Geledés – Instituto da Mulher Negra repudia a ação racista e intimidadora dos 12 policiais militares que entraram na EMEI Antônio Bento, na zona oeste de São Paulo (SP), para acusar a diretora de, ao abordar a mitologia dos orixás nas salas de aula e implementar o ensino da história e cultura afro-brasileira, “ditar sua ideologia”.
O episódio aconteceu em novembro de 2025 e, recentemente, vieram à tona imagens das câmeras corporais dos policiais. O caso aconteceu após o pai de uma aluna – também policial militar – denunciar a escola por, supostamente, submeter a filha de quatro anos a uma “aula de religião africana”. O homem foi até a instituição de ensino e chegou a rasgar desenhos feitos pelos próprios alunos. Em março, a Polícia Civil o indiciou por intolerância religiosa.
Em vídeo divulgado pelo portal de notícias G1 nesta terça-feira, 23 de junho, após terem acesso às imagens de câmera corporal do comandante que atendeu a ocorrência, é possível ver os agentes questionando a liderança sobre a execução de uma atividade escolar relacionada à mitologia dos orixás. Em seguida, afirmam que a proposta é inadequada por ter um suposto cunho religioso.
A gravação demonstrou o quanto a gestora respondeu à intimidação com base na legalidade, evocando as leis 10.639/2003 e 11.645/2008. Ambas estabelecem a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira, africana e indígena em todas as escolas públicas e privadas de ensino fundamental e médio do país.
Geledés – Instituto da Mulher Negra considera repulsivo que profissionais da educação, em especial os trabalhadores da EMEI Antônio Bento, tenham suas práticas pedagógicas cerceadas e perseguidas de forma tão violenta e repudia o fato da comunidade escolar e as crianças, ainda na primeira infância, ficarem à mercê de cena tão abjeta: um homem adentrar o espaço escolar – que deve ser um ambiente seguro – e rasgar desenhos feitos por elas.
Como uma organização comprometida com a defesa da primeira infância e que investe e acredita na fundamental implementação de práticas antirracistas, lamentamos esse episódio e seu absurdo roteiro, mas sabemos não se tratar de um caso isolado. Tal situação reafirma a existência de uma sociedade resistente à implementação de abordagens antirracistas e da Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER). Mesmo amparados por lei, educadores sofrem com represálias e falta de recursos para incluir a temática racial nas salas de aula.
Apesar das legislações existentes, ainda estamos longe do ideal. De acordo com a pesquisa “Desigualdade racial na Educação Básica: a percepção de estudantes e professores a partir do Saeb 2023”, uma iniciativa de Geledés – Instituto da Mulher Negra e do Instituto Alana, realizada pelo Afro-cebrap, metade dos estudantes não percebe o debate sobre desigualdade racial em sala de aula. Além disso, docentes negros e indígenas relatam maior compromisso com a aplicação do tema.
Estudos acerca do tema demonstram ainda que parte das escolas costuma incluir o debate racial apenas em datas comemorativas, como Dia da Consciência Negra. O que vai na contramão do que propõe a lei, ao definir o tratamento do assunto durante todo o ano letivo. Nesse sentido, com o 20 de novembro se aproximando, Geledés expressa preocupação com possíveis violações de direitos. Esperamos que perseguições similares não se repitam.
Diante dessa realidade, reafirmamos a importância de ações que corroborem com a construção de uma educação antirracista. Dentre elas, o monitoramento e avaliação da implementação das leis 10.639/2003 e 11.645/2008, a criação de protocolos para o enfrentamento ao racismo nas escolas, o fortalecimento de formações de professores e equipes gestoras em educação para as relações étnico-raciais, assim como a disponibilização de recursos e materiais pedagógicos necessários para a abordagem do tema.