Filipe Zau: ‘Os rótulos chateiam-me’

Por Rubio Praia

 

 

 

Destaca-se pela altura, pelo timbre de voz e pela forma como fala da própria vida com múltiplas referências familiares e históricas. Filipe Zau é uma figura da cultura angolana.

Nasceu em Portugal. Foi um ‘acidente’?

Foi, eventualmente, um acidente geográfico. Não que tenha qualquer tipo de preconceito em relação à diáspora, ou à diáspora africana, mas porque o meu falecido pai era marítimo de Cabinda e a minha mãe era de Cabo Verde. O meu pai, sobretudo na altura do início da II Guerra Mundial, conseguiu ser empregadiço marítimo, era assim que chamavam, e fazia viagens para fora. Foi então que conheceu, em Lisboa, a minha mãe, que tinha saído de Cabo Verde e tinha ido a Portugal com os padrinhos. Nasci em Lisboa, mas fui criado no âmbito de uma família de tios, todos eles de Cabinda. Sei que o meu avô foi soba em Cabinda e está no Brasil. A determinada altura da viagem descobre-se que ela vai para o Brasil já grávida do estudante angolano. Como não podia deixar de ser, só podia ser um angolano a fazer essas patifarias [risos]. A meio do caminho ela atira-se para as hélices do navio e dá-se um encontro entre duas grandes sereias: a Kianda de Angola e a Iemanjá do Brasil.

O que representa esse encontro entre as duas sereias?

Representa a força da mitologia na vida das pessoas e o destino. As sereias, normalmente, apaixonam-se pelos homens e a paixão de Kianda foi um tripulante que, ao ver que ela se tinha atirado ao mar, atirou-se também.

Acredita em sereias?

Acreditar, não acredito. Mas que elas existem, existem…[risos].

O que o levou a enveredar pela música?

Como disse, o meu tio e, acima de tudo, um primo meu, cabo-verdiano, ex-professor universitário na Noruega, tocavam violão e cavaquinho e ensinavam-me. Fui vendo, tocando e havia muitos discos de música europeia e da América Latina. Era um indivíduo muito prolixo. Os meus tios, embora fossem semianalfabetos, tinham a universidade da vida porque, em cada porto a que fossem, viam coisas diferentes. Aprenderam muito e levavam para casa muita cultura.

Como pode ser interpretado o espaço sobre a educação no país, ‘Para fim de conversa’, que assina com regularidade no Jornal de Angola?

Penso que, de certa maneira, durante algum tempo as pessoas encontram falsos pressupostos e eu estou na Educação desde os meus 18 anos. Fiz a minha formação de professor primário a professor universitário, não saltando, mas fazendo a tarimba toda. A determinada altura houve problemas na educação e as pessoas começaram a atirar as culpas para o lado que não se pode defender. A monodocência seria o grande problema, mas não colocaram o problema na perspectiva real e que é o nível qualitativamente baixo de professores que temos. As questões não estão nas metodologias, na concepção da organização, nas filosofias de educação, porque estas hoje são parecidas uma às outras. A monodocência existe em quase todos os países africanos a Sul. O nosso problema é que, com a guerra, acabámos por perder muitos professores e os melhores acabaram por ser aliciados para a Sonangol, para a Diamang (actualmente Endiama). Isso desvalorizou a profissão. Hoje temos pessoas que dão aulas, mas não são professores. Quem dá aulas não é automaticamente professor. Como, à partida, quem está a fazer uma carpintaria qualquer em casa não é carpinteiro ou nem todo o indivíduo que esteja a fazer um curativo é enfermeiro. Em tudo é preciso formação e o professor, para ensinar, tem de ser formado. E isso é ‘para fim de conversa’ [risos].

Qual é a sua opinião sobre o fenómeno de professores que leccionam, em simultâneo, em várias instituições públicas ou privadas?

Esse é outro problema que tem de ser resolvido. É impossível um indivíduo ter tempo para preparar aulas e, no seu devido tempo, ver as avaliações. A chamada ‘turbodocência’ tem originado, às vezes, que se leve seis meses para dar uma nota ao aluno. Não pode ser… Porque o professor dá aulas aqui, ali e acolá, mas depois não tem tempo nem para preparar bem as aulas, nem para corrigir as provas no seu devido tempo. Acaba o semestre e o aluno fica sem saber se passou de classe ou não.

Qual seria a solução?

Se constituem a base da formação de recursos humanos, as questões de educação merecem uma aposta nossa. Tenho de encontrar formas e, às vezes, não é só o salário que resolve o problema. Se tenho um bom professor, tenho de lhe pagar bem e com isso ele já não necessita de andar a correr de um lado para o outro. Mas se tenho um bom professor e ele não é bem pago, ele é aliciado à mesma e vai ‘fazer’ o ordenado que precisa. Pulando daqui para ali e acolá. É nisto que um bom professor se estraga.

O que gosta de fazer?

Estou com 62 anos e estou em idade de começar a dedicar-me a cada vez menos coisas.

Pelo facto de ser compositor, escritor, admitiria ser chamado ‘turbo-artista’?

Aí não! Porque é impossível. A agenda [musical] de um cantor não permite que ele faça dois espectáculos ao mesmo tempo. Eu sou artista em cadeias diferentes. Escrever, posso fazê-lo ao fim-de-semana, mas dificilmente me vêem a subir a um palco. Posso ficar seis a oito anos sem o fazer.

Como presidente do sub-comité do LIDE Cultura lançou o repto de realizar o LIDE Show ainda este ano. Fale-nos um pouco sobre este projecto…

O LIDE é uma forma de ser solidário e não tem preocupações em ganhar dinheiro. É voluntariado. Sempre achei que a vida não é só ganhar dinheiro porque quando se morre não se leva nada. Por conseguinte, penso que, num país que tem as suas dificuldades, se formos só pela perspectiva comercial e não dermos nada de nós aos outros, não estamos a ser solidários. Vivemos em solidariedade e essa lógica tem de existir. O que posso dar mais do meu salário desinteressadamente a alguém? Escolhi as crianças que, por alguma razão não têm pernas, braços ou são traumatizadas de guerra. Já vimos que a paz está a construir muitas coisas, mas é preciso também construirmos as pessoas que perderam a sua auto-estima ao perderem um braço, uma perna e que, às vezes, são crianças. Não sei se vamos beneficiar filhos, primos, sobrinhos, mas vamos beneficiar muitos dos ‘nossos’ que não têm condições de arranjar uma prótese. Já que não podemos resolver tudo, podemos remediar alguma coisa. Parece-me ser um projecto que sensibiliza e que alguns artistas vão gostar de estar presentes, ao estilo dos ‘Live Aid’.

Tem outros projectos que não estejam englobados no LIDE Angola?

O outro desafio que fiz fora do LIDE Angola, com o Filipe Mukenga, foi apoiar a Fundação Mulher. Fizemos uma música, que vai sair no disco do Mukenga, que vamos oferecer a esta instituição para todas as mulheres que ficaram sem o peito. Sabemos o quanto isso é marcante para as senhoras por causa do cancro da mama. A mama é no fundo a parte do corpo que dá vida e que alimenta. Toda a mulher precisa do peito não só do ponto de vista estético, mas também para amamentar as crianças à nascença. Isso é um trauma.

Mudando de assunto. O que acha do Acordo Ortográfico?

Fiz parte da delegação de Angola na 7.ª reunião dos ministros da Educação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, no dia 6 de Abril deste ano, e penso que chegámos a duas questões extremamente importantes. O primeiro aspecto é que, como professores, tínhamos dificuldades na aplicação de alguns aspectos do referido acordo. Sobretudo quando há muitas dúvidas sobre quando se usa ou não o hífen. Do ponto de vista científico, há regras e muitas excepções à regra. O segundo aspecto é que temos alunos que estão a aprender as línguas africanas de Angola e estão a aprender português na escola. Tem de haver uma cooperação entre as línguas bantu e a linguística neolatina do português e isso não estava a ser feito. Penso que o Acordo Ortográfico tinha uma característica muito brasileira, que depois passou a ser luso-brasileira. Agora passa a ser um acordo de língua portuguesa em que todos nos vamos rever e vamos discuti-lo em pé de igualdade. Não é só a questão dos nossos termos com dupla consonância, nomeadamente Ndalatando, Ondjiva, Mpinda, Nzau e outras questões.

Que acontecimentos marcaram a sua vida?

Acho que a questão de o homem ter ido à Lua. É suposto o homem só existir na Terra e isso foi como ver um peixe viver fora da água. Há outras situações dispersas que me marcaram e que têm que ver com o conceito de viver em paz. Paz de espírito, respeito e aceitação da diferença em relação às pessoas que podem ser diferentes, sem preconceito nem estereótipos – de cor, roupa, cabelo ou tribo. Não tenho a preocupação dos rótulos. Os rótulos chateiam-me, são muito bonitos em medicamentos. Fora dos medicamentos, ou seja nas pessoas, os rótulos aborrecem-me um bocado. As pessoas são como são, diferentes todas elas. Até os gémeos são diferentes um do outro. Parto do princípio de que as pessoas devem culturalmente cultivar a sua identidade, mas devem ao mesmo tempo respeitar a identidade dos outros, tendo a empatia suficiente para entender que os outros são diferentes. Isso seria, para mim, o princípio para haver paz no mundo. Penso que o que vale nas pessoas é o que têm do nariz para cima, no cérebro – a cabeça é o que nos distingue uns dos outros. Por aquilo que valem, em termos de informação e qualidade, os homens cultos não precisam de viver de estereótipos…

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