesa Cristina Branco e da cabo-verdiana Lucibela. Infelizmente, perdi todos eles.

O Brasil esteve representado por Bernardo de Carvalho, Guiomar de Grammont, Henrique Rodrigues e Conceição Evaristo; a este grupo poderíamos juntar o francês Jean-Paul Delfino, com vários títulos ligados ao país, e que em Toulouse falou sobre a sua paixão pela bossa nova. Valter Hugo Mãe integrava a forte delegação portuguesa, que incluía ainda, entre outros, José Luís Peixoto e Lídia Jorge.

Na correria, consegui assistir apenas a uma das mesas, a com Conceição Evaristo — e isto porque era o outro convidado. Sala cheia. Meia dúzia de imigrantes portugueses, outra meia dúzia de brasileiros, e muitos franceses interessados em conhecer “uma das principais vozes femininas da literatura afro-brasileira”.

A mesa esteve à beira do desastre, devido ao despreparo da generosa, porém improvisada, intérprete. Eventos literários podem poupar em tudo, no cachê dos escritores, nas viagens, nas refeições — mas não nos intérpretes. Lembro uma ocasião, numa pequena cidade alemã, em que me calhou ter como tradutora uma jovem estudante, de origem portuguesa, fluente em ambas as línguas. Contudo, estava tão nervosa que mal me deixava falar. A certa altura, caiu num choro violento, e tivemos de interromper a sessão antes que eu próprio começasse a chorar.

Em Toulouse, a intérprete não chegou a chorar, mas, confrontada com a crescente irritação do público, deve ter estado muito perto disso. Conceição Evaristo, porém, manteve uma calma majestática, denunciando a histórica injustiça racial no Brasil e a ausência de escritores afrodescendentes na literatura brasileira contemporânea de maior circulação. Ao mesmo tempo, contestou a mediadora, que a apresentou como a principal voz negra do Brasil, lembrando Carolina de Jesus, mas também Machado de Assis e Ana Maria Gonçalves. Podia ter falado igualmente em Cruz e Sousa, Lima Barreto, Luís Gama etc. Na literatura brasileira do século XIX, início do século XX, não faltavam afrodescendentes.

A boa notícia é que a presença de Conceição Evaristo naquele palco assinala um ponto de viragem. Não por acaso, dos quatro brasileiros presentes em Toulouse, dois eram afrodescendentes. O outro, Henrique Rodrigues, poeta e ficcionista carioca, esteve no festival apresentando a tradução francesa do romance “O próximo da fila”.

O mercado editorial internacional vem demonstrando, nos últimos anos, grande curiosidade relativamente a autores africanos e afrodescendentes, em particular mulheres. O sucesso da escritora nigeriana Chimamanda Adichie explica, em parte, este interesse. Tal demanda — e não uma súbita consciência da injustiça racial — tem levado os editores brasileiros, quase todos brancos e conservadores, a procurarem e a apostarem em jovens autores de origem africana.

Daí uma interessante observação de Conceição Evaristo, durante o debate, ao confessar ver algum perigo no súbito sucesso das “escritoras negras”: não basta ser mulher e negra para ter sucesso enquanto escritora.

Os leitores (e os bons editores) não se interessam por escritoras ou escritores negros porque são negros. Procuram, sim, uma boa história. Acontece que autores africanos ou afrodescendentes, pensando especialmente no Brasil, costumam ter boas histórias.

Conversando em Toulouse com a minha editora francesa, Anne Marie Métailié, das edições Métailié, responsável pela divulgação na França de muitos dos grandes nomes da ficção lusófona, ela queixou-se de não ter mais paciência para muita da autoficção contemporânea, escrita por autores com muita leitura e muito conhecimento das ferramentas de escrita, mas pouca vida.

Ora, vida é o que não falta a escritores como Conceição Evaristo, Henrique Rodrigues, Jessé Andarilho e tantos outros. O mundo espera por eles.

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