Erradicar a fome

As fomes são diferentes, são tantas, e precisam ter fim para que tomemos melhores decisões individuais e coletivas

FONTEO Globo, por Télio Navega
Foto: Getty Images/iStockphoto

O título desta coluna deveria ser “e não vai estragar a chapa da casa de ninguém”, mas não caberia. As chapas são na verdade folhas de zinco, aquele elemento essencial para a saúde humana, que ajuda na cicatrização da pele, na memória, previne diabetes.

O zinco, por não sofrer corrosão, é bastante usado na galvanização do aço e do ferro. “Casas de chapa” são feitas de folhas de zinco e, apesar da romantização do “morro com seus barracões de zinco, quando amanhece que esplendor”, a sensação térmica dentro dessas casas pode chegar a níveis absurdos, um forno humano.

Uma casa inteiramente feita de chapa é uma habitação pobre, e não por acaso foi a primeira moradia da minha avó quando chegou ao Rio. Elizeth Cardoso, Beth Carvalho, Zeca Pagodinho e tantos outros cantaram: “Barracão de zinco, tradição do meu país”.

Por vezes, até dava para construir as paredes de tijolo, mas o telhado continuava de zinco.

Assim, mesmo uma bênção, quando cai do céu, precisa ter o cuidado de não estragar a chapa. Entende?

Preciso voltar um pouco no tempo.

Há alguns dias, conheci finalmente a província do Huambo. Bom, conhecer não é bem a palavra, foram menos de 72 horas na cidade. O Huambo chegou a ser capital, foi chamada de Nova Lisboa e, mesmo em 72 horas, é fácil perceber por que Angola teve uma das maiores guerras de libertação do continente e o motivo de os colonizadores não quererem sair daqui.

Eu já havia ouvido falar muito de como Huambo é diferente de Luanda, quase uma rixa Rio-São Paulo-Minas, do litoral e do interior. Linha férrea, ovimbundos, caminhos largos, limpeza, universidades, umbundo falado pelas ruas, chuva e muitos jovens.

Na minha última noite, dois deles sentaram na mesa que eu ocupava sozinha. No puxar das conversas, o desenvolvimento do país era tema principal e um deles disse uma daquelas frases que silenciam a mesa do bar:

— O problema é que aqui trabalhamos pela fome, depois pelo sonho. Precisa primeiro erradicar a sua própria fome, para depois conseguir tomar boas decisões.

No dia seguinte, já em Luanda, ouvir o novo hit “Chuva de comida” caiu como uma luva em todas as conversas do passado e do futuro.

O angolano Rap Gang, o cantor e compositor da música ‘Chuva de comida’ — Foto: Divulgação

Rap Gang, o cantor e compositor da música, lista dezenas de “bênçãos” que cairão do céu em forma de chuva. A comida é a principal delas, mas também caem colchões de mola, mulheres russas, motos, carros, camas com lençóis, sacos de cimento, prédios, mobílias… Quem ocupar ocupou, porque ninguém virá reclamar. Os bancos e lojas não terão mais guardas, os funcionários não precisarão mais trabalhar, os mendigos vão dormir em cima de dinheiro. O melhor é que isso não vai acontecer só em Angola, isso é para todo o planeta. Visivelmente uma mistura de comunismo com apocalipse.

Mas sabe o melhor mesmo? Ainda que tudo isso caia do céu, milagrosamente, não vai estragar a chapa da casa de ninguém!

Antes do rapper-kudurista, os Titãs já cantaram que “a gente não quer só comida”. As fomes são diferentes, são tantas, e precisam ser emergencialmente erradicadas para que tomemos melhores decisões individuais e coletivas, principalmente decisões políticas. Porque são essas decisões capazes de estragar a casa de tanta gente, especialmente dos que ainda têm a casa inteira feita de chapa.

Era para ter sido uma mulher preta. Entende?

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