Em SP, um terço dos adultos tiveram Covid; taxa sobe a quase 40% entre negros

Quase um terço, ou 29,9%, dos adultos na cidade de São Paulo já tiveram Covid-19 e carregam no sangue anticorpos contra o coronavírus, mostra a quinta fase do estudo conduzido pelo Grupo Fleury na cidade para mapear a parcela da população que já teve a doença.

A pesquisa visa medir a soroprevalência, que é o percentual da população com anticorpos e que já teve, portanto, contato com o Sars-CoV-2.

Essa prevalência é de 37,8% entre aqueles que se autodeclaram pretos e pardos, um número 1,6 vezes maior do que nos autodeclarados brancos (23,2%), mostrando como a cor da pele representa um fator de maior risco para contrair o vírus na cidade.

O índice chega também a 36,4% nos distritos mais pobres (renda média igual ou menor a R$2.200) da capital, em comparação a 22,8% naqueles de renda mais alta.

O estudo de mapeamento sorológico da população adulta do município utiliza dois testes sorológicos para fazer a análise de anticorpos contra o Sars-CoV-2. Na etapa anterior, realizada em outubro, a parcela da população com anticorpos era de 26,2%, representando um aumento de 3,7 pontos percentuais.

A discrepância é ainda maior quando o recorte é o da escolaridade: 33,8% da população de menor nível escolar (até ensino fundamental completo) já contraiu o Sars-CoV-2 —​mais de um terço, ante 19,6% dos indivíduos com ensino superior completo.

Não houve diferença significativa entre os homens e mulheres em relação à presença de anticorpos, mas na população mais jovem, da faixa etária de 18 a 34 anos, a prevalência foi 33%, ou 1,7 vezes maior do que o observado na população acima de 60 anos (19,9%).

O estudo não encontrou diferenças significativas de prevalência nas residências com 1 a 3 moradores em comparação àquelas com 4 ou mais.

A partir da prevalência encontrada, de 29,9%, estima-se que 2,5 milhões de indivíduos com idade acima de 18 anos da capital possuam anticorpos para o vírus (ou, considerando a população adulta de 8,4 milhões, 1 em cada 3 indivíduos).

Até a última quinta-feira (4), o município de São Paulo registrou 578.224 casos confirmados. Esse número é cerca de 4,3 vezes o total de casos confirmados e representa um aumento de 300 mil novos indivíduos estimados com anticorpos contra o vírus desde a realização da quarta etapa.

“A cidade de são Paulo continua diagnosticando só um quinto do total de pessoas contaminadas com o vírus na cidade. Isso significa que continuamos testando muito pouco: de cada cinco pessoas, somente uma é testada. É claro que existem os casos assintomáticos, mas muitas pessoas que já tiveram o vírus no passado não entram nas estatísticas oficiais”, diz Fernando Reinach, biólogo, professor titular de bioquímica na Universidade de São Paulo e pesquisador principal do estudo.

Essa prevalência na capital é mais que o dobro da encontrada na última etapa do inquérito sorológico realizado pela prefeitura, que encontrou uma incidência de 13,6%, ou uma estimativa de 1,6 milhão de pessoas com anticorpos contra o Sars-CoV-2 no sangue, podendo alcançar 1,8 milhão, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde.

Nesta nova fase, a pesquisa do SoroEpiSP dividiu a cidade em 149 setores censitários. Em cada um deles, foram sorteadas oito residências aleatoriamente e colhidas 1.194 amostras de sangue de indivíduos maiores de 18 anos, entre os dias 14 e 23 de janeiro deste ano.

Em cada residência, uma equipe formada por enfermeiros do laboratório Fleury e pesquisadores do Ibope faziam um questionário com os moradores da casa e colhiam sangue de todos os moradores.

A coleta de dados desta quinta etapa coincidiu com o início da vacinação contra Covid-19 no país. A vacinação começou primeiramente em grupos prioritários, como profissionais de saúde, população indígena e idosos.

Esta etapa foi a primeira que contou com a chamada correção para a sororeversão, isto é, quando há a queda de anticorpos neutralizantes no corpo. Mas no caso da pesquisa sorológica, essa sororeversão não foi estatisticamente significativa, de acordo com os dados do estudo.

“A taxa de prevalência estimada neste estudo representa os habitantes adultos do município de São Paulo já infectados pelo Sars-CoV-2 e que produziram, desde o início da pandemia, anticorpos detectáveis por pelo menos um dos dois testes utilizados”, afirma o diretor médico do Grupo Fleury e pesquisador do estudo, Celso Granato.

Em meio às novas variantes do coronavírus em circulação, a pesquisa sorológica não foi afetada por essas novas mutações do vírus, diz Granato.

“O teste que usamos é um teste que busca proteínas do núcleo do Sars-CoV-2, as chamadas nucleocapsídeos, e não é afetada às mutações presentes nas variantes em circulação, que são concentradas na proteína S do Spike [espícula ou gancho usado pelo vírus para entrar nas células].”

Uma situação que atraiu a atenção de especialistas nas últimas semanas foi a situação de Manaus, que apresentou uma taxa de ataque do vírus estimada, no final do ano passado, em 76%, mas este ano foi fortemente assolada por uma alta de casos, possivelmente associadas à nova variante P.1, identificada primeiro e já em circulação na capital manaura.

“No caso de Manaus, fui colaborador do estudo que chegou a essa estimativa e hoje, vendo os dados, achamos que foram superestimados. Nossa correção talvez tenha sido muito otimista. Agora é importante a gente lembrar que quando falamos lá atrás em imunidade coletiva, isso não estava levando em consideração as possíveis mutações do vírus”, completa Granato.

Em São Paulo, as reinfecções ainda são raras, e possivelmente não houve influência dessas novas variantes nos dados coletados nesta última etapa do projeto, dizem os pesquisadores.

O inquérito sorológico é uma iniciativa do Grupo Fleury em parceria com a ONG Instituto Semeia e o Ibope Inteligência, e tem apoio financeiro do Todos pela Saúde. Conta ainda com colaboração da Escola Paulista de Medicina, Faculdade de Saúde Pública da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

 

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