terça-feira, outubro 5, 2021
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Érika Hilton: ‘Ameaças assustam, trato em terapia, mas não penso em recuar’

Há quase um ano, Érika Hilton (PSOL) exerce seu mandato na Câmara Municipal de São Paulo sob escolta policial. A vereadora, primeira transexual eleita para uma vaga na casa e mulher mais votada nas eleições de 2020, convive quase diariamente com ameaças de morte e ataques virtuais —que, algumas vezes, saíram da internet e ganharam a vida real, como em janeiro, quando um homem invadiu seu gabinete, agitado e portando símbolos religiosos, e deixou uma carta se identificando como um dos agressores que a atacam nas redes sociais.

Essa situação, conta a parlamentar, em entrevista por telefone a Universa, fez com que ela deixasse de circular pelo bairro onde mora e exercer atividades que antes eram comuns em sua rotina, como ir à padaria ou encontrar amigos em um bar.

Tenho trabalhado essas questões na terapia e levado todos os casos à Justiça, mas o impacto psicológico é adoecedor.

Na última semana, foi responsável por outro marco histórico na política brasileira: pela primeira vez, uma CPI foi instalada no Brasil para investigar a violência contra pessoas transexuais. O projeto, de sua autoria, tem como objetivo reunir dados, encontrar soluções e sensibilizar legisladores pela criação de novas políticas em defesa desta população.

Na entrevista a seguir, a vereadora de 28 anos fala sobre o combate à violência transfóbica desde a lesão corporal até o desrespeito ao nome social, conta como lida com as constantes ameaças e explica por que não celebra tanto assim o fato de ser a primeira travesti legisladora do município. Leia os melhores trechos:

UNIVERSA – A Câmara instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito de sua autoria para investigar a violência contra as pessoas trans e travestis na cidade de São Paulo. Qual é o cenário hoje?

ÉRIKA – O Brasil continua sendo o primeiro país do mundo que mais mata essa população, e mata com os piores resquícios de crueldade. Na cidade de São Paulo especificamente temos um número muito grande de pessoas trans que nasceram aqui ou que migraram de outras cidades e estados em busca de oportunidades. Por consequência, o número de relatos de agressões por transfobia é alarmante: 43% já foram vítimas de violência física, segundo o primeiro mapeamento da Prefeitura; entre as que realizam prostituição, a exposição à violência física é 50% maior.

Ter essa CPI acontecendo pela primeira vez no país e na maior Câmara Municipal da América Latina abre caminhos extremamente importantes, especialmente frente à negligência dos legisladores em relação a esta população.

A transfobia também aparece no atendimento em órgãos públicos, no desrespeito ao nome social e no despreparo dos agentes. De que formas a CPI pode atuar contra esse tipo de violência?

O carro-chefe da CPI é a violência que mata, claro, porque esta é a única violência que a gente não pode tentar contornar. Mas a violência estrutural também é gravíssima e gera ônus profundos na vida de pessoas trans —desde o direito ao uso do nome, que é violado constantemente, até o atendimento digno em hospitais e delegacias. Mesmo nas escolas há relatos diversos de transfobia. São pessoas que voltaram a estudar mas sofreram violências como o impedimento ao uso do banheiro e o desrespeito ao nome na lista de presença.

A CPI não pretende ser um espaço apenas para ficar remoendo essas violências, mas se propõe a ser um espaço de debate e resolução destes problemas. Queremos sensibilizar os legisladores e agentes públicos através dos dados e depoimentos que forem surgindo ao longo da Comissão. É urgente e necessário criar leis e políticas públicas para minimizar o sofrimento da população trans e travesti na cidade de São Paulo.

A LGBTfobia é considerada crime há mais de dois anos no Brasil e, como a senhora disse, somos o país que mais mata pessoas LGBTQIA+ no mundo. Mesmo assim, o reconhecimento do STF levou a pouquíssimas condenações. Por quê? E como garantir que a lei seja aplicada?

Um dos primeiros pontos é que a gente não tem de fato uma lei que criminalize a LGBTfobia, o que temos é o entendimento do STF de que essa é uma prática equiparada ao crime de racismo. Depois, ainda são precisas muitas provas para registrar essa violência. Pessoas trans e travestis já sofrem um desrespeito muito grande, descrédito da sociedade, como vão provar que foram humilhadas ou xingadas se não estavam filmando na hora?

É preciso qualificar profissionais para atender as vítimas e garantir que a lei possa ser aplicada sem a necessidade de tantas provas.

E um terceiro fator é a dificuldade de acesso à Justiça —poucas pessoas conhecem seus direitos e infelizmente no nosso país o acesso à Justiça é limitado, especialmente para a população T, que é em sua maioria de baixa renda e com pouca escolaridade.

Em quase dois anos de mandato, a senhora sofreu ameaças virtuais e físicas, como a de um homem que a ameaçou com uma “38 na testa” e de outro que invadiu seu gabinete, agitado e portando símbolos religiosos. Sente medo? E como lida com ele?

Tenho medo, claro, a gente tem a história de Marielle Franco como exemplo do que pode acontecer com uma mulher negra e LGBTQIA+ que defende direitos humanos no Brasil. O medo tem o poder de nos paralisar e todas essas ameaças e ataques são tentativas de me paralisar, me intimidar para ver se eu desisto.

As ameaças e ataques que acontecem fora da internet me assustam mais, porque são pessoas que saíram do anonimato e decidiram me confrontar na vida real. Quando a violência segue no ambiente virtual a gente tem uma sensação de covardia, de alguém que está se escondendo atrás de um perfil, mas quando a pessoa se materializa na sua frente você percebe que ela está realmente disposta a cometer aquela violência que está ameaçando na internet.

Tenho trabalhado essas questões na terapia e levado todos os casos à Justiça, para que identifiquem e punam os agressores conforme a lei. A Justiça é bastante lenta e é preciso ter paciência, mas eu tenho esperança. Quanto mais medo eu sinto, mais forte eu me torno e mais certa do que estou fazendo eu fico.

O que mudou na sua rotina por causa das ameaças?

Ficou bastante conturbada. É muito difícil. Precisei solicitar escolta, redobrar cuidados com a minha segurança. Perdi minha liberdade e acho isso tão grave para a democracia. Eu não ando nas ruas, não circulo no meu bairro, não vou à padaria e preciso me exercitar acompanhada de um segurança. Deixei de ter uma vida de lazer, de bar, de diversão com a frequência que eu tinha, porque sair é estar exposta a qualquer tipo de perigo e violência. O impacto psicológico disso é adoecedor. Estamos há um ano nesta realidade, mas continua angustiante, desesperador.

Alguns de seus colegas de partido, como o deputado Jean Wyllis e a vereadora Benny Briolly, deixaram o Brasil por causa de ameaças. Já considerou essa possibilidade?

Nunca pensei em sair do Brasil. Essa possibilidade já surgiu e eu respondi: “Não vou”. Não queria deixar o meu país e achava que se eu saísse do Brasil seria um retrocesso, eu estaria recuando. Amo o Brasil e acredito no papel que eu tenho neste país. Não sairei daqui a não ser que realmente não exista outra opção, mas enquanto houver a possibilidade de continuar trabalhando e ajudando a construir um Brasil melhor do este que estamos vendo hoje, não deixarei esta nação.

Sua legislatura tem pelo menos dois vereadores LGBTs no campo da direita: Fernando Holiday (Novo), que é gay, e Thammy Miranda (PL), que é um homem trans. Como você vê a candidatura de pessoas LGBTQIA+ em partidos de direita? Acredita que essa representatividade é positiva?

O que eu percebo é que são marionetes sendo utilizadas para representar interesses que jamais foram da nossa população. São pessoas LGBTQIA+ que estão no Parlamento, mas que não representam avanços em relação à dignidade das nossas pessoas, não têm compromissos com as nossas pautas. Eu avalio como uma representatividade vazia, usada para fazer aquilo que quer a direita —ou a extrema-direita, no caso do Fernando Holiday, que é do MBL [Movimento Brasil Livre]— e não acho que seja algo a se comemorar. Não há por que celebrar um corpo LGBTQIA+ que vai na contramão dos nossos direitos. [Thammy Miranda foi convidado pela vereadora Érika Hilton, mas não participa da comissão].

A senhora sente dificuldade para tratar de outros temas na Câmara que não estejam ligados a gênero e sexualidade? Como sua atuação em outras áreas, como habitação e economia, é recebida pelos colegas parlamentares?

Eu não tenho sentido dificuldade de tratar outros temas. Eu tenho me colocado, participado de outras discussões, como a do SampaPrev [proposta de nova reforma da previdência no município]. Também estou muito envolvida nos debates sobre esportes, população em situação de rua, ocupações e despejos. Tanto na Comissão [de Direitos Humanos da Câmara] quanto no meu mandato tenho trabalhado com questões que transbordam questões de raça, gênero e sexualidade.

É importante quebrar com esse olhar de que nós, pessoas LGBTQIA+, só temos capacidade de tratar desses temas, como se não tivéssemos sido eleitas para falar sobre todas as demais questões da cidade. Seria muito limitante.

Mas estas são pautas centrais da minha atuação e aparecem quando vamos falar de qualquer outro tema. Quando vou à Cracolândia atuar, por exemplo, na questão da violência da GCM [Guarda Civil Metropolitana] contra aquela população, não estamos discutindo apenas questões de raça e de sexualidade, mas também estamos falando disso, assim como estamos falando sobre habitação, serviço social, saúde pública.

Quando foi eleita, muitos celebraram o fato de ser a primeira mulher trans a ocupar uma cadeira na Câmara, mas a senhora não celebra esse pioneirismo. Por quê?

É positivo, mas não é só positivo. Às vezes as pessoas romantizam o fato de eu ter sido a primeira e esquecem a realidade. O fato de que apenas em 2020 uma mulher trans foi eleita para a Câmara Municipal de São Paulo mostra a precariedade do acesso da nossa população à política e quantas mulheres antes de mim lutaram para estar onde eu estou, mas não conseguiram. Ser a primeira é celebrativo, sem sombra de dúvidas, porque minha eleição é um reflexo das nossas lutas, mas não podemos apenas celebrar, ignorando o fato de que a nossa sociedade é transfóbica, mata e impede que mulheres iguais a mim possam ocupar estes espaços.

A senhora foi expulsa de casa na adolescência e esteve na prostituição, realidade de 90% das mulheres trans no Brasil, segundo a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), mas se tornou parlamentar e exerce um cargo de poder. O que é preciso fazer para que sua trajetória deixe de ser exceção?

O primeiro passo é reeducar a sociedade, que foi ensinada a olhar para corpos transexuais com preconceito, e conseguir, através de políticas públicas e projetos de lei a dignidade e a cidadania para esta população. É preciso garantir o debate de gênero nas escolas e a presença dessas pessoas no ambiente escolar, com segurança para que possam estudar, se formar e ter uma qualificação profissional. A consequência disso será a entrada delas no mercado formal de trabalho e o alívio de uma trajetória de rejeição, violência e prostituição, que ainda é a única possibilidade de sobrevivência para muitas de nós. Esse é o caminho mais garantido.

Nossa luta é árdua, longa e demanda a contribuição de toda a sociedade. Combater a homofobia e a transfobia são princípios humanitários e não apenas identitários.

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