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Eu greto. Tu gretas?

Ela transformou-se na figura símbolo de uma juventude que se mobiliza

Por FLÁVIA OLIVEIRA, do O Globo

FLÁVIA OLIVEIRA/Foto Marta Azevedo

Experimente digitar no buscador mais usado do planeta o nome de Greta Thunberg. No meu caso, a pirralha içada a pessoa do ano pela revista “Time” apareceu em 198 milhões de referências — e contando —numa fração de segundos. Jair Bolsonaro, o chefe de Estado que emprestou à estudante e ativista a alcunha, contabilizou 85 milhões de referências. O exercício dá a medida da relevância que a jovem sueca alcançou neste 2019 em que o planeta se polarizou entre quem age para livrá-lo da emergência climática e quem a nega ou minimiza. A adolescente virou sinônimo do inconformismo com a destruição do meio ambiente; encarna uma geração que, crescentemente, abraça os princípios da preservação. Sugiro torná-la verbo: eu greto. Tu gretas?

Duas décadas atrás, a revista americana, adequando-se aos tempos do apreço pela diversidade de gênero, trocou man (homem) por person (pessoa) para designar o destaque — para o bem ou para o mal — de cada ano. Na virada do século, a publicação intensificou a substituição de indivíduos por grupos ou ideias. Assim, em 2006 na capa You (você) indicou os criadores de conteúdo na internet; em 2011, os manifestantes da Primavera Árabe e dos movimentos Occupy Wall Street e Tea Party; três anos depois, os combatentes do vírus ebola; em 2017, as mulheres que denunciaram assédio e abuso sexuais na campanha Me Too; no ano passado, jornalistas que sofreram perseguição, prisão ou assassinato pelo exercício da profissão.

À primeira vista, a escolha Greta Thunberg na capa da “Time” sugere uma volta ao personalismo. Não é. Sob o nome da ativista, quatro palavras resumem o sentido do reconhecimento: o poder da juventude. Faltasse o detalhe, a declaração da jovem ao comentar a notícia eliminaria dúvidas. “Divido essa grande honra com todos do movimento #FridaysForFuture (a greve pelo clima que ela iniciou sozinha em 2018 e, em março passado, mobilizou dois milhões de estudantes em 135 países) e ativistas climáticos de todos os cantos”, escreveu diretamente da COP-25, em Madri.

Greta transformou-se na figura símbolo de uma juventude que se mobiliza por mudanças e direitos nas ruas e nas redes. Se uma pirralha incomoda um ou dois presidentes, como o brasileiro Bolsonaro e o americano Donald Trump, o coletivo incomoda muito mais. Planeta afora, a insatisfação da juventude é evidente e se ampara em indicadores objetivos. Faltam políticas públicas orientadas à faixa etária que mais sofre com o desemprego, o aumento da desigualdade e, de quebra, está com o futuro ameaçado pela urgência climática. Em pesquisa da Anistia Internacional com dez mil jovens, 41% consideraram mudança climática uma das questões mais importantes do mundo.

Nos EUA, um ano e meio atrás, a mais impressionante manifestação pelo controle de armas partiu de um grupo de jovens sobreviventes do massacre numa escola de ensino médio da Flórida. Em fevereiro de 2018, um atirador matou 17 pessoas e feriu 15. Emma González, então com 19 anos, fez um discurso pelo desarmamento, que viralizou e a fez líder do movimento Never Again (nunca mais). A Primavera Árabe teve protagonismo juvenil, bem como as manifestações por democracia que tomam Hong Kong desde junho e os protestos que fizeram o Chile tremer.

No Brasil, a onda mais significativa de manifestações contra o governo Bolsonaro eclodiu do movimento secundarista. Alunos do Colégio Pedro II no Rio começaram marchando na Tijuca, Zona Norte carioca, contra o contingenciamento de verbas pelo Ministério da Educação. Acabaram arrastando multidões de alunos do ensino médio e universitários pelas principais cidades brasileiras, entre maio e junho passados. Quando as queimadas na Amazônia ganharam as manchetes, a juventude tomou a Cinelândia pela preservação da floresta. Também foram jovens os que primeiro foram às ruas em 2013 contra o aumento das passagens de ônibus.

O país vive o pico da população de 15 a 29 anos. São cerca de 50 milhões de brasileiros expostos a formação regular e profissional deficientes, altos níveis de desemprego e informalidade, renda achatada. Estudo da FGV Social, com base nos dados da Pnad Contínua do IBGE, mostrou que a juventude foi o grupo que mais perdeu rendimento do trabalho nos últimos cinco anos. Do quarto trimestre de 2014 ao segundo trimestre de 2019, houve queda real de 14,66%. Ao todo, 30% das moças e 18% dos rapazes nem estudam nem trabalham, informa o economista Marcelo Neri, responsável pelo levantamento. Aqui e lá fora, a juventude tem um rol de legítima luta por direitos. E aprendeu a gretar.

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