Índia: Suicídio de jovem pesquisador dalit gera onda de protestos contra discriminação por castas

Sem terra, escola ou respeito, ‘os intocáveis’ são discriminados de todas as formas e, na maior parte das vezes, impedidos de buscar qualquer ascensão

Luis A. Gómez  por Opera Mundi
Na centenária cidade de Hyderabad, antiga capital de reinos muçulmanos e hoje núcleo da indústria da tecnología na Índia, na noite do dia 17 de janeiro Rohith Vemula decidiu escrever suas últimas palavras. “Amava a ciência, as estrelas, a natureza, e depois amava as pessoas sem saber que as pessoas se divorciaram faz muito tempo da natureza”, escreveu o jovem doutorando da Universidade de Hyderabad. “O valor de um homem foi reduzido à sua identidade imediata, à sua mais próxima possibilidade [de ser]”. Rohith organizou suas coisas, se despediu pedindo não perturbar seus amigos e inimigos e se enforcou no pequeno quarto da residência estudantil onde um amigo estava lhe dando alojamento.
Aos 26 anos, pobre e com seus direitos como estudante (e a bolsa com a qual sustentava e apoiava sua mãe e seu irmão mais novo) suspensos, Rohith não apenas queria escrever sobre ciência. “Como Carl Sagan”, queria mudar o mundo começando pelo seu entorno: membro do que desde muitos milênios atrás se conhece na Índia como as castas mais baixas, os intocáveis, o jovem era um conhecido ativista pelos direitos daqueles que, como ele, são discriminados diariamente em todos os âmbitos da vida pública do país.
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E sua morte começou a sacudir esse país imenso, dividido e cheio de deuses e de religiões.

“Gente maltrapilha”, gente sem direitos

Os dalit (ou “gente maltrapilha”, como seria sua tradução direta do hindu) são, na verdade, um conglomerado de grupos sociais, tradições e ofícios milenares que, segundo a religião hindu, estão formados pelas pessoas que estão mais baixo na escala social, religiosa e econômica, sem direito a nada: nem terra, nem escola, nem respeito. Ainda assim, nessa rigidez hierárquica, o mais famoso entre eles, o Dr. B. D. Ambedkar, foi o principal redator da Constituição indiana e um severo crítico de Gandhi, com quem polemizou durante muitos anos. Para sua gente, é um herói quase mítico.

Por isso, a grande maioria das organizações dalit na Índia têm Ambedkar em algum lugar, no nome ou no logotipo. Como a Associação de Estudantes Ambedkar (ou ASA), da Universidade de Hyderabad, que Rohith Vemula liderou com entusiasmo durante um tempo para ajudar estudantes como ele.

A vida de um estudante de uma casta baixa nessa universidade nunca foi fácil. Pulyla Raju, que se suicidou em 2013 ao não poder avançar em seus estudos (perseguido por companheiros e professores) ou Sunitha, que se suicidou grávida, em 2007, quando o jovem de uma casta privilegiada que a seduzia se negou a se casar com ela por ser de outra casta e zombou dela até depois da morte, sabiam bem disso. Assim como os 10 estudantes dalit que, nos anos 1980, foram suspensos por “contaminar” as aulas e nunca mais puderam voltar a estudar.

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Da mesma forma que acontece em Délhi e Mumbai, os estudantes dalit são discriminados sistematicamente na Universidade de Hyderabad. Negam-lhes comer nos refeitórios das universidades (para não “contaminar” os pratos e os copos), batem em seus companheiros de outras castas e os professores, com boas maneiras, humilham-nos nas aulas explicando que o conhecimento não está seu alcance, como revelou uma pesquisa do doutor Narayan Sukumar, acadêmico da Universidade Jawaharlal Nehru, em Délhi, que fez seu mestrado em Hyderabad.

É comum inscreverem contra eles insultos nas paredes e no Facebook, como fez há alguns meses Susheel Kumar, dirigente estudantil de uma casta alta e sobrinho de um conhecido político do partido Bharatiya Janata, o partido do primeiro-ministro Narendra Modi. Os insultos de Kumar não passaram despercebidos para Rohith Vemula e os membros da ASA, que o confrontaram com um protesto. O covarde aceitou eliminar seus posts e tudo pareceu voltar à aparente normalidade na Universidade de Hyderabad.

Mas, no dia 4 de agosto, Susheel Kumar decidiu acusar os membros da ASA de agredi-lo e feri-lo. A denúncia teve uma resposta imediata das autoridades universitárias, em particular do vice-reitor Appa Rao. Os cinco estudantes dalit ativistas foram suspensos em agosto de 2015 e a sua “vítima” seguiu sua rotina, mas Rohith e o seu grupo protestaram até que a universidade formou uma comissão para investigar o caso.

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