‘Escravo’, ‘urubu’: crianças são vítimas de racismo; denúncias passam de 3 mil em escolas estaduais em SP em 2023

Casos de bullying e humilhação também cresceram nos últimos anos. Número foi obtido com exclusividade pela reportagem do SP1, via Lei de Acesso à Informação, e alerta para a gravidade do problema dentro do ambiente escolar no estado.

Mais de 3 mil denúncias de discriminação em escolas estaduais de São Paulo foram registradas somente em 2023. Os casos aumentaram 500% nos últimos 5 anos.

O número foi obtido com exclusividade pela reportagem do SP1, via Lei de Acesso à Informação, e alerta para a gravidade do problema dentro do ambiente escolar no estado. Os números abaixo são referentes ao primeiro semestre de cada ano:

  • 2019: 599 denúncias de racismo
  • 2020 (ano de pandemia): 1 denúncia
  • 2021: 240 denúncias
  • 2022: 2.489 denúncias
  • 2023: 3.330 denúncias

Em três anos, o Estado de São Paulo viu quadruplicar o número de boletins de ocorrência envolvendo casos de discriminação racial em unidades escolares: de nove registros em 2019, as ocorrências passaram para 49 registros no ano passado.

Em 2015, apenas 14 boletins foram registrados no ano. Nos primeiros sete meses de 2023, já concentram 32 registros, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP).

Para além da denúncia, as famílias precisam percorrer um longo caminho para provar os casos de racismo contra seus filhos.

Aluna de seis anos agredida

Em junho deste ano, o diretor da Escola Estadual Adelina Issa Ashcar, na Zona Sul de São Paulo, perdeu o cargo após a mãe de uma aluna de 6 anos denunciar omissão por parte do colégio.

A criança foi vítima de agressão e racismo e transferida de escola. A Secretaria da Educação concluiu as investigações e decidiu pela “cessação da designação de diretor”. Inicialmente, ele tinha sido afastado por 24 dias.

A mãe da menina contou que em maio, a filha chegou em casas com diversos hematomas e que a escola pouco fez para acolher a família e apurar o caso.

As lesões aconteceram nos olhos, quadril e virilha — e teriam sido provocadas por outras duas crianças da mesma faixa de idade. Ela também foi xingada de “feia”, “cabelo feio” e “urubu”.

“Eles disseram que era normal e que minha filha tinha que ter falado na hora. Que ela ia ter que falar. Eu tive que mostrar as lesões no corpo da minha filha. O diretor disse que não estava vendo nada e se isso não poderia ter ocorrido dentro da minha casa”, relatou a mãe à época.

Dados sobre bullying e humilhação

Números relativos ao primeiro semestre de cada ano:

  • Em 2019, foram 1.928 casos de bullying e humilhação registrados nas escolas da rede estadual de SP
  • Em 2020, ano da pandemia, apenas dois casos
  • Em 2021, 386 registros
  • Em 2022, 4.739 casos
  • Já em 2023, foram 7.056 casos.

Aluno de 12 anos chamado de escravo

Luiz Fernando de Jesus, pai de um adolescente de 12 anos, fez dois boletins de ocorrência por conta das ofensas que o filho sofreu por colegas de classe na Escola Municipal Ângelo Rafael Pellegrino, em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo.

“Todas as vezes que aconteceram, a gente procurou a direção da escola, a coordenação, para buscar uma solução. Todas as vezes, ignoraram”, disse.

“As agressões continuaram a ponto de o aluno se sentir à vontade de chegar para meu filho e dizer se ele não queria ser o escravo de estimação dele”, contou o pai.

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