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É Coisa de Criança!

Essa frase corriqueira que muitas de nós ouvimos durante a infância e segue sendo reproduzida na adolescência, na fase adulta e na velhice é a frase que utilizo para aproximar você leitora e convocá-las a refletir sobre sua infância ou complexizar as inúmeras vezes que já ouviu quando criança ou proferiu quando adulto a frase “É coisa de criança”.

Por Cintia Cardoso, enviado para o Portal Geledés 

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Para compreender os motivos, que me faz abordar a violência contra a mulher que vão sendo estabelecidas desde a infância e partir dessa frase “É coisa de criança” é por considerar que nós mulheres somos atingidas por opressões já no início da vida. E como aponta a escritora Conceição Evaristo, a experiência é fundamental para a constituição dos sujeitos e ela se inscreve na vida e nos modos como ela se organiza das suas experiências e daquilo que lhe constitui como sujeito. Então a experiência de situações opressoras se inicia desde a tão tenra idade e afetam todas as dimensões da vida da mulher.

Pensar na naturalização das ações humanas, no interior das relações revela e faz emergir tensões, nenhuma identidade se constitui no isolamento.

“Por isso a necessidade de compreender que quando estamos falando de sujeitos isso perpassa por uma constituição relacional de identidades e os modos pelo qual a raça como construto social está presente nos processos sociais de constituição da pessoa”, (NUNES, 2016, p. 388), determinando lugares na estrutura social para os sujeitos. 

Numa sociedade estruturada pelo racismo, machismo, sexismo me movimentei no campo das relações raciais compreendendo que não há uma cultura infantil desprovida da influência das opressões estruturais dentre elas o racismo, num país atravessado por tensões entre negros e brancos para refletir o peso da frase “É coisa de criança” para nós mulheres negras. Afinal é necessário refletir quais as condições materiais que meninas negras exercerem suas agências e que implicações na vida prática existem para este exercício se efetivar. 

Para Gomes (2000), refletir sobre relações raciais nos coloca no centro de processos coletivos e públicos. Por isso, é preciso questionar todos os sujeitos que pertencem a diferentes segmentos étnico-raciais e afastar-se de argumentos que se limitam a olhar apenas para os negros quando se fala em questão racial, guiadas pela ideia de racialidade somente do negro impedindo de identificar onde estão os demais grupos também racializados nestes processos de desigualdades. Tal modo que opera e estrutura as relações raciais brasileiras.

Alguns trabalhos acadêmicos na área da educação desenvolvidos mais especificamente no âmbito dos estudos sobre relações raciais no Brasil foram primordiais para colocar como pauta social o racismo e a discriminação racial. Sem dúvida as pesquisas acadêmicas e os movimentos negros como atores sociais têm evidenciado essa persistente desigualdade racial, o que foi de grande relevância para contribuir com proposições de políticas públicas para educação, e acima de tudo atestando o quanto o racismo como forma de maus tratos está presente já nas primeiras manifestações sociais da criança. 

As crianças negras são violentadas, sobretudo meninas negras, (fazendo o recorte de gênero). 

Do silêncio do Lar ao Silêncio escolar, Eliane Cavalleiro (1998), em seu estudo problematiza o quanto o racismo, o preconceito e a discriminação racial estão presentes nas estruturas societárias. Do lar ao escolar crianças negras vivenciam. “a natureza violenta da discriminação racial que faz dela uma das espécies mais infames de maus-tratos, Silva Jr.

Estamos falando de relações societárias constituídas e instituídas no ceio da sociedade nos diversos campos da vida. 

  Outro trabalho que nos auxilia a visualizar o quanto o racismo é nefasto no processo de constituição da identidade da criança negra é da autora Fabiana Oliveira (2004) que em sua pesquisa explicita as formas diferenciadas de tratamento direcionadas à bebês negras e brancas por parte das profissionais gerando exclusão, essa diferenciação de tratamento foi denominada pela autora de paparicação. Ou seja, as crianças negras são negadas, um olhar sensível, um toque, um afeto. 

Para Silva Jr. (2002), o racismo é uma rede complexa de ações pautadas na violência física ou simbólica.

Mas vamos a situações práticas do cotidiano quando crianças brancas se recusam a interagir com crianças negras, a darem as mãos, sentarem ao lado de crianças negras, quando os meninos brancos não querem formar par com as meninas negras por considerarem sujas feias, essas ações são consideradas por muitos, atitudes inocentes de crianças.

Nesse sentido Abramowicz, Oliveira nos falam que “crianças aos quatro anos de idade já passaram por processos de subjetivação que as levaram a concepções já tão arraigadas no imaginário social sobre o branco e o negro e consequentemente sobre as positividades e negatividades atribuídas a um e outro grupo racial”.

A criança negra já na infância conta com menos vantagens raciais do que a criança branca na maneira como se configura as relações étnico-raciais na sociedade. São constatações que ecoam em várias partes do mundo.

Em um recente estudo intitulado: Questionando a inocência: “Infância” como prática social excludente, (2019), a Julie Garden autora parte do questionamento em torno da ideia de inocência- prática social- brancura, construídas socialmente.

 Através de fontes historiográficas estadunidenses, examina a infância desde a escravidão até os direitos civis, na perspectiva de uma prática social excludente.

 Ao analisar a infância como prática social e a noção de inocência utiliza a raça como uma variável importante que “[…] regula noções raciais ao produzir uma “infância” particular que perpetua a supremacia branca.” (GARLEN, 2019, p.3).

Garlen, ao analisar a questão da inocência no contexto dos Estados Unidos afirma que existe um encobertamento de práticas sociais racistas, em que desde os primórdios datados no período da escravidão o ideal de infância está calcado na classe, no patriarcado, privilégio exclusivo da população branca, cheia de propósitos, “a criança branca inocente se tornou a materialização do potencial humano, e por associação, uma medida de humanidade”. (GARLEN, 2019, p. 11). 

Como abordei em outro estudo (CARDOSO, 2018), as crianças brancas seguem herdando esse lugar de humano universal, o de destaque, de positividade, mesmo nesta nova sociologia da infância, variáveis como a raça, são abordadas, porém não com a complexidade que a temática merece. 

As crianças brancas são estimuladas a fazerem uso do privilégio da brancura. Esse silêncio sobre a branquitude reforça a falta de reflexão do branco como parte fundamental desta relação desigual, a manutenção desse grupo “invisível” nas discussões sobre relações sociais acaba por legitimar uma grave omissão que sustenta a perversidade do racismo e dificulta uma ação antirracista sem problematizar que as vantagens sociais guiadas pela ideia de racialidade somente do negro impede de identificar onde estão os brancos neste processo de desigualdade. 

Tal modo de operar estrutura as relações raciais brasileiras e que incide diretamente nas culturas infantis, “os resquícios sociais da hierarquização cultural. 

continuam habitando os imaginários e moldando os olhares dos sujeitos, trazendo prejuízos gravíssimos à construção de uma sociedade plural e que respeita a diversidade que a compõe” (FLORIANÓPOLIS, 2016, p. 17).

Conforme Garlen (2019, p.12), “Crianças negras não dispõem da mesma presunção de inocência das crianças brancas […]”. 

As crianças brancas estão apreendendo uma maneira de estar no mundo como um sujeito branco, a elas não tem sido dada a oportunidade de se constituírem questionando ideologias preconceituosas, pois vivenciam cotidianamente a violência dirigida aos seus pares não brancos e acabam por apreender a superioridade como herdeiros da brancura.

A ausência de reflexão sobre a intersecção entre gênero, raça e geração, interage para moldar as violências que atingem as mulheres negras e se refletem quando suas pautas específicas são violentamente silenciadas e não nomeadas inclusive dentro dos feminismos que partem das putas de mulheres brancas. 

A intersecção raça, gênero dão conta de explicar o porquê à morte materna e perinatal das mulheres negras é sete vezes maior em relação às mulheres brancas, o feminicídio entre as mulheres negras teve um aumento de 54% isso se tratando na área da saúde, outros indicadores sociais como renda, trabalho, escolaridade expressam a estratificação social.

E neste bojo que urge repensarmos desde a infância a que experiências meninos e meninas brancas, negras, e tantas outras tem construídos suas identidades de maneira a romper em determinados momentos com esta estrutura que os aprisionam na reprodução de violências coloniais, como não dar a mão para a colega por ser negra, não sentar ao lado, NÃO! NÃO É, UMA SIMPLES COISA DE CRIANÇA!


REFERÊNCIAS

CARDOSO, C. Branquitude na Educação Infantil: Um Estudo sobre a Educação das Relações Étnico-Raciais em uma Unidade Educativa do Município de Florianópolis. 2018. 190 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2018.

 

CAVALLEIRO, E. S. Do Silêncio do lar ao silêncio escolar. São Paulo, 1998. Dissert. (mestr.) Faculdade de Educação/USP.

 

FLORIANÓPOLIS. Prefeitura Municipal. Matriz Curricular para Educação das Relações Étnico-Raciais na Educação Básica. Florianópolis, SC: Prefeitura Municipal de Florianópolis; Secretaria Municipal de Educação, 2016. 

 

GARLEN, Julie C. Interrogating innocence: “Childhood” as exclusionary social practice. In: Childhood 2019, Vol. 26(1) 54 –67.

GOMES, N. L. Educação e identidade negra. Aletria: Alteridades em questão. Belo Horizonte, v. 6, n. 9, p. 38-47, dez. 2002.

 

NUNES, M. D. F. “Cadê as crianças negras que estão aqui?” O racismo (não) comeu”. Latitude, v. 10, n. 2, p. 383-423, 2016. 

NUNES, M. D. F.; CORREA, L. J. L. As Crianças Negras vistas pela Sociologia da Infância no Brasil: uma revisão de literatura. Saber & Educar, v. 21, p. 86-97, 2016.

 

OLIVEIRA, F. de. Um estudo sobre a creche: o que as práticas educativas produzem e revelam sobre a questão racial? 2004. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de São Carlos, 2004.

 

SILVA JR., Hédio. Direito de Igualdade Racial: aspectos constitucionais, civis e penais: doutrina e jurisprudência. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira, 2002.


** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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