Fátima Oliveira: O Taj Mahal reconhece de longe o perfume que uso

Do perfume e de suas finalidades espirituais, religiosas e sociais
OS TEMPLOS DA ASSÍRIA POSSUÍAM UM MESTRE PERFUMISTA

Fátima Oliveira, no Jornal OTEMPO

Sou de uma família que gosta de perfumes. Todos na casa de minha avó e de minha mãe possuíam um vidrinho de perfume todo seu. Em geral, uma água de colônia. Criei o hábito em minha casa, e minhas filhas, nas delas. Família perfumada é uma tradição muito nossa, já que não consideramos perfume algo supérfluo.

Minha avó Maria dizia que ao sair de casa temos de passar um “perfuminho” como proteção, para afastar mau olhado… Ela entendia que o perfume contém o sagrado. Não sem razão. Há relatos bíblicos sobre essências aromáticas. Todos os templos da Assíria, da Babilônia, do Egito, da Grécia e de Roma possuíam um mestre perfumista.

Parei de escrever para olhar o que tenho em uso: Alfazema Provençal, Thaty e Chanel nº 5, que meu mangalarga marchador, o Taj Mahal, reconhece de longe… Certa vez ele ficou arisco, e cheirou-me da cabeça aos pés, quando fui montá-lo usando outro perfume (há testemunhas, e muitas!). Cavalos reconhecem as pessoas pelo cheiro delas.

Sabine Le Camus, professora do Instituto Superior Internacional do Perfume, da Cosmética e da Aromática Alimentar, diz que “o sistema olfativo está ligado ao sistema límbico, área do cérebro que controla as emoções e a memória”, logo, “o cérebro consegue associar um cheiro a lembranças, mesmo as mais distantes”. Ela utiliza aromas para auxiliar doentes na recuperação da memória.

Em meu romance “Reencontros na Travessia: A tradição das Carpideiras”, o capítulo 4, denominado “A penteadeira de perfumes da Tia Lali”, diz que ela “era uma mulher de vida simples, fora os ‘perfumes do estrangeiro’ que ela sempre gostou muito… Ela adorava perfumes, que eram sua marca registrada. Só ela? Não, suas colegas de cantorias de incelências também” (Mazza Edições, 2008). Aliás, o romance citado tem muito a ver com odores, memória olfativa em geral; nele escrevi que “a história do perfume remonta a tempos imemoriais e se confunde com a do incenso… Os aromas induzem ao prazer olfativo, podendo fornecer bem-estar mental e espiritual”.

No capítulo 2, “Um aroma de Fleur de Rocaille”, quando do reencontro de Cássia com Pablo, ela diz: “Fui transportada para um túnel do tempo. Estava diante de um jovem de 20 anos que gargalhava de uma forma que me enlouquecia, por quem fui apaixonada por um tempão. Jamais fui namorada dele. Mas vê-lo naquele momento de muita dor, enternecia-me, mesmo que ele só tivesse segurado a minha mão uma vez, e eu tenha ficado horas e horas sem lavá-las, pois queria ficar impregnada daquela colônia de que até hoje sinto a fragrância. Perguntei-lhe qual era o nome daquele cheiro, e ele respondeu: ‘Fleur de Rocaille. É uma colônia da mamãe, que gosto de usar de vez em quando'”.

Ainda na narrativa de Cássia: “Por que as carpideiras gostam de perfumes? Para mim, a explicação é elementar. O perfume possui várias finalidades, desde as espirituais e religiosas às sociais… O perfume tem que ver com o nome original, do latim per fumum, que significa ‘através da fumaça’, numa referência a invocar Deus através da fumaça. Valer-se da fumaça para invocar Deus faz parte de rituais religiosos, sobretudo pela queima de ervas que liberam cheiros e de incensos de diferentes aromas. É simples a razão, pois um cheiro ou uma mensagem aromática, ao chegar ao sistema límbico – o centro de memória, sentimentos e emoções -, induz sensações neuroquímicas, desencadeando euforia, relaxamento e sedação”.

Diante do que compartilho da ideia de que o amor é também uma questão de odor.

 

 

Fonte: Viomundo

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