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‘Era o demônio’, diz ex de R. Kelly que ficou nove horas presa em van pelo cantor

Asante McGee é uma das entrevistadas na série ‘Sobreviver a R. Kelly’, que estreia nesta sexta-feira no Lifetime

por Luiza Barros no O Globo

R. Kelly se apresenta em 2013- músico é alvo de documentário do Lifetime em que vítimas o acusam de abuso sexual Foto- Andrea De Silva : REUTERS

Em “I believe I can fly”, sua música mais conhecida no Brasil, o cantor americano R. Kelly fala, numa balada de tons motivacionais, sobre acreditar em ter asas e ser capaz de voar. E, segundo a série documental “Sobreviver a R. Kelly”, de fato não faltava ao músico de 50 anos crença em seus superpoderes. Robert Kelly, contudo, teria preferido usar a confiança em seu talento para atuar livremente como um predador sexual: desde sua ascensão, nos anos 1990, o cantor teria usado a fama para caçar meninas na porta de colégios ou em shoppings.

“Sobreviver a R. Kelly” vai ao ar no Brasil na próxima sexta-feira, às 20h40m, no Lifetime. E, a partir de amanhã, o primeiro dos seis episódios estará disponível no NOW, serviço sob demanda para assinantes da NET, em uma espécie de “pré-estreia”.

Asante McGee, uma das ex-namoradas de R. Kelly que denuncia o cantor no documentário ‘Sobreviver a R. Kelly’ Foto- Divulgação

Nos Estados Unidos, a docussérie do Lifetime foi a maior audiência nos últimos dois anos entre o público-chave do canal, alcançando 1,9 milhão de espectadores. O feito é resultado do trabalho liderado pela showrunner dream hampton (que, em homenagem à pensadora feminista bell hooks, também prefere grafar o nome em caixa baixa). Ela e sua equipe ouviram 52 entrevistados. Vítimas, parentes e ex-colegas de trabalho (inclusive o cantor John Legend) dão seus depoimentos sobre as diversas acusações de abuso sexual que pairam sobre o músico. Uma delas é Asante McGee. Divorciada e mãe de três filhos, ela era fã de Kelly e o conheceu em 2013.

— Quando comecei a namorá-lo, via só o que todo mundo via: R. Kelly, um cara doce e apaixonado que não faria mal a ninguém, até que me mudei para a casa dele. Foi então que conheci outra pessoa, Robert, e este era o demônio — afirma McGee, que se viu em um ambiente onde outras mulheres dividiam espaço, entre elas menores de idade.

Depois de se mudar, a americana diz ter sofrido diferentes tipos de abuso. Segundo McGee, Kelly mantinha na casa uma espécie de “instrutora” para ensinar ela e outras parceiras como agradá-lo sexualmente. Ela conta ainda ter sido obrigada a fazer sexo com outras mulheres mesmo contra a sua vontade. Agressões verbais e psicológicas também seriam comuns — em um episódio, o cantor teria ordenado que ela ficasse trancada em uma van por nove horas para testá-la.

Casamento com menor

Assim como tantas outras mulheres, McGee se envolveu com R. Kelly mesmo sabendo das diversas acusações que pairavam sobre o cantor. O primeiro escândalo envolvendo o artista veio à tona ainda em 1994, quando ele se casou com a cantora Aaliyah, sua pupila, quando ela tinha apenas 15 anos. Na docussérie, um antigo assistente pessoal de Kelly, Demetrius Smith, afirma ter forjado documentos falsos para que o patrão pudesse se casar com Aaliyah, que morreu aos 22 anos em um acidente de avião. Antes disso, o casamento foi anulado pelos pais da jovem estrela.

“Eu sabia das acusações, mas fiz vista grossa porque acreditava que, se ele foi absolvido, deveria ser inocente. Todos nós queremos acreditar nisso, até que acontece conosco, e aí é tarde demais”

Asante McGee ex-namorada de R. Kelly

Já em 2002, veio à tona uma fita em que Kelly aparecia abusando sexualmente e urinando em uma menor de idade. Ele chegou a ser preso no ano seguinte, mas o caso acabou sendo arquivado.

— Eu sabia das acusações, mas fiz vista grossa porque acreditava que, se ele foi absolvido, deveria ser inocente. Todos nós queremos acreditar nisso, até que acontece conosco, e aí é tarde demais — admite McGee, que também conta que foi seduzida pelo carisma do astro.

— Ele te encanta, te convence que as pessoas (que o acusam) estão com inveja dele, faz qualquer coisa para fazer te evitar perceber a verdade — completa ela, que foi uma das primeiras mulheres a acusar publicamente Kelly.

— Quando presenciei o que acontecia com as meninas e vi quão jovens elas eram, eu soube, sendo uma mulher mais velha, que eu não merecia isso, e essas jovens também não. Senti que era o meu dever como mãe. E como fui uma das últimas pessoas a ter ficado numa casa onde muitas coisas ruins aconteceram, fui capaz de descrever muito bem de que forma estávamos vivendo.

A acusação de que R. Kelly teria uma espécie de “culto” e manteria meninas em suas propriedades em Atlanta e Chicago surgiu primeiramente em uma reportagem do “BuzzFeed News” de 2017, na qual McGee, junto com pais de adolescentes que viviam com Kelly, eram as principais fontes. Na última quinta-feira, o programa da televisão americana “CBS This Morning” apresentou uma entrevista em que Kelly se defendia dessa acusação. McGee conta que não conseguiu assistir ao programa por completo.

— Assim que ele começou a gritar, isso serviu de gatilho para trazer à tona emoções e memórias traumatizantes, então tive que parar.

Ainda na CBS, duas de suas namoradas, Azriel Clary, de 21 anos, e Joycelyn Savage, de 23, o defenderam. Clary, que conheceu o cantor com 17 anos, negou ter mantido relações sexuais com ele quando ainda era adolescente, e atacou os próprios pais, que dizem que a filha está sendo manipulada. McGee defende que tirar essas jovens da órbita do cantor deve ser o foco dos envolvidos no caso.

— Estou feliz que ele esteja encarando um tribunal e tenha que pagar pelo que fez, mas para mim o mais importante é levar essas meninas de volta para casa — sustenta.

“Por ser quem ele é, as pessoas acreditam que estamos querendo derrubar mais um homem negro, quando racismo não tem nada a ver com isso. E como muitas de suas vítimas são mulheres negras, não somos levadas a sério”

Asante McGee ex-namorada de R. Kelly

Outra questão que “Sobreviver R. Kelly” despertou é como o caso teria criado uma fratura na comunidade afro-americana. No primeiro episódio da série, a escritora e crítica cultural Jamilah Lemieux pergunta por que revistas voltadas para o ativismo negro nos EUA, como “Ebony” e “Essence”, não questionaram, nos anos 1990, o relacionamento de Kelly com Aaliyah. Em seu auge, Kelly foi um dos maiores ícones do R&B e ajudou a revitalizar o gênero, que é um bastião da identidade afro-americana. Para McGee, o caso mostra como mulheres negras podem ser silenciadas quando o agressor é um homem negro que orgulha seus pares.

— Por ser quem ele é, as pessoas acreditam que estamos querendo derrubar mais um homem negro, quando racismo não tem nada a ver com isso. E como muitas de suas vítimas são mulheres negras, não somos levadas a sério — afirma.

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