sexta-feira, setembro 17, 2021
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Emicida e o direito de sermos quem somos

“Eu mudarei o curso da vida/Farei um altar para comunhão/Nele eu serei um com um/Até ver o ubuntu da emancipação/Porque eu descobri o segredo que me faz humano/Já não está mais perdido o elo/O amor é o segredo de tudo/E eu pinto tudo em amarelo.”
(“Principia”, EMICIDA, faixa: 01: 2019)

Este artigo começa com a seguinte afirmação: “AmarElo”, acima de ser um documentário, é expressão viva que se revela a nossa vista, acerca da experiência civilizatória afro-brasileira ao longo de nossa história. Referência seminal para qualquer pessoa que busque compreender o que é ser uma pessoa negra no Brasil, o que a afrodescendência representa em uma sociedade construída, desenvolvida e modernizada por ela, mas que vive e se reproduz através de um processo secular de poder que nega, persegue – numa fúria genocida física e mental – dessa mesma população.

Renegar e enfrentar o racismo estrutural que nos mata, é o cotidiano das populações afro-brasileiras desde sempre, não sendo “imitação de negro americano”, “mimimi”, vitimismo” ou “modismo”, como a vulgaridade racista de nossa sociedade costumeiramente, de maneira sórdida e mesquinha, gosta de apregoar. Essa é a grande luz que o documentário nos traz, desanuviando os falsos tons de sociabilidade racialmente democrática e socialmente harmoniosa que mascaram o nosso racismo estruturante e os seus efeitos nefastos a maioria de sua população, uma nação em eterna incompletude esquizofrênica em negar o seu caráter racista e discriminatório.

Nesse sentido, Emicida verbaliza em sons e imagens, cinema e música, perpassando e revisitando a ancestralidade afrodiaspórica que nos manteve vivos ao longo de toda essa trajetória. Amar o elo que nos une e fortalece enquanto comunidade, enquanto povo, que nos conecta a nossa pertença identitária e sua condição de força matriz que acaba gerando, dando forma as mais variadas manifestações e expressões – por vezes díspares ou contraditórias – mas sempre visando o não sucumbir aos “caminhos da não existência” do apagamento da história que nos era destinado, que nos era reservado por nossas elites desde os primeiros tempos de nossa invasão colonial.

Não por acaso (nesta narrativa histórica e política, dividida em três atos, em três fases denominados “plantar, regar e colher”) temos uma representação de uma grande árvore frondosa, cheia de vida e frutos, representando os vultos de nossas (sobre)vivências afrodiaspóricas. Nessa árvore se faz visualizar as inúmeras formas – em suas infinitas complexidades, em suas variadas redes de relações e influências intergrupal – de saberes e potências intelectuais, culturais, políticas, econômicas e religiosas que acabam por desenvolver uma amalgamento de nossas origens africanas, modificando-as e gerando novas formas de culturas de origem afro em terras brasileiras, num processo de mais de quatro séculos, que de maneira continua constrói cotidianamente o que hoje compreendemos enquanto “sociedade brasileira”. Ou, em ouras palavras, “AmarElo” nos demonstra que não existe Brasil sem as suas heranças, suas almas e presenças afro, sem os suculentos frutos negros dessa grande e imortal árvore.

Outra característica que acreditamos deva ser destacada, é a sua abordagem em enfatizar a multidimensionalidade e as potências revolucionárias que se encontram embutidos nas expressões-manifestações de saberes de origem africana. A racionalidade dos saberes afro-brasileiros não se dá de maneira unilateral e nem podem ser entendidos em suas totalidades e potencialidades por um viés interpretativo cartesiano de viés pseudo ocidental. Não havendo por isso uma separação sistemática ou hierárquica entre as diferentes formas de saberes que ocorrem e formam as tradições intelectuais e culturais das diferentes populações africanas que forçosamente se viram obrigadas a colonizar e construir o Brasil. Por isso que toda forma religiosa africana ou de origem afro, não é estritamente religiosa, mas é também e ao mesmo tempo manifestação-expressão política, cultural, assim como uma forma de expressão cultural como o samba é também uma forma de manifestação-expressão religiosa e política. E essas formas de saberes não precisa necessariamente ser repassadas, preservadas ou ratificadas pela tutela de escritas formalizadas e balizadas por grupos elitistas que decidem de acordo com os seus interesses e valores o que é reconhecido enquanto cultura, enquanto saber, enquanto intelectualidade. Não sendo por acaso que até os dias de hoje, nas sociedades de origem escravocrata – como a brasileira – intelectualidade e modernidade não são associadas enquanto inerentes as suas populações afrodescendentes, e isso se dá não por estas não possuírem tais características de sapiências, mas sim pelo fato que elas são sempre medidas por lentes embaçadas, quando não turvas, desfocadas por um racismo epistemológico e estrutural que não aceita enquanto valido nada que não se de dentro de uma tradição europeia.

O documentário mostra que a potência dos pensamentos e saberes africanos, de nossas virtudes e inovações civilizatórias, de nossa condição humana, sempre se deu no Brasil, mesmo que a margem, discriminado, não reconhecido ou ignorado por nossas elites. Mas sempre atuantes para a preservação de nossas existências/resistências ao longo dos séculos… Sendo por esse o louvor realizado na obra para as figuras políticas intelectuais de Abdias Nascimento, Lélia Gonzales, Sueli Carneiro, Beatriz Nascimento, dentre tantas outras referências de sapiência que poderiam ser destacadas especificamente ao longo da obra. Uma ligação direta com o álbum e a canção “AmarElo” (2019) e o seu descrever de uma busca incessante, ininterrupta de descrever não necessariamente e estritamente a necessidade de sobreviver, num sentido de se adaptar ao que existe sem perspectiva de alteridade ou de rebeldia, mas sim na radicalidade de se buscar viver a vida em sua plenitude, sem se preocupar em ser pautado ou delimitado por padrões outros, sem ser podado em sua existência pelas normatividades do sistema. Não se rendendo a morte que nos é imputada desde antes de nascermos, “AmarElo” é a louvação e celebração da vida das populações afro-brasileiras ao longo de nossa história, de nossa ancestralidade viva e revolucionária que contra todas as perspectivas é chama que não se apaga, que nos agrega, que nos fortalece e nos impulsiona a não se curvar ante aqueles que querem nossa morte, em busca constante, em construção sem fim por uma sociedade em que possamos ser plenamente quem somos, quem queremos ser, quem podemos ser!

“Permita que eu fale, e não as minhas cicatrizes
Elas são coadjuvantes, não, melhor, figurantes
Que nem devia tá aqui
Permita que eu fale, e não as minhas cicatrizes
Tanta dor rouba nossa voz, sabe o que resta de nós?
Alvos passeando por aí
Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Se isso é sobre vivência, me resumir à sobrevivência
É roubar um pouco de bom que vivi
Por fim, permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Achar que essas mazelas me definem é o pior dos crimes
É dar o troféu pro nosso algoz e fazer nóiz sumir”
(EMICIDA, 2019: faixa, 9)

Sem deixarmos de buscar nesse processo de redescoberta, de autovalorização, de nos realimentarmos, de nos reeducarmos, de dialogarmos mutuamente em prol de convivermos e crescermos enquanto pertença coletiva através de nossas infinitas e plurais diversidades identitárias que compõe e caracterizam as vivências históricas e contemporâneas de negritudes no Brasil, o que fala fundo e fortemente contra os processos de divisões internas que por vezes permeiam a luta antirracista e pró negritude no Brasil.

Assim se opondo, por exemplo, as separações baseadas em “colorismos” (1) e sua sanha nefasta em buscar definir quem é ou não negro, ou quem é “mais” negro do que o “outro; se opondo a homofobia e ao machismo, e a prevalência por um modelo de organização social baseada em uma normatividade – aparentemente – heterossexual e patriarcal que deturpa os modelos de sociabilidades ancestrais africanas, e até mesmo os modelos de sociabilidades originadas destas em terras brasileiras, que não se deixam direcionar por padrões outros aos seus próprios referenciais de relações sociais, como exemplificam as existências dos terreiros de candomblé, e das casas de santo, enquanto existências de pluralidades e diferenças que nos tornam iguais em nossa humanidade. Assim nos lembrando que ao incorporamos valores que nos separam, acabamos nos enfraquecendo enquanto essa grande família diaspórica que somos, renegando as nossas origens e perdendo a própria noção de quem nós somos, de nossas origens e historicidades, nos tornando cópias mal feitas e a serviço daqueles que nos oprimem e matam.

Nos possibilitando entendermos o uso da representação simbólica do “Teatro Municipal de São Paulo” enquanto metáfora da sociedade brasileira, que apesar de construída e erigida sobre os ombros e através dos esforços intelectuais e das sapiências afro-brasileira, continua a negar em reconhecer a sua dívida histórica para com esta população, não a reconhecendo nem mesmo em sua condição de humanidade, optando por vê-la exterminada em meio as armadilhas de nosso genocídio do negro brasileiro. Problematizando essa nossa característica social e histórica, a partir do questionamento referente ao apagamento das presenças negras, das vidas negras na cidade de São Paulo enquanto forma de modelo civilizatório almejado, tão sonhados por nossas elites.

O que nos leva ao momento em que o rap se faz apresentado, contextualizado enquanto herdeiro direto da práxis política, modernizadora (2) e revolucionária do samba (talvez a manifestação-expressão cultural primordial para o que hoje compreendemos enquanto negritudes brasileiras) e diretamente influenciado pela geração intelectual-política dos anos 1970, de todo o universo cultural afrodiaspórico da época. Não por acaso, talvez no momento mais emocionante de “AmarElo”, quando Emicida interrompe a sua apresentação para louvar os membros fundadores do Movimento Negro Unificado (3) que estavam localizados em meio a plateia, que com os punhos erguidos são celebrados em ovação, reconhecidos em valor e lutas por aqueles que optaram defender – em continuidade ás lutas e batalhas de nossos ancestrais – e representar ante ao Estado genocida brasileiro, em pleno regime ditatorial civil-militar, até dos dias de hoje em uma luta constante e incessante antirracista e pró negritude. Em um espaço tradicionalmente impedido – com barreiras e clivagens não necessariamente formais, mas eficazes em suas ações discriminatórias – para a circulação e apresentação das populações afro-brasileiras, assim gerando uma ressignificação do uso e sentido daquele espaço construído e erguido pela força dos braços e da engenhosidade destas mesmas pessoas que comumente se fazem impedidas ao pleno uso, desse território de infinitas formas-expressões culturais e possibilidades de sociabilidades que se dão ali, e a partir deste espaço.

Emicida através do projeto “AmarElo” nos apresenta a sua percepção de que no Brasil, a questão social, têm origem e passa pela discussão de nosso racismo, assim como da necessidade de sua superação, para objetivarmos a construção de uma sociedade verdadeiramente e necessariamente mais justa, democrática, inclusiva e libertária, em honra a memória e luta de nossos antepassados. Em não deixar morrer nossa ancestralidade, de não deixá-la ser negada ou deturpada! Demonstrando que a luta e objetivo em enfrentar, em vencer essa distopia racista e genocida em que estamos inseridos é meta e objetivo que será, apesar de tudo, atingida, pois como destaca Emicida – ao iniciar e terminar o documentário, citando o ditado Yorubá que nos revela que “Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje” – nós não estamos sozinhos, não vivemos em eterna em solidão, nas nossas batalhas cotidianas contra esse monstro incansável, na sua sanha em nos perseguir e matar que, é o racismo.

Ao se ver jovem, em imagens gravadas no entorno do teatro municipal, na busca por seus sonhos, sempre cercado e apoiado pelos seus, nos é dada a mensagem que permeia toda obra, a de que estamos e somos sempre amparados pela história e vida de nossos antepassados, que nos fortalecemos e nos tornamos mais inteiros quando nos reconhecemos, e nos enxergamos, em nossos semelhantes, que não existe a vitória de um, mas de todos nós! Que eu sou, porque NÓS somos!

E que apesar de tudo havemos de vencer e venceremos, pois a pedra de Exu nunca erra o seu alvo!

Notas Bibliográficas:

(1) – O colorismo, em contramão ao ideário político e conceitual dos movimentos negros brasileiros em final dos anos 1970 – que buscavam desenvolver uma unidade identitária, de pertença a população afro-brasileira, valorizando o uso dos termos “negro” ou “preto” para designar, aglutinar as pessoas descendentes de africanos em suas maias variadas pigmentações e fenótipos, em contraposição ao ideário de “mulatismo” ou “morenismo” proferido pelo ideário da democracia racial – ocorre desde final da primeira década dos anos 2000, enquanto busca de parcela do movimento negro em buscar a construção de um ideal tipo “puramente” africano, em que só se identifica ou se reconhece enquanto “verdadeiramente” negro quem mais próximo está a ele. Quanto maior for a concentração de melanina da pele, maior será o reconhecimento desta enquanto uma pessoa “verdadeiramente” negra/preta. O que acaba por gerar uma negação de todas as pessoas que os adeptos do colorismo desqualificam enquanto seres humanos “negros/pretos”, pelo fato destes se afirmarem enquanto tais, através de suas respectivas negritudes, fora dos conceitos políticos e ideológicos, puramente racialistas, de identidade étnica-racial colorista.

(2) O que fica explicito ao discorrer sobre o papel de modernização civilizatória que Pixinguinha e os seus batutas representaram para a sociedade brasileira em começo dos anos 1920, os situando em importância equivalente a importância da “Semana de Arte Moderna de 1922”, com amplo impacto, reconhecimento e admiração em meio ao centro referencial cultural de então, da denominada cultura ocidental que era Paris.

(3) – MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO (MNU): Criado em 1978 – na data de 18 de Junho, em reunião envolvendo diversos setores do ativismo político negro, como o “Centro de Cultura e Arte Negra – CECAN” a “Associação Cultural Brasil Jovem” e o “Instituto Brasileiro de Estudos Africanistas – IBEA”, tendo seu lançamento público nas escadarias do tetro Municipal em 07 de Julho do mesmo ano – com a nomenclatura original de “Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial” (MNUDR), passando a adotar a atual identificação, Movimento Negro Unificado (MNU) a partir de 1979 – em plena vigência da ditadura civil-militar (1964-1985) enquanto um movimento que representava a união das diferentes tendências políticas da comunidade afro-brasileira na década de 1970, em especial as ligadas aos setores estudantis e culturais, constituídas por jovens atores sociais. Momento que acaba por constituir a modernidade do movimento negro no Brasil e da própria noção de negritude no país. Sendo uma das pessoas homenageadas por Emicida e plateia, o fundador do MNU, Milton (Miltão) Barbosa, de punho cerrado, de cabelo black power, vendo a história da afrodiáspora no Brasil erguer mais um de seus capítulos.

Referências Audiovisuais:

EMICIDA. AmarElo. 2019a. In: https://www.youtube.com/watch?v=kjggvv0xM8Q&list=PL_N6VL1gm0aLlr0HQ6yl2lRXdSfuxMt-s. Acessado em 07/01/2020.

EMICIDA. AmarElo. 2019b. (Sample: BELCHIOR – SUJEITO DE SORTE). In: https://www.youtube.com/watch?v=PTDgP3BDPIU, (faixa, 09). Acessado em 07/01/2020.

PRETO, Ouro Fred. EMICIDA: AmarElo – É TUDO PRA ONTEM! Distribuidora: Netflix, 2020.

Christian Ribeiro, mestre em Urbanismo, professor de Sociologia da SEDUC-SP, doutorando em Sociologia pelo IFCH-UNICAMP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento social negro no Brasil.
** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
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