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“Existe uma guerra contra pessoas”, diz ativista sobre ação da PM na Favela do Moinho

“Existe uma guerra contra pessoas”, diz ativista sobre ação da PM na Favela do Moinho

Nathália Oliveira, do INNPD, avalia que caso é um dos reflexos da atual política de drogas adotada pelo governo

Por Rute Pina, do Brasil de Fato 

 
 
 

Debate ocorreu nesta terça-feira (27), no Aparelha Luzia, em São Paulo / Pedro Borges

A ação policial que ocorreu na manhã desta terça-feira (27) na Favela do Moinho, no centro da cidade de São Paulo, e que matou Leandro de Souza Santos, de 18 anos, é um símbolo de que o Estado se utiliza da atual política de drogas — centrada na punição do usuário e na proibição das substâncias — para justificar ações em territórios onde estão em disputa interesses imobiliários e econômicos. A avaliação é de Nathalia Oliveira, coordenadora da Iniciativa Negra por Uma Nova Política sobre Drogas (INNPD).

A operação, de acordo com a Polícia Militar, visava fechar “laboratórios de crack” no território. “O que aconteceu no Moinho hoje é mais uma demonstração gratuita de violência do estado”, disse a ativista. “Eles dizem que é para combater o tráfico de drogas, mas a gente sabe que esta guerra é contra as pessoas”, completou. Ela participou, nesta tarde, do debate “Criminalização de territórios pobres a partir das políticas de drogas”, no Aparelha Luiza, espaço cultural denominado como “quilombo urbano” no centro da capital paulista. O evento ocorreu a poucas quadras da Favela do Moinho.

O evento faz parte da semana “As múltiplas faces das políticas de drogas em SP”, que começou na segunda-feira (26), dia mundial designado pela ONU para a campanha “Acolha, não puna” de política de combate às drogas. O ciclo debates é organizado por diversas entidades que atuam no campo das drogas na capital paulista e no Estado, como a INNPD e a Plataforma Brasileira de Política de Drogas.

“Essa semana marca que não vai existir a construção de uma política de drogas se ela não olhar para várias abordagens que são necessárias, se ela não tiver recorte de gênero e de raça. Precisamos de uma política que não alimente a lógica de guerra”, afirmou a coordenadora.

A militante da Marcha das Mulheres Negras Juliana Gonçalves, jornalista que compõe a equipe do Brasil de Fato, também participou do debate. Para ela, a ação no Moinho e na região da Luz, no fluxo conhecido como Cracolândia, é um projeto, em curso, de higienização e criminalização da pobreza — que tem como principal alvo a juventude negra das periferias.

E, na opinião da jornalista, a Polícia Militar se utilizou do endurecimento da política drogas em 2006 para “justificar todo tipo de atrocidades”. Pela atual legislação, é de competência do agente público que faz a abordagem considerar a quantidade de droga apreendida como “para uso” ou “para o tráfico”. Ela cita a prisão de Rafael Braga e o assassinato de Luana Barbosa, mulher negra que foi agredida e assassinada por policiais em abril de 2016.

“Dirigir uma moto pode ser um ato suspeito, dependendo de quem você é e da cor da sua pele”, diz Gonçalves. “Essa lógica de ‘você não pode parecer culpado’ permeia a criação dos meninos na periferia. É uma lógica de evitar que te percebam e que te parem. Um menino negro, correndo, já pode ser considerado culpado”, avaliou a militante.

Bruno Ramos, da Liga do Funk, pontuou a necessidade em se dialogar com a juventude das periferias e “traduzir” os debates do ativismo e da produção das universidades brasileiras sobre o tema das drogas. “É essa molecada, por falta de oportunidade, que ainda está na ponta da lojinha [tráfico]”, disse.

A programação da semana “As múltiplas faces das políticas de drogas em SP” continua nos próximos dias e você pode conferir a agenda completa do ciclo de debates aqui.

Violência policial

De acordo com o levantamento realizado pelo Atlas da Segurança Pública, em dez anos, quase 320 mil jovens brasileiros, em sua maioria negros, tiveram a vida interrompida precocemente em casos de homicídio.

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