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Intelectuais discutem crise de representatividade na política

Dramaturgo inglês David Hare falou sobre distanciamento dos eleitores nas eleições em seu país

Do Jornal do Brasil 

Na semana em que o premiê David Cameron se reelegeu e os conservadores alcançaram a maioria absoluta no Parlamento britânico, o dramaturgo inglês David Hare concedeu uma entrevista ao jornal Folha de S. Paulo. Nela, o autor de peças políticas e notório defensor do estado de bem-estar social, comentou o atual cenário político em seu país e traçou um paralelo com o Brasil. Hare falou da crise de representatividade e das eleições cada vez mais afetadas pelo marketing, durante as quais os políticos “saem por aí numa bolha, completamente isolados de quaisquer pessoas, exceto aquelas que os apóiam”. Para Hare, a política ficou cada vez mais artificial e tanto a esquerda quanto a direita “falseiam seus instintos”. Com isso, o eleitorado está cada vez mais afastado.

Reginaldo Moraes, professor do Departamento de Ciências Políticas da Unicamp, concorda que o marketing tem se tornado um elemento fundamental e corrosivo nas campanhas. “O lugar onde se vê isso com mais clareza é nos Estados Unidos. Mas não é só lá. De certo modo, os americanos “exportam” diversos comportamentos e modas no mundo todo – para o bem e para o mal. É o que se vê aqui, também. Com o financiamento privado de campanhas eleitorais é quase impossível evitar que elas virem grandes campanhas de marketing”.

O sociólogo e cientista político Paulo Baía concorda parcialmente que os discursos têm se tornado artificiais. “O tempo presente, no caso brasileiro, tende a fazer desaparecer os conceitos de esquerda e direita. Mas estes não são artificiais, pois há uma tensão entre grupos bem definidos que pedem mais liberdade em relação ao Estado, identificados como direita,  e outros que pedem mais igualdade tendo o Estado como fator preponderante na definição dessa igualdade. São os definidos como esquerda”, diz Baía.

Marcus Ianoni, professor do departamento de Ciências Políticas da UFF, acredita que devido ao fato do desenvolvimento provocar um crescimento das classes médias, que se tornam o contingente social mais numeroso da população, ocorre uma certa convergência ideológica para o centro político. “A esquerda governista, aquela esquerda mais propensa a vencer as eleições e governar acaba se aproximando de um programa centrista. Na Inglaterra, as pressões neoliberais foram muito grandes, tendo se iniciado com Margareth Thatcher. O Partido Trabalhista acabou mudando para tentar sobreviver à avalanche neoliberal e adotou o Novo Trabalhismo, implementado por Tony Blair e Gordon Brown”, observa Ianoni.

“A visão de que tudo deve ser oferecido via mercado é uma visão política, muito bem representada pelo partido conservador inglês, por exemplo, mas não apenas por ele”, diz Reginaldo Moraes, acrescentando que é a visão que boa parte do empresariado fez vingar, a ferro e a fogo, inclusive utilizando habilmente as ferramentas do marketing. Não apenas do marketing eleitoral, mas da cotidiana formação da percepção dos indivíduos, através desse conjunto que podemos chamar de indústria da cultura e do entretenimento.

Ainda comparando a Grã Bretanha e o Brasil, o sociólogo Paulo Baía diz que os políticos, tanto lá quanto aqui representam interesses individuais e particularizados, como em qualquer democracia. “Em relação ao Brasil, nosso país nunca viveu um estado pleno de bem-estar social, sendo a desigualdade social estruturante e estrutural.

Assim, no caso brasileiro a maioria dos políticos transita entre uma democracia representativa de interesses e uma governança populista”.

Para Ianoni, ainda há uma diferença marcante entre os grupos políticos no Brasil: “a direita está combatendo o Estado de bem-estar social, mas não a esquerda, esteja ela no PT, PCdoB ou PSOL”, diz ele, acrescentando que devido às pressões neoliberais, o governo acabou tendo que fazer o ajuste fiscal.

Sobre a crise de representatividade, abordada por David Hare na entrevista, Reginaldo Moraes acredita que ela talvez seja maior, nos países desenvolvidos. “É verdade que temos aqui voto obrigatório – em parte, porque não votar também não tem custo tão grande. Se formos julgar pelos índices de abstenção, por exemplo, os Estados Unidos são um deserto cívico.

Para Ianoni, a crise de democracia representativa vem se desenvolvendo desde a década de 1970 e em função dela as forças neoliberais se colocaram como alternativa. “Mas elas também levaram o mundo à grande crise de 2008, de modo que os dois grandes modelos de capitalismo em disputa, o modelo intervencionista e o modelo neoliberal ainda não conseguiram se estabilizar e, assim, contribuir para um encontro mais harmonioso entre a economia e a política, entre mercado e Estado, capitalismo e democracia”, afirma ele.

“Se a democracia tem alguma chance de sobreviver e de se desenvolver – tornando-se mais ‘representativa’, isso depende, sobretudo, dos que estão fora desse circulo do poder e da riqueza. Mas… será isso uma utopia?”, questiona Reginaldo Moraes

Paulo Baía acredita que a saída para a crise de representatividade está na combinação dos novos mecanismos sociotécnicos de comunicação de uma sociedade do conhecimento e informatizada de maneira quase que universal e diálogos participativos permanentes com as diversas comunidades cívicas, formais e informais. “Nunca tivemos um ambiente tão propício para combinar a democracia direta de maneira contemporânea, para reforçar a democracia representativa. Isso sendo feito, a crise de representatividade tende a ser arrefecida, como aconteceu na Grécia e na França recentemente”, diz ele.

Já para Ianoni, a saída está na existência de um bloco sociopolítico “que apoie um modelo de capitalismo inclusive, democrático, com menos ênfase no ‘rentismo’ financeiro e capaz de gerar níveis de crescimento mais satisfatórios”.

 

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