sexta-feira, dezembro 9, 2022
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Festival mostra que rap não ficou parado no tempo

Por: Pedro Alexandre Sanches

 

Pedro Paulo Soares Pereira, o Mano Brown, tem 39 anos (nasceu em 22 de abril, o dia do descobrimento do Brasil) e é o principal nome do hip-hop brasileiro. Leandro Roque de Oliveira, o Emicida, tem 24 anos e é uma das vozes mais eloquentes do rap nacional destes anos 2000. Neste fim-de-semana, os dois estiveram juntos e separados em São Paulo, na programação do festival Gerações Hip-Hop, do Sesc Pompeia. E, embora não tenham se cruzado no palco, ofereceram juntos uma oportunidade valiosa para entender a quantos e quais passos vem caminhando um dos mais importantes movimentos musicais de massa do país nas últimas décadas.

 

Com plateia lotada, o evento começou na sexta-feira, num palco polivalente que incluiu novos como o grupo Rosana Bronks (apadrinhado por Mano Brown) e veteranos como Brown, Ice Blue (dos Racionais), Helião (do grupo RZO), DJ Cia, Don Pixote e outros. Hábito arraigado do rap, 14 pessoas se acomodavam no palco do Rosana Bronks, entre rappers e seus chapas. Na apresentação coletiva conduzida por Brown, o palco foi se abarrotando conforme subiam 19, 23, 34 e mais, e mais, e mais participantes.

 

Essa tem sido uma mensagem central do rap nacional e uma das muitas razões a explicar sua imensa força: para o movimento criado a partir dos paulistanos marginalizados, a plateia é tão importante quanto o palco, quem está no alto é como quem está embaixo. Evidentemente Brown não desperdiçou a deixa ao subir ao palco classe média do Sesc, e já entrou proclamando “2010, os pretos no poder!”, variável da máxima “todo poder para o povo preto”.

 

No sábado, a mistura foi de gerações e geografias. Emicida e De Leve representaram a jovem guarda, enquanto o pioneiro Thaíde personificava a “velha escola”. Emicida e Thaíde cantaram por São Paulo, De Leve trouxe o rap do Rio de Janeiro para a fria noite paulistana. Só De Leve e mais dois subiram ao palco em sua apresentação, num retrato indireto da desconfiança mútua (e lamentável) entre o hip-hop duro de São Paulo e o rap funkeado do Rio.

 

Emicida trouxe uma grande novidade em termos musicais: se apresentou ao lado do Projeto Nave, uma banda com sopros, guitarra, baixo, teclados, e de um vocalista-cantor, Rael da Rima. Não subiram ao palco mais que dez pessoas, mas Emicida reiterou repetidas vezes que o show ali não era feito por ele, mas sim por cada um dos espectadores espalhados pela (também lotada) plateia. “Façam barulho, batam palmas para vocês”, sintetizou ao final, à sua maneira, a tradição aprendida com a geração Racionais.

 

Mano Brown apresentou-se em plena forma, amistoso e sorridente como ele, os Racionais e o rap nacional não eram anos atrás. Emicida é um rapaz de semblante leve, não exatamente sorridente, mas sempre terno e cativante. Em seus raps, conversa sobre as pequenas coisas boas do dia-a-dia, que costumam passar batidas, e pede atenção especial a elas. Honrando a tradição de contestação, diz que “nasci preto num país do Terceiro Mundo”, e que “os pretos precisam sair do vermelho”, ao mesmo tempo que propaga versos afirmativos como “pensar”, “fazer”, “tentar”, “viver”. Abandona a crônica da violência e vez por outra fala de amor, dizendo à namorada que com ela “cada beijo é o primeiro”.

 

Na apresentação do Rosana Bronks (assim batizado pela origem no Jardim Rosana), três mulheres compartilharam o palco com os rapazes, e uma delas até tomou a frente da cena durante um rap. O DJ falhou bem nesse momento, a música teve de reiniciar do começo. “Deixe eu te levar/ deixe-se levar/ vem dançar/ solte o corpo”, proclamou a moça (qual é o nome dela?, ninguém falou) quando pôde se expressar, num instante de notável quebra de paradigmas rappers.

 

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Quando os Racionais começaram a se firmar (e Emicida ainda usava fraldas), o rap não podia, não queria e/ou não estava aparelhado para sorrir, falar de amor, tratar as mulheres de modo gentil e igualitário, dançar ou encarar o Brasil de modo positivo. Identificar-se com a música brasileira tampouco estava no horizonte dos desbravadores do rap. Hoje, o Rosana Bronks começa citando “Santa Clara Clareou”, de Jorge Ben, De Leve incorpora a brasilidade do funk carioca, Emicida gosta de pagode e canta Dorival Caymmi (mas não no show de sábado) e o próprio Brown se permite citar sem reservas Tom Jobim, Noel Rosa, Roberto Carlos e Cassiano.

 

Ao final, o bonde do Brown ensaiou um “Podes Crer, Amizade”, de Toni Tornado, e ele em pessoa arremedou o ídolo Jorge Ben: “Tem que danchar danchando!”. Por sinal, o show terminou em pique de rap-funk (funk antigo, não carioca) e chamados do tipo “dance, dance”. Se o rap conforme guiado por Brown não era assim no início, hoje não demonstra a menor intenção de ficar parado no tempo. Vestido em camisa verde-amarela e empenhado em se comunicar bem e diretamente com seu público, Emicida rapidamente se firma como herdeiro de causar orgulho a Mano Brown.

 

Uma nota curiosa: na plateia de sexta, a lei antifumo pareceu subitamente suspensa. Muita gente fumava, e os seguranças não demonstravam exercer repressão. No sábado, tudo voltou ao lugar habitual. Eram talvez sinais indiretos da autoridade de Brown, algo que não se adquire com facilidade e que faz dele um dos homens mais importantes da moderna música brasileira. Emicida ainda tem longo caminho a percorrer, mas sua presença de palco, sua vontade de se comunicar, suas letras e suas quase-melodias deixam evidente que ele já é das figuras mais relevantes entre os garotos da nova música brasileira.

 

 

Fonte: Musica.ig

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