terça-feira, janeiro 31, 2023

Envelhecer é para poucos

O Rio de Janeiro deu a largada na (mais que bem-vinda) imunização dos nonagenários em cerimônia, domingo passado, com três mulheres — a costureira Sebastiana Farnezi da Conceição, 98 anos, Dulcinéia Gomes Pedrada, 97, Neiva Gomes Brandão, 95, ambas dona de casa — e dois homens, o ator Orlando Drummond, 101, e o compositor Nelson Sargento, 96, baluarte da Estação Primeira de Mangueira, patrimônio do Brasil. O quinteto entrou para uma (ainda modesta) galeria de imagens de esperança da pandemia da Covid-19, que antes de completar um ano já abreviou a vida de quase 230 mil brasileiros. A diversidade contida na inauguração contrasta, contudo, com a predominância feminina e branca nas filas por doses em unidades de saúde das capitais fluminense, paulista e pernambucana. É só olhar.

A assimetria demográfica nos postos de vacinação é tão triste quanto fácil de compreender. No Brasil, envelhecer é luxo, não direito. Há grupos numerosos da população que não se tornam anciãos, em razão de barreiras socioeconômicas a que foram submetidos ao longo da existência — seu Nelson Sargento é revigorante exceção. Doutor em Saúde Pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí, Alexandre da Silva evoca o conceito de envelhecimento ativo para explicar por que mulheres e, sobretudo, homens negros não alcançam idades mais avançadas. “Estamos falando de envelhecer com segurança, inclusive financeira; saúde; aprendizagem ao longo da vida; participação, não apenas no mercado de trabalho, mas na vida social. Há uma estrutura de iniquidades que abreviam a vida de pessoas negras. São poucos os que chegam aos 80, 90 anos”, observa.

José Eustáquio Alves, sociólogo, mestre em Economia e doutor em Demografia, estimou que, na cidade do Rio, quase dois terços (62,4%) da população de 60 anos ou mais se declaram brancos; pretos e pardos somam 36,9%. Na média geral, brancos são 51,2%, negros 47,9%. Na faixa de 70 a 79 anos, a distância é escancarada: proporção de 71,7% contra 27,8%, respectivamente; de 80 a 89, 74,5% a 25%. Ou seja, para quatro moradores do Rio com mais de 80 anos, três são brancos, apenas um é negro.

Idade, cor da pele, gênero, deficiência, endereço não deveriam ser variáveis determinantes para brasileiros envelhecerem bem. Mas são. Silva, que também é membro do grupo de trabalho Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), em artigo recente sobre população idosa negra e Covid-19, tratou das razões que atrapalham a longevidade de negros e negras. “Dados publicados em 2017 e 2019, a partir do estudo populacional Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE) com idosos e idosas do município de São Paulo, mostraram que a população negra sofre com as discriminações decorrentes do racismo e do etarismo, dificultando as condições de vida e de saúde”, escreveu.

Estudos demográficos mostram que a proporção de mulheres na população aumenta à medida que a idade avança. Elas vivem mais; a longevidade dos homens é menor. As causas externas, sobretudo a violência homicida e acidentes de trânsito, matam jovens negros aos milhares, ano após ano, a ponto de reduzir a expectativa de vida de todos os brasileiros do sexo masculino. A Covid-19, que matou mais homens idosos, deve diminuir em um par de anos a longevidade dos brasileiros a partir de 2020. Eustáquio estimou em cerca 19 meses a menos para homens e 14 meses para mulheres.

Na análise étnico-racial, também inviabilizam a longevidade e o bem-viver, más condições de habitação, qualidade da alimentação, acesso à saúde (prevenção e tratamento), escolaridade baixa, ocupação precária, informal e mal remunerada. Na pandemia, a vulnerabilidade de idosos negros aumentou em diferentes grupos sociais e profissionais, como cuidadoras e empregadas domésticas, população em situação de rua, pessoas privadas de liberdade, quilombolas, moradores de favelas e cortiços. E mais, completa Silva: “Por tudo isso, no caso da vacinação, pode haver pessoas negras que deveriam estar na fila, mas não estão porque não têm quem os leve, o que chamamos de insuficiência familiar”. É também conhecida como abandono, solidão. Vida digna na velhice é para poucos no Brasil.

Fonte: O Globo, por Flávia Oliveira

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